Ângelo Emílio da Silva
Pessoa
As collonias... são estabelecidas
em utilidade da metrópole. Por máxima fundada nesta utilidade os habitantes das
Collonias devem ocupar-se em cultivar, e adquirir as producções naturaes, ou
matérias primeiras, para que sendo exportadas à Metrópole, esta não só della se
sirva, mas aperfeiçoaduas possa também tirar das collonias o preço da mão
d’obra e possa commerciar no superfluo com as Nações estrangeiras. AUTOR DESCONHECIDO. Roteiro do Maranhão a Goiás pela Capitania
do Piauí. (final do século XVIII).
A título de exemplo, diz-se que o Clube de Regatas Flamengo possui cerca de 25 milhões de
torcedores. O time com maior torcida no país, nesse sentido, possuiria em torno
metade da população espanhola, inserido numa economia que é maior que a daquela
nação ibérica. Como explicar, então, que esse time – tal como diversos outros
de porte similar – viva de pires na mão, apesar dos grandes negócios de vendas
de jogadores para times espanhóis, italianos, alemães, ingleses, ucranianos,
turcos, e por aí vai, em escalas decrescentes de economia e poder
futebolísticos?
Como explicar que a mídia esportiva brasileira comemore tão efusivamente
quando um craque de um time nacional seja vendido para um time estrangeiro (quando deveria protestar veementemente contra essa situação) e –
alegadamente tão ciosa da moralidade – não discuta efetivamente os esquemas de
evasão fiscal, lavagem de dinheiro e outros trambiques, alguns bastante notórios e bem recentes?
Vamos a alguns fatos:
Por circunstâncias de jogo, o time brasileiro até poderia ter vencido a
Alemanha no jogo que se encerrou há pouco. Um gol brasileiro no início, certa
instabilidade alemã, novo gol no contra-ataque e placar seguro na base do
drama, tal como se deu com a Colômbia. Afinal, a seleção alemã que enfiou 7
gols no time brasileiro, chegou a passar maus bocados com os EUA, a Argélia e
Gana, que não são assim potências tão consideráveis. Por outro lado, as
individualidades do time brasileiro não são jogadores de baixo nível técnico, a
comissão técnica é experiente e tem resultados, mas, o conjunto, simplesmente,
não aconteceu, não chegou a existir um coletivo.
Posto isso, o time brasileiro simplesmente se desmanchou como uma
maionese que desanda. Na cultura popular, a amarelinha amarelou. Não padeceu de
apagão futebolístico, mas de apagão moral (falo da moral coletiva e não do caráter
certamente excelente de cada jogador), desmanchou-se e a prova mais dolorosa é
que nenhum gol foi resultado de contra-ataques do time tedesco, mas de ataques
não combatidos por uma equipe canarinho absolutamente apática, totalmente bisonha. Os 5 a 1 da
Holanda sobre a Espanha foram resultantes de tentativas desesperadas dos
espanhóis de correr atrás do placar adverso, os 7 a 1 da Alemanha foram obra do colapso de um quase-coletivo que não chegou a se realizar.
Parece que o time esteve a perigo em outros jogos, mas a casa só caiu na
undécima hora. Digo time, e não seleção, basicamente porque não existe seleção
brasileira: sem culpas dos jovens jogadores, eles não jogam no futebol
brasileiro, não frequentam estádios brasileiros, não convivem com a população
brasileira. São vendidos como produtos coloniais, tal e qual o procedimento que
o anônimo do século XVIII dizia sobre o Brasil de antanho (ou hodierno?). Nos
tornamos fornecedores de matérias-primas e usamos camisas de Barcelona, Bayern,
Milan e times estrangeiros com orgulho de torcedores sinceros. Pouco a pouco as
camisas e as histórias dos times nacionais vão se tornando meras barrigas de
aluguel para gerar craques que irão atuar em outros gramados. A conta é fácil:
de Flamengo, São Paulo, Palmeiras, Corinthians, Botafogo, Internacional, Vasco
e outros times outrora poderosos, não havia NENHUM no time brasileiro. Enfim,
onde não existe o futebol de qualidade no dia-a-dia não há como se gerar um
selecionado verdadeiro, dá apenas para catar um time às pressas, treinar uns
30, 40 dias e torcer para a coisa engrenar à base de individualidades
inspiradas.
Para o craque maior (com parcelas decrescentes do mesmo método para os
demais), a receita foi abusar do merchandising,
propagandear cuecas, óculos, chuteiras douradas e outros bibelôs, enquanto o
futebol ia minguando a olhos vistos. Basta ver que depois das tais chuteiras
douradas e umas tantas baixadas de calção para promover a fábrica de cuecas, o
futebol foi declinando. Certamente o “garoto” não merecia a séria contusão e
pode ainda fazer uma bela carreira, mas deve diminuir a publicidade e amassar
um certo barro e comer mais feijão com arroz antes de superar gente como
Rivelino, Garrincha, Nilton Santos, Jairzinho, Sócrates, Didi, Zico, Ademir da Guia, Falcão,
Djalma Santos, Leônidas da Silva e tantos outros que envergaram a famosa
“amarelinha”. Por ironia do destino, nas velhas gestas de cavaleiros andantes,
quando algum dos duelantes movido pela vaidade vestia uma armadura ou usava uma
espada dourada, acabava inapelavelmente derrotado.
Para a torcida que estava presente às partidas – a maior parte de gente
que tinha bastante dinheiro para pagar o espetáculo mas nunca pisou num
estádio, não vive o dia-a-dia dos times brasileiros, não participa da “cultura
popular” do futebol – a coisa se resumiu a não ter palavras de ordem (ou
repetir o surrado "eu sou brasileiro..."), vaiar hinos estrangeiros, xingar a
Presidente, esbanjar selfies e outras
coisas que não representam exatamente o que se passa nos estádios brasileiros, nos jogos
sem badalação e toneladas de dinheiro, que fazem parte da cultura futebolística
que foi (e digo FOI porque a coisa está passando e a história que interessa é a
do futuro) a verdadeira força do futebol brasileiro.
O slogan que dizia “agora somos
um”, representa, como devíamos saber, uma imaginação de nacionalidade, que
supostamente expressaria nossa projeção ante o mundo. O futebol é algo no qual
supostamente damos certo, somos superiores, e isso é uma espécie de contraparte
do tal complexo de vira-latas, tão ciosamente e secularmente pregado pelas
elites brasileiras contra o nosso povo, tratado como boçal, preguiçoso,
incapaz. De repente, em meados do século XX, no cerne desse povo visto como chinfrim,
nasce uma espécie de arte que poderia projetar algo positivo em torno desse
imaginário da nação. Não à toa que, a par das manipulações políticas e
negociatas econômicas, o futebol se constituiu n as brechas como uma espécie de patrimônio
cultural do povo e da nação. Essa cultura futebolística afagou nossos sonhos de
grandeza, de justiça, de melhoria. Chega a ser ironicamente doloroso – ou sintomático
– comemorar o centenário da seleção com um fiasco de tal magnitude.
É essa cultura futebolística – verdadeira galinha dos ovos de ouro – que
está sendo esganada pela ganância desenfreada dos dirigentes, empresários e
jornalistas-empresários do meio, que estão longe de sofrer algum prejuízo mesmo
quando os times e as seleções perdem os jogos e os campeonatos. Nossa cultura
futebolística já havia perdido o campeonato bem antes da Copa começar.





















