domingo, 20 de dezembro de 2020

Cronos e Zeus na errante dança do tempo.


Calma, tudo está em calma

Deixe que o beijo dure, deixe que o tempo cure

Deixe que a alma

Tenha a mesma idade que a idade do céu

Paulinho Moska


        Nossos avós mais antigos, quanto mais recuarmos, inúmeras gerações atrás, não possuíam aparelhos de celular, de televisão, livros impressos, a escrita ou quaisquer outras mídias que nos são tão usuais no papel de mediar nossas relações com as demais pessoas ou as coisas. Muitas vezes, sua experiência de observação era direta ou por ouvir dizer, tendo a oralidade um papel essencial na transmissão do não visto, mas visto por alguém cuja palavra era digna de fé.

                Para estabelecerem a contagem do tempo, para sair para caçar, fazer certos plantios ou mesmo migrar, dependiam de uma acurada percepção da mudança das estações e marcavam essas mudanças pela relação com alguns fenômenos observados em certas plantas ou animais ou ainda os movimentos de certos astros no céu: quando determinada estrela estava em certa posição, era o tempo certo de fazer algo, o calendário era determinado pela observação dos fenômenos naturais e sua observância era questão de sobrevivência estação após estação. Se seria seco ou chuvoso, quente ou frio, tudo isso dependia dessa apurada observação e dela, por sua vez, poderia depender a diferença entre a abundância e a penúria. Dessa forma, e considerando as exíguas dimensões das cidades – ou até mesmo a sua inexistência – e de uma possante iluminação artificial (reduzida apenas a fogueiras ou pequenos lumes), as noites eram bem mais escuras e o céu apresentava um verdadeiro luzeiro que não conseguimos avistar, ofuscado pelas luzes de nossas urbes. Também a falta do barulho de fundo dos automóveis, deixava os ouvidos mais atentos aos pequenos barulhos da natura, que podiam significar até o perigo de uma fera à espreita. 

Assim, esses nossos mais antigos avós viam e ouviam mais as vistas e sons que o texto do mundo natural lhes contava. Olhavam muito mais para o céu, a fim de ordenarem seu tempo pela dança que os astros pareciam fazer no firmamento. Astros mais brilhantes, de distintas cores ou que ocupassem determinadas posições pareciam se relacionar a certas ocorrências. Entender essa “dança dos astros” ficou cada vez mais a cargo de certas pessoas sábias, para as quais a junção de duas palavras gregas astros (corpos celestes) e logos (discurso ou estudo), se daria o nome de astrólogos.  Se poderia crer que essa dança celeste determinaria em alguma medida os destinos de pessoas e povos inteiros. Muitas e muitas gerações adiante, já nos nossos tempos ditos modernos, a busca de um critério mais científico para essas observações, fez com que dessa matriz se derivasse outra palavra, juntando astros dessa vez a nomos (leis, governo), levando a astronomia, que nascera de seu velho tronco e com ela haveria de esbarrar daí em diante.

Observatório Maia de Chichén Itza, um dos muitos postos de observação dos astros criados pelas mais diversas culturas humanas.

Mas além de governar a vida cotidiana, olhar para os astros e saber pela voz dos antigos que eles estavam lá há muito tempo, dava ideia de uma permanência bem maior que a breve vida humana, o que levava a uma busca de explicações das origens e a tentar saber de onde vinha o universo e a vida, a criação. Céus e terra pareciam estar sempre ligados. A isso, a observação do universo – o cosmos para os gregos – muito mais tarde se juntou outra palavra, também grega – discurso ou logos –, donde a palavra moderna cosmologia, ou estudo dos fenômenos nas diferentes escalas do universo. Mas mesmo considerando as palavras modernas, cada povo e cada cultura possuíam suas próprias astronomia e cosmologia, relacionando sabiamente a sua vida com a observação da natureza que a cercava e da qual extraía e conferia sentidos. Se usamos palavras gregas é apenas pelo costume, mas ela poderia ser outra palavra extraída de outro idioma, de outra tradição, aqui tradição no melhor sentido de “ouvir dizer aquilo que os e as avós contam para os netos e netas”.

Cada povo e cada cultura estabeleciam suas observações celestes, que estavam relacionadas à sua posição mais próxima ou distante da linha que o sol parecia descrever no céu ao longo da mudança das estações – ora mais ao sul ora mais ao norte – e considerando a curvatura da Terra (muito embora disso a grande maioria não tivesse consciência, entendendo viver numa superfície plana), via os astros de maneiras diferentes e lhes atribuía nomes, de acordo com suas formas de percepção. Traçar linhas imaginárias entre certos astros, para alguns povos indígenas de língua Tupi-Guarani naquilo que hoje chamamos Brasil, era ver no céu um Homem Velho, uma Anta ou uma Ema; já na cosmologia dos Tukano, seria possível avistar um Camarão ou um Tatu. Por sua vez, na tradição africana dos antigos egípcios, ver uma barca, uma ovelha ou um leão era desenhar essas linhas imaginárias com outros traços mentais. Os antigos chineses dividiam o céu nas regiões do dragão azul, tartaruga negra, tigre branco e pássaro vermelho, onde identificavam boi, coração e carruagem em lugar das antas ou barcos de outros povos. Na linhagem ocidental que herdamos, desenvolvida ou bebida pelos gregos junto aos povos do Oriente próximo, acabamos atribuindo a essas linhas imaginárias as figuras de animais como escorpiões, peixes, touros, caranguejos e cabras, de instrumentos como a balança, ofícios como um aguadeiro, uma mulher virgem ou ainda figuras de sua mitologia como o homem cavalo Sagitário ou o guerreiro Órion. Todas essas “constelações” são linhas que a imaginação dos avós mais antigos, em diversas culturas, desenharam na tela do universo que contemplavam.  



Cada cultura identificava nos desenhos mentais que fazia dos astros figuras familiares às suas vidas, como os Tupi-Guarani com a Anta do Norte e os Gregos com o Aguadeiro (Aquário). 

                Alguns daqueles astros pareciam ter movimentos bastante fixos e previsíveis – sendo o Sol e a Lua os governantes do dia e da noite e as constelações partícipes dessa dança – e, portanto, observar sua trajetória e relacioná-la à mudança das estações era uma maneira de organizar a faina nos devidos tempos. Outros pareciam errar ao longo das estações do ano e ao longo de anos pareciam chegar mais próximos, alinhando-se ou afastando-se. Para eles os gregos atribuíram o nome de errantes ou vagantes, cuja palavra Planis levou aos errantes planetas que parecem fazer movimentos muito inusitados no céu ao longo das estações. Ainda havia aqueles fenômenos ariscos e rapidamente mutáveis, mas familiares, que vinham aparentemente sem maior aviso e poderiam ser benfazejos ou malfazejos, a depender das circunstâncias, estando neles orvalhos, chuvas, temporais ou granizo, nevascas, aparentes exalações de fogos e rápidas estrelas que pareciam cair e se evaporar no firmamento. Para tanto, a palavra grega meteoros levou à observação dos traços que indicassem a proximidade de alguns desses fenômenos e deu origem ao que chamamos modernamente de meteorologia, que interessa a um agricultor que precisa saber o tempo certo do plantio ou a uma jovem urbana que precisa saber se “vai dar praia”. Percebendo a permanência de certas características constantes no tempo (seco, quente, chuvoso, frio etc.), os gregos também trouxeram a palavra clima (pender, inclinação), pois associavam a constância de certos tempos (neve no inverno ou sol tórrido nos verões) a um padrão que levou à climatologia, que se relaciona diretamente com um conhecimento irmão da Historiografia, a Geografia, que descreve a Terra (Gaia) em suas mais diversas fenomenologias e as relaciona à interação entre os fenômenos humanos e naturais, podendo, inclusive, lidar com fenômenos de mudanças na própria terra na qual pisamos e que transcendem o tempo da ação humana através da Geologia. Por fim, muito raramente, apareciam no céu astros de longas cabeleiras, vindos sabe-se lá de onde e que sumiam tão misteriosamente quanto tinham aparecido. Suas comas (as cabeleiras para os gregos) deram origem à palavra Cometas, que pareciam astros que carregariam presságios de mudanças inesperadas na ordem que parecia governar o cosmo, que talvez trouxessem a desordem, ou o caos (palavra hebraica herdada pelos gregos para ser coberto de trevas) e que parecia representar algo de antes da criação, de tempos tão profundos e distantes que a mente humana não podia conhecer e geralmente deveria temer.













O Vocabulario Portuguez & Latino do Padre Rapahel Bluteau anotava no século XVIII essa denominação de errantes ou vagabundos para os planetas.

 

Em todas as culturas e lugares, muitas vezes eram atribuídos a todos esses astros ou aos mais portentosos que eram visíveis certos poderes e características divinas, para os quais se deveriam observar certos respeitos e mesmo rituais para garantir bonança e longa vida. Assim, culturas, no sentido mais pleno de materialidade da vida e imaterialidade de suas representações mentais, estavam intimamente ligadas aos instrumentos agrícolas que lavravam a terra ou ao uso das armas para abate de animais e ao culto das forças primordiais que pareciam governar tudo isso. Os céus e a Terra pareciam estar em estreito contato e os tempos celestes e terrestres pareciam comungar destinos comuns. Para organizar essa passagem dos tempos e estações, em suas regularidades e temendo as eventuais rupturas, a palavra grega Calein (chamar ou convocar para designar as ordens do tempo) deu origem aos calendários (e há diversos deles para além dessa tradição ocidental que usamos), que governam os ciclos e as setas dos tempos que se repetem ou dos que seguem adiante para não mais voltar. A observação das posições do Sol e da Lua nos céus governam as datações que os distintos calendários oferecem, de forma a permitir contar o tempo que se passou ou o que ainda está por vir.

A obsessão em controlar a ordem dos tempos (e nela acomodar fenômenos bem humanos como respeitar contratos e pagar contas) levou à busca de calendários que fossem cada vez mais precisos na relação entre a observação das regularidades da natureza e as necessidades das ações humanas. Não é à toa que autoridades como Júlio César (séc. I a.C.) ou o Papa Gregório XIII (século XVI d.C.) tenham determinado reformas nos calendários que designamos como Juliano e Gregoriano (esse que usamos habitualmente no mundo ocidental). Algumas das providências das grandes revoluções francesa e russa foram a de mexer no calendário para demarcar novas formas de contagem dos tempos e de sua adequação aos seus programas revolucionários. Não obstante, outras tradições usam outros calendários e outras demarcações. No mundo ocidental, dividimos a contagem do calendário entre antes e depois do nascimento de Cristo (a.C. e d.C.), tal como estabelecido pela influência do cristianismo, muito embora chineses, judeus, muçulmanos e outras culturas e povos utilizem distintas demarcações e organizações dos calendários, tal como o calendário muçulmano, que usa a Hégira de Maomé (ano 622 da Era Cristã) como esse ponto de demarcação.  


Na Torre dei Venti, do Palácio Vaticano, os astrônomos Christopher Clavius e Aloisius Lillius observaram a defasagem do calendário juliano, levando o Papa Gregório XII a publicar a Bula Inter Gravissimas, em 24 de Fevereiro de 1582, determinando que após o dia 04 de Outubro daquele ano se pularia para o dia 15 do mesmo mês, dando um "cavalo de pau" de dez dias no calendário, que não foi aceito durante muito tempo. Na Rússia, apenas um Decreto assinado por Lenin em 24 de Janeiro de 1918 ajustou o calendário juliano ao gregoriano. 


Dezenas e dezenas de gerações se sucederam e ingressamos naquilo que denominamos tempos modernos, nos quais as cidades ganharam dimensões jamais vistas, a iluminação artificial começou a ofuscar a luz desses astros, bem como a relação entre as pessoas e as forças da natureza passaram a ser cada vez mais mediadas por instrumentos, muitas vezes criando uma total alienação do olhar para entender o mundo ao redor, criando uma espécie de redoma que faz com que nossas formas de sensibilidade se tornem muito distintas das de nossos ancestrais. Os mais modernos de nós acabaram esquecendo de olhar atentamente os céus, muito embora cosmólogos, astrônomos, meteorologistas e astrólogos a eles continuem atentos nos seus ofícios e com seus objetivos e métodos de perscrutar o éter (outro nome grego), seja em busca de respostas às suas indagações mais diáfanas – quais as nossas origens e nossos destinos? – seja em busca de indagações mais práticas – é tempo certo de plantar? Qual a previsão do tempo para o próximo mês? Que cor de roupa me dará sorte no dia do meu aniversário natalício?

Os historiadores, muito embora às vezes não tomem consciência disso, viajam nessas águas, à medida em que lidam com a mudança dos fenômenos humanos nos tempos, palavra essa última que vem de uma divindade primordial grega, Cronos, o tempo, que devorava seus filhos ao nascerem, e que levou a estarem muito atentos à cronologia e aos calendários, para conseguir identificar na duração o lugar específico que cada fenômeno humano ocupava e a sucessão ou repetição que esses mesmos fenômenos apresentavam. Numa brilhante percepção, o escritor inglês Henry Fielding (1707-1754), na sua obra prima Tom Jones, identificava o deus dos historiadores a um “deus cervejeiro”, uma vez que essa divindade parecia viajar feito um bêbado por séculos e eras, às vezes pulando extensas durações em apenas uma ou duas linhas de seus escritos, quando diziam algo do tipo “nos três ou dois últimos séculos a vida foi sacudida pela revolução industrial” ou quando olhamos para Cleópatra e para as pirâmides de Gizé e identificamos tudo isso sob o rótulo “antiguidade egípcia”, mas que feitas bem as contas descobrimos que a rainha, cuja aludida beleza teria seduzido Júlio César e Marco Antônio, teria vivido cerca de meio milênio mais próxima de nós que aqui hoje lemos essas linhas que das pirâmides dos seus antepassados Faraós do Egito. Definitivamente, só cerveja para lidar com essas grandezas.

Afora tudo isso, sabemos que o tempo tem uma duração física e outra psicológica que raramente se encontram ou muitas vezes se trombam. Basta considerar os cinco minutos finais de um jogo de futebol e as sensações de quem está ganhando por pouco e de quem precisa ganhar por pouco: para os primeiros, esses cinco minutos se arrastam por uma verdadeira eternidade enquanto para os segundos, os cinco minutos parecem se esvair em míseros segundos. Essa relação entre as diversas formas de percepção da temporalidade nos colocam diante de indagações poderosas sobre se nós passamos pelo tempo ou é ele que passa por nós.

Um dos mestres do nosso ofício de tantos mestres, Fernand Braudel, num artigo seminal, A Longa Duração, discute como essas diferentes escalas de tempo se relacionam à vida humana. Desde o tempo febril das atividades cotidianas, sob as quais muitas vezes surge o inusitado ou inesperado, mas que observando numa escala de tempo muito prolongada pode permitir entrever a permanência de hábitos arraigados ou as rupturas com os mesmos. Chama atenção para fenômenos de curtíssima, curta, média, longa e longuíssima duração, que convivem articulados num tempo que é simultaneamente uno e múltiplo. Medir segundos, horas, dias, meses e anos estaria nas nossas capacidades mais perceptíveis, séculos e milênios dependeriam de abstração por ultrapassarem essa escala de vida humana. Para além da escala de vida humana (e da própria humanidade enquanto espécie) estariam tempos profundos da geologia e da astronomia, orçando em milhões e bilhões, algo incomensurável para a nossa percepção concreta. Esses tempos exigem distintos calendários e relógios com escalas muito distintas de mensuração. Parte deles pode ser percebida de forma consciente (quando cronometramos uma partida de futebol ou a duração de uma prova escolar) ou inconsciente (o tempo dos astros ou das batidas do coração, que estão lá, mas que não costumamos ou não podemos contar).  

Certo dia, ao ir para a UFPB ministrar uma aula sobre o referido texto de Braudel, o autor dessas linhas se propôs a um experimento de tentar tornar consciente pelo menos uma parte do tempo inconsciente, passando a anotar mentalmente a troca de marchas no câmbio do carro ao longo do trajeto e registrando as operações possíveis do próprio ato de dirigir ao longo do caminho. Concentração absoluta no ato de dirigir. Só pode relatar que chegou exausto e suando profusamente, bem como com a percepção bastante alterada (porém nada perto de Aldous Huxley nas suas “Portas da Percepção”), não recomendando esse experimento para qualquer ser em sã consciência. Ao anotar no quadro o número de marchas trocadas e explicar o seu sentido, a cara atônita dos alunos indicou que aquilo jamais deveria ser tentado novamente.

Todo esse rodeio sobre observações e tempo chega à Quarta-feira, dia 16 de Dezembro do ano de 2020 da Era Cristã, quando alertado por uma notícia, esse autor passou a observar no início de noite após noite o lento movimento de aproximação das órbitas dos dois gigantes gasosos do sistema solar, aqueles errantes que os gregos apelidaram de planetas, a saber, Júpiter e Saturno (nomes romanos de Zeus e Cronos nas suas designações gregas), que foram aparecendo cada vez mais próximos e visíveis a olho nu, numa conjunção cujo ponto máximo se dará no dia 21 de Dezembro, ou seja, amanhã. Essas aproximações e afastamentos dos planetas (na verdade separados por milhões de quilômetros, mas aparentes para o nosso ponto de observação), derivadas da trajetória de suas órbitas e da posição da Terra em relação a eles, permite que aqui e acolá seja possível vê-los e perceber esse movimento “vagante” nos céus. Inclusive, como as órbitas possuem ligeiras inclinações em relação ao Sol, nem sempre as aproximações se estabelecem com os mesmos ângulos. Uma conjunção plena, quando um planeta chega a eclipsar ou outro em relação ao nosso ponto de observação, a Terra, é bastante rara.

No caso de Júpiter e Saturno, esse alinhamento acontece a cada 20 anos terrestres, mas devido aos ângulos levemente inclinados de suas órbitas, o nível de aproximação aparente para o observador nem sempre é o mesmo. Já obtivemos notícias de fontes diversas que essas aproximações em ângulos muito aproximados são bastante raras e que a última aconteceu cerca de 400 anos atrás e à noite cerca de 800 anos atrás. Era século XIII da Era Cristã e VI da Hégira, nada a se desprezar no nosso tempo de vida humana.

Caminho do alinhamento entre Júpiter e Saturno. Foto Sky at Night Magazine/ Pete Lawrence.


        Tem sido possível ver a lenta, mas perceptível aproximação desses dois Reis do Sistema Solar, a olho nu, de maneira a poder experimentar uma sensação que nos une aos nossos mais distantes avós e ver o relógio cósmico funcionando, numa escala de tempo que está fora de nossa experiência concreta de observação e percepção na quase absoluta parte do tempo. Depois de dois dias de observação, os dois pequenos pontinhos distantes pareciam cada vez mais próximos e seu movimento podia ser constatado noite após noite. Nessa noite do dia 16, diante da magnitude do que víamos, fomos levados a constatar que pessoas que viram tantos fenômenos espetaculares do cosmo, bem que gostariam de ter essa chance que estava nos sendo oferecida caso tirássemos os olhos das telas de celulares e dos televisores e levantássemos a cabeça para o céu. Pessoas como Nicolau Copérnico, Tycho Brahe, Galileu Galiei, Johannes Kepler, Isaac Newton, Albert Einstein e Carl Sagan, que tantas maravilhas cósmicas puderam apreciar, bem que gostariam de estar junto conosco para ver essa, da qual foram privados pela simples razão de terem vivido em tempos distintos dos nossos. Não necessariamente visando fazerem grandes descobertas, mas talvez pelo fascínio de poderem ver esse fenômeno nessas condições tão prosaicas. 

  
Na noite de 17/12/2020, sendo possível perceber o alinhamento (desde que ampliando as imagens), fotografado pelo vizinho Érico Lucena. 


        Não poderia ser menor o nosso entusiasmo de ver os dois gigantes gasosos, as duas velhas divindades gregas – ou os nomes que tivessem adquirido em outras culturas – nos dar uma aula de observação de uma escala de tempo que ultrapassa de longe a nossa percepção comum. Talvez ela nos aproxime desses distantes avós e nos levem a ter a humildade de reconhecer a grandeza do universo diante da singeleza das nossas vidas individuais, o que longe de nos esmagar, eleva o nosso espírito e faz crescer o nosso universo interior, para além do egocentrismo do “ser capitalista”, que imagina que o cosmo está ao seu serviço e morre vítima de prepotência, ambição ou ainda depressão. O Titã Saturno, o velho Cronos que governa os tempos e Júpiter, o Zeus maior do Olimpo, se cruzam mais uma vez diante das retinas da humanidade e nos lembram que sempre é tempo de mudança e que “o novo sempre vem”, como nos lembra com grande sensibilidade um velho vate de nosso melhor cancioneiro.   


*Para a querida irmã Fátima, que comemora mais uma translação em sua vida, em pleno Equinócio de Verão no Hemisfério Sul o no dia do grande encontro dos gigantes gasosos no céu. 

terça-feira, 2 de julho de 2019

Percebendo os calcetas: um aprendizado sobre a observação histórica.


O clássico texto Apologia da História, de Marc Bloch, em seu capítulo 2, tece riquíssimas considerações sobre a observação histórica, que se remete ao que os historiadores conseguem ver e como eles conseguem perceber aquilo que veem. Com finas análises de um consumado mestre, Bloch fornece lições para todas as gerações daqueles que se dedicam ao labor da História.

Os calcetas. Imagem do artista francês Jean-Baptiste Debret
retratando o Brasil do século XIX. 


Entre outras questões, um dos pontos centrais da argumentação de Bloch é que o olhar do historiador deve estar sempre aguçado para perceber detalhes aparentemente miúdos e que as respostas que um historiador obtém das suas pesquisas depende fundamentalmente das questões que ele levanta; sem questionário, sem indagações, sem problematizações, como mesmo diz Bloch “é o tudo pronto que espalha gelo e tédio”. Conclui esse capítulo nos lembrando que a pesquisa histórica não está despida das surpresas, da possibilidade de se defrontar com o inesperado.

Em Agosto de 2018, coube-nos a ventura de topar com um conjunto de documentos aparentemente perdidos da Câmara Municipal da Cidade da Parahyba (que hoje englobaria grosso modo os Municípios de João Pessoa, Cabedelo, Lucena, Conde, Bayeux e Santa Rita), referentes à pequenos períodos de inícios do século XIX e alguma coisa do início do XX, uma pequena parcela do que deve ter existido em outros momentos. Daí desenrolou-se um projeto, que se encontra em andamento, cujos resultados ainda deverão trazer algumas possibilidades bastante ricas em termos da história da Cidade.

Fazendo um arrolamento muito geral do que foi entrevisto até o momento, temos documentos sobre Escolas de Primeiras Letras, obras públicas, abastecimento de gêneros, questões de política local, relações com o governo Imperial, saúde pública, abastecimento de água, festividades cívicas e religiosas, enfim, uma grande diversidade de temas que nos permite chegar um pouco mais próximos do cotidiano da velha cidade.


O Presidente da Província informa não haver
calcetas disponíveis para as obras de limpeza
das fontes públicas [27/10/1826]
Preocupado de maneira pessoal com questões ligadas ao fornecimento de água, bicas, chafarizes, cacimbas, pus-me a observar com mais atenção documentos que remetiam à essas questões. Num deles, localizado há alguns meses, datado de 27 de Outubro de 1826, o Presidente da Província, Alexandre Francisco de Seixas Machado, responde negativamente à uma solicitação da Câmara acerca do fornecimento de seis calcetas para a limpeza das fontes públicas, que estavam sofrendo de encalhes de areias, devido a recentes enxurradas na Cidade. Focado na questão das fontes e do encalhe das areias, deixei passar em brancas nuvens o termo calcetas e a vida seguiu seu rumo. Supunha ser algo ligado à calçamento, mas não aprofundei o significado da intrigante palavra.

Passado certo tempo, um aspecto do todo da documentação me dava alguma inquietação, que diz respeito à quase invisibilidade do mundo do trabalho e das pessoas dos trabalhadores, muito embora um historiador treinado no ofício saiba que ele e eles está e estão lá. No que foi visto até o momento, só um documento fala explicitamente de escravos, outro menciona certas atividades de pesca, olaria e plantio de capim na baixada do Varadouro, outro, ainda, cita a existência de teares na cidade, mas tudo é muito escasso e fugidio como são certas histórias que decorrem quase à sombra, quase invisíveis no “grande palco da História”; o trabalho e os trabalhadores normalmente habitam esses desvãos.

  Dessa inquietação, nasceu uma indagação sobre onde poderia haver pistas fugazes desses trabalhadores e seus trabalhos no meio daqueles velhos papeis. Foi quando o documento das fontes e das areias se transformou no “documento dos calcetas”. A mudança do foco do olhar e a pergunta que não havia sido feita, trouxeram outra história tão rica à tona, a história do uso do trabalho compulsório para apenados durante o período colonial e imperial. A rápida lembrança de uma imagem, já vista tempos antes, de Jean-Baptiste Debret, que falava de calcetas, foi o estalo sobre o que estava lá – à vista – e ainda não tinha sido visto.

Jean-Baptiste Debret registrou essa imagem de calceteiros [calcetas] em ação no  Rio de Janeiro, por volta de 1835.


A palavra ganhou imagens, ganhou história, à qual se juntaram Debret e minha aluna Aldenize, que contribuiu com uma interessante referência sobre uma “revolta dos calcetas”, ocorrida nos Açores (Portugal) em 1835, na qual esses apenados acabaram duramente reprimidos pelas forças locais. Essa é uma daquelas histórias que ganham vulto à medida em que são esmiuçadas e que novos olhares e novas perguntas são postas. 

No documento em tela, além da problemática da água na cidade, estava contada uma história do trabalho e das obras públicas em outros tempos na Parahyba de antanho. Atrás da simples palavra calcetas estava toda uma hierarquia social misturada a uma segregação racial tão inerente a séculos de nossa história. Lá estavam essas pessoas muitas vezes anônimas e escondidas nas sombras voltando ao proscênio da história; aqueles que executavam com seus braços os afazeres que mantinham a cidade em movimento nos tempos de lá e nos de cá.

Após tantas leituras e aulas ministradas com o texto sempre novo do velho Bloch, eis um professor de História aprendendo uma lição de história, o que acaba sendo uma fascinante possibilidade de um conhecimento que tem a marca de um contínuo fazer, e esse fazer – é bom que se diga – é um trabalho. 

domingo, 25 de novembro de 2018

ALÉM DOS RÓTULOS E ATRAVÉS DA RÓTULA – UMA BRINCADEIRA DOMINICAL COM AS URUPEMBAS E A HISTÓRIA.



Devendo huma vez acabar com o antigo e impolitico uso das urupembas nas portas, e janelas nas ruas ainda as principais desta Cidade, o que só podia admitido nos principios rusticos da primeira fundação... serem tiradas as ditas urupembas, e substituirem com algum outro reparo que quizerem como gelozias ou vidraças... 
Deus guarde a Vossas Senhorias por muitos annos. Palacio do Governo da Parahyba. 26 de Outubro de 1825  


Recentemente tivemos a ventura de topar com uns documentos tidos por perdidos da Câmara de Vereadores da antiga cidade da Parahyba. Trata-se de um esparso conjunto de papeis que englobava de maneira incompleta e descontínua os anos de 1814-15, 1824-28 e 1910-12. Sobraram do muito que se perdeu em muitas décadas pelos motivos mais diversos. Não se trata de um enorme volume, mas acaba se transformando num acervo bastante significativo, dada a possibilidade que permite ver aspectos escassamente conhecidos ou praticamente desconhecidos da vida urbana nesses momentos. Os pesquisadores encontrarão muito do que se fartar nos próximos tempos.
A diversidade de assuntos é muito rica e damos aqui uma ideia geral do que se encontra nesses velhos papeis: regulamentação ou proibição de currais de pescaria por atrapalharem a navegação do rio; briga com o Vice Presidente da Província pela nomeação do Médico da Cidade logo após à derrota da Confederação do Equador; falta de Professores de Primeiras Letras; problemas de recuperação de estradas e pontes em Mandacaru e Gramame, com decorrentes dificuldades para o abastecimento de farinha para a Tropa Paga e para o Mercado Público devido à importância estratégica da Ponte de Gramame; notícias diversas da Corte Imperial, como nascimento do Príncipe Herdeiro, aniversário do Imperador, falecimento da Imperatriz entre outras; atos de política internacional como notificação e júbilo pelo reconhecimento da Independência do Império do Brazil pelo Reino de Portugal, Tratados Internacionais de Amizade, Navegação e Comércio entre o Império do Brazil e os Reinos da Prússia, a Liga Hanseática e o Império da Áustria; ação de ladrões em Gramame; Festejos da Padroeira Nossa Senhora das Neves; briga entre um Padre e umas "molheres apelidadas as Venancias" (quem seriam essas Senhoras? Daria um ótimo nome para uma banda de Rock local) por acesso à água numa cacimba no lugar das Convertidas (atual Maciel Pinheiro); providências para conserto de fontes e bicas de água. Resumindo: há uma pletora de fragmentos da vida urbana da velha Parahyba que serve como uma pequena cápsula do tempo dos tempos d’antanho.
Um dos documentos mais curiosos que encontramos, e que causou certo espanto de quem o viu, é de uma Vereação de 26 de Outubro de 1825, no qual o Presidente da Província Alexandre Francisco de Seixas Machado fala do uso das urupembas nas portas e janelas das casas da Cidade e determina sua remoção em breve tempo. O que seriam as tais urupembas e por que que as mesmas eram vistas, no começo do século XIX, como algo impolítico, ou seja, marca de atraso e de costumes rústicos que deveriam ser combatidos?
As urupembas seriam uma espécie de treliças colocadas nas janelas e portas, que teriam finalidade de sombrear o ambiente interno mantendo a sua ventilação, bem como isolando o espaço interno das casas do olhar indiscreto das ruas. Supostamente, seria possível ver o que se passava nas ruas, sem ser visto. Isso permitiria o recato necessário às mulheres naquela sociedade distante de nós quase dois séculos, mas cujo uso já era considerado impolítico por um Presidente de Província. Como entender essa situação aparentemente banal?
Bom, não se tratava apenas de uma questão estética como pura forma, mas de como uma determinada forma de sociabilidade se manifestava através de uma simples estrutura de janela das casas. O "ver sem ser visto" poderia ser fonte de mexericos (hoje modernizados com o nome brega de fake news). Por outro lado, o historiador Paulo César Garcez Marins, no seu interessantíssimo livro "Através da Rótula: Sociedade e Arquitetura Urbana no Brasil, séculos XVII a XX", mostra que as treliças de madeira que pareciam isolar o interior das casas do ambiente externo, também eram brechas de passagem para atos não tão adequados para a moralidade da época. Inclusive, acrescentamos aqui que o nome gelosia aplicado a algumas dessas janelas, vem da palavra italiana gelosia, que advém de uma palavra árabe de mesmo significado, que em português é ciúme. A gelosia seria a garantia de maridos ciumentos. Seria?


Curiosamente, a mesma palavra gelosia é usada no francês jaloux e no inglês jealous. Está numa magnífica música de John Lennon, "Jealous Guy" (em nordestinês paraibano algo como "caba ciumento").
E a palavra urupemba ou urupema? De onde viria esse nome? Bom, é tupi e significa uma peneira feita de talas de madeira para peneirar mandioca. Como lembra uma treliça, temos o termo urupemba usado para essas treliças que ficavam nas janelas e que a autoridade da velha Parahyba viu como impolíticas.
Do reduzido espaço de uma janela pudemos nesse jogo lúdico juntar os antigos moradores da Parahyba, a arquitetura mediterrânea e árabe, a palavra ciúme em italiano, francês e inglês, o grande caba ciumento John Lennon e uma estrutura treliçada que ganhou um nome tupi devido a uma peneira de farinha.
Tá misturado aqui arquitetura, economia, moralidade pública e privada, música pop, a velha Parahyba e por aí vai. Sem besteira de "rótulos" de “nova história de sei-lá-o-que”, “sei-lá-mais-que", talvez chamar de História já seja mais que suficiente, pois, como diria o velho Marc Bloch “é o tudo pronto que espalha gelo e tédio”. Através das rótulas das Histórias e sem se ficar mesmerizados nos rótulos, muita coisa passa ou pode passar de um lado para o outro, sejam as práticas licenciosas esperadas das recatadas domésticas, sejam algumas coisas intragáveis apresentadas como a mais pura ciência.

sábado, 29 de agosto de 2015

Da visibilidade à transformação social


* Publicado originalmente na Coluna de Opinião do Núcleo de Cidadania e Direitos Humanos da UFPB, em 24/11/2014. Lamentavelmente, parece que o quadro então apontado se confirma.

               Talvez a melhor função de um trabalhador intelectual que se pensa solidário a algum movimento social – e a palavra social aqui não está colocada gratuita nem casualmente – seja a de estabelecer algum apoio crítico (e não incondicional), que aponte eventuais problemas e sugira alguns elementos para a reflexão, que é uma condição necessária para uma ação efetivamente transformadora dessa mesma sociedade. Poderá se questionar com alguma boa dose de razão: por que alguém que não sofre exatamente na pele esses problemas, tem direito de dar algum “pitaco” sobre aquilo que não é da sua conta? Exatamente por não sofrê-los diretamente na pele, talvez isso possibilite obter uma sensibilidade/percepção particular para essas questões e apontar dimensões não percebidas numa outra condição, mais ou menos como: quem está de fora, vê diferente. Enfim, todo o apoio crítico merece ser igualmente criticado e o próprio exercício da contradição pode nos permitir afiar os argumentos intelectuais, aporte mais que necessário ao bom encaminhamento das boas lutas.
                Parto de uma constatação que pode/deve ser errônea – e que inviabilizará todo o restante –, mas que pode ter algum grau de plausibilidade e contribua para entreabrir toda uma zona de reflexão/ação. Indo direto ao ponto, penso que as políticas de ações afirmativas, principalmente de bem sucedidos movimentos negros e homossexuais (abarcando uma grande diversidade de condições), realizadas num crescendo desde a década de 1990, têm efetivamente atingido um de seus objetivos mais caros, que é a questão da visibilidade de uma série de discriminações/repressões que estariam invisíveis na nossa sociedade, ou seja, o racismo e a homofobia seriam componentes estruturais e ocultos de nossa teia social e seria necessário trazer esses discursos e práticas à luz do dia para ser possível combatê-los efetivamente (não deixando de esquecer que essa paleta de horrores reúne ainda outras tintas tão fortes quanto o machismo e outras práticas que chamaremos de “nefandas” (que não devem ser ditas), bem ao gosto do linguajar do Santo Ofício da Inquisição). Não resta dúvida que o noticiário nos vomita dia a dia uma série generalizada de situações que deixam às claras os paroxismos de racismo e homofobia que sacodem nossa sociedade; se se desejava tornar visíveis esses problemas, parece que o objetivo foi em larga medida atingido e essas perversões ocultas vieram se explicitar na cena pública.
              Essencialmente, atacaram-se as bases de nossas ideologias integrativas/agregadoras, que pretendiam interpretar nossa ordem social como dotada de uma grande plasticidade para absorver suas próprias contradições e resolvê-las de modo singular num grande oceano de malemolência e afetividade (e doses maciças de sadomasoquismo Brasil varonil afora). Talvez, sua expressão mais bem acabada e intelectualmente eficaz esteja num autor muito condenado e, lamentavelmente, pouco lido (e combatido equivocadamente de maneira simplista e insuficiente), Gilberto Freyre. Freyre tem como diapasão fundamental não uma pueril ideologia da democracia racial – que pode ser derrubada com um piparote fraseológico ou com um arroubo de slogan – mas uma sofisticadíssima percepção daquilo que denomina equilíbrio de antagonismos, que seria uma engenhosa capacidade social/cultural brasileira de sublimar os intensos antagonismos que sacodem nossa sociedade, de criar uma zona de confraternização, indistinção, penumbra e quase total invisibilidade que elide esses antagonismos para uma dimensão oculta, que permite que os mesmos se resolvam sem desagregar o tecido dessa singular sociabilidade. O seu corolário quase necessário seria que, dada essa possibilidade de equilibrar esses antagonismos nas “alcovas sociais”, cada um “saberia o seu lugar”, por introjeção de regras implícitas, e seria possível manter um discreto status quo, sem ser necessário tornar muito explícitas e formalizadas as regras de dominação/discriminação/repressão. Tudo se resolveria numa democracia racial, onde a violência seria apanágio de indivíduos torpes, não de toda uma sociedade encoberta pelo manto da afetividade que nos garantia que o brasileiro era bonzinho e a empregada era “quase da família”. Seria assim como se resolvêssemos na “casa” aquilo que não deveria ir à “rua”. No bipolo homem/branco/heterossexual, estaria a mulher/negra/homossexual e cada qual saberia de antemão qual o seu papel. Mostrar que existia realmente racismo e homofobia, por baixo dessa capa de docilidade, seria uma missão essencial para enfrentar e superar esse “atavismo nacional”.
                Se os movimentos de ações afirmativas permitem elevar indivíduos de segmentos sociais anteriormente excluídos à proa da sociedade (mesmo que ainda amplamente minoritários), têm como subproduto trazer à tona aquilo que denunciam: o caráter racista e homofóbico dessa sociedade, antes introjetado e agora explicitado. Nada a estranhar, então, com as explícitas e horrendas manifestações daqueles que subjetivaramo ethos do mando e, agora, se sentem desafiados e desautorizados em casa e na rua pela intensa visibilidade do que estava encoberto e vem se mostrar à luz do sol. Nada a estranhar – e tudo a repudiar – com o comportamento de gente que faz questão de estacionar seu carro possante em duas vagas como desafio explícito ao espaço público. Outro intelectual de porte, Sérgio Buarque de Holanda, já tinha nos alertado sobre esse desapreço estrutural ao espaço público, o que podemos traduzir nos dias que correm, pelo desrespeito dos direitos do outro. Casos escabrosos se repetem e chegam às manchetes ou redes sociais, envolvendo desde o incômodo raivoso de sinhôs e sinhás com empregadas e pedreiros – não raro, afrodescendentes – viajando de avião, ou ainda de bons pais, mães e filhos de família revoltados com homoafetividades explicitadas, até o mais recente e absurdo caso da sinhá fortalezense que atacou verbalmente e por escrito dois trabalhadores que rebocaram seu carro estacionado irregularmente, dizendo a um deles que, graças à maldita Princesa Isabel (seria uma sublimada Isabel Rousseff?), ele não estava no tronco, que era o lugar que o mesmo merecia, não sem antes proferir toda a espécie de sortilégios de pragas e maldições que fizeram o inquisitorial século XVII falar pela sua boca.
              Não houvesse isso, essa verdadeira explosão de nossos esgotos sociais/culturais, Freyre estaria redondamente certo. A luta pela afirmação não será ganha numa parada cívica na qual os desafetos de ontem baterão palmas para os novos heróis; desafiados e inseguros, os que se sentiam até ontem donos da casa (e da rua), partirão para tentar afirmar seus lugares, defender seus privilégios, provavelmente se tornarão mais raivosos e agressivos, mas isso os movimentos não devem temer ou estranhar. Devem enfrentar sem partirem para a “guetização”; devem falar para toda a sociedade, em vez de se encastelarem em pequenos grupos de solidariedade; devem estabelecer laços maiores de solidariedade e articulação, enfrentando efetivamente a sociedade de sinhôs e sinhás que gerou no mesmo ventre racismo, homofobia e todo o cortejo de horrores que não começam nem acabam aí. Se quiserem se tornar sinhôs e sinhás negros e/ou homossexuais numa “nova ordem”, a casa grande e o patriarcalismo terão saído vencedores, apenas incorporando mais alguns personagens privilegiados, que olharão sobranceiramente das varandas para aqueles que labutam duramente ao sol.
               Ou seja, se o negócio era dar visibilidade ao que era antes invisível, agora a luta muda de patamar: é necessário encontrar uma forma efetiva (e social) de combater essas verdadeiras patogenias sociais, bem além da mera afirmação (necessária, mas não suficiente) de indivíduos afrodescendentes e homossexuais a lugares de proa de nossa sociedade. Trata-se de mudar as regras do jogo e não apenas de encontrar um nicho no jogo alheio. Bem além de travar ruidosas batalhas lingüísticas (dos que vêem ingenuamente as linguagens como constituintes e não como constitutivas das relações sociais), é necessária a coragem de mudar lugares sociais, ou mais, de mudar efetivamente a sociedade, e, aqui, sociedade não é mais um jogo de linguagem, é aquilo que paga as contas dos soldados da linguagem e que tem uma concretude bem real e, muitas vezes, dolorosa.
               Numa das críticas mais pertinentes que já vi a Gilberto Freyre, Luís Felipe de Alencastro (A Pré-Revolução de 30. IN: Novos Estudos CEBRAP, nº 18, Set, 1987, p. 17-21) apontou cirurgicamente que o gênio de Apipucos só pôde criar sua engenhosa e sofisticada formulação elidindo do engenho/berço da nação os fluxos de comércio internacional, que tinham o tráfico de escravos numa ponta e a demanda de produtos agrícolas na outra. Ou seja, em bom e velho idioma sonante: só escondendo sorrateiramente as relações capitalistas, pôde Freyre mergulhar tudo num saboroso “caldeirão de cultura”. O historiador ainda apontou argutamente, ao final do referido artigo, que o livro ainda teria belos dias diante de si, como obra seminal da ideologia patriarcal. Todo o cuidado é pouco para que o patriarcalismo apenas não amplie sua plasticidade, em vez de ser efetivamente liquidado, como herança quase perene do nosso belo e saudoso passado.
               Parece que, agora, mais que a visibilidade, é necessário apostar na transformação social efetiva, no custoso enfrentamento e desmonte de todo esse pesado ethos patriarcal que domina séculos de nossa sociedade e que resistirá tenazmente a qualquer mudança, ou cooptará os mais talentosos para o seu regaço (que terão sido como aqueles arrivistas que dizem ser contra o capitalismo – ou algo mais diáfano como “o sistema” – apenas por que não são burgueses, aderindo rapidamente tão logo encontrem alguma prebenda dando sopa). É necessária uma segunda onda de visibilidade, a visibilidade da necessidade de transformação social, pois a manutenção das redes de poder (às vezes obliteradas em engenhosos jogos de linguagens), que chamamos capitalismo e sociedades de classes, é que garantem a perpetuação de espécies diferentes de dominação/sujeição/discriminação/exploração, que aparecem modernamente em outras práticas igualmente nefandas como a agressão física e moral a mulheres, o horror patológico a pobres, a superexploração dos trabalhadores, a periculosa agressão/destruição socioambiental, enfim, essa dantesca paleta de cores fortes que tornam hediondos os cenários de nossas vidas coletivas. E não basta mudar/acrescentar os personagens da trama, é preciso destruir mesmo essa trama e contar uma outra história. Não criar um mundo de novos senhores, mas um mundo sem senhores.

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

José Dias, o alterego da classe média brasileira?












Com o tempo, adquiriu certa autoridade na família, certa audiência, ao menos: não abusava, e sabia opinar obedecendo. Ao cabo, era amigo, não direi ótimo, mas nem tudo é ótimo neste mundo. E não lhe suponhas alma subalterna; as cortesias que fizesse vinham antes do cálculo que da índole. Machado de Assis. Dom Casmurro.


O dramaturgo Plínio Marcos, em uma de suas geniais tiradas, chamou a classe média de "classe mérdea", por enxergar nos seus "valores" uma indisfarçável e profunda hipocrisia, marcada pelo mais absoluto servilismo frente aos poderosos e a total impiedade em relação aos pobres. Tudo isso mergulhado num seboso caldo cultural de preconceitos teimosamente enraizados, onde vicejam racismo em formas disfarçadas ou explícitas, aversão aos pobres, machismo, homofobia e toda essas ditosas práticas de teor semifascista.

Tal comportamento serviu de alimento para o apoio entusiasmado de segmentos expressivos de nossas classes médias à histeria anticomunista ao estilo UDN, às infames marchas da família, ao apoio fervoroso ao golpe militar de 1964, entre outras tristes passagens de nossa história. Nos dias bicudos que correm, essa atitude se reflete no ódio insano contra melhorias na condição de vida de pobres, adesão aos discursos inflamados da bancada da bala, entre outras elevadas propostas que honram a nossa humana espécie.

Como explicar esse comportamento?

Bom, haveria uma vintena de hipóteses que abordassem a questão pelos mais diversos ângulos. Muitas de grande valor. Arriscamos, aqui, uma delas.

Bem no ocaso do século XIX, aquele que se marcou pelo auge e pela extinção legal da escravidão, Machado de Assis criou um personagem quase arquetípico, que poderia ser definido como um alterego de nossa classe média.

José Dias era um agregado da casa de Dona Glória, senhora viúva de certas posses e de família bem situada na boa sociedade. A virtuosa matrona mantinha alguns criados e escravos de ganho e vivia com conforto e distinção numa bela e bem situada residência. José Dias havia servido fielmente o finado marido de Dona Glória e se mantinha na casa como uma espécie de ministro factotum, bajulando calculadamente seus superiores e mantendo toda a criadagem sob firme comando.

Dias pode ser considerado uma espécie de avô transcendente dessa classe média, espremida entre a escravidão e o senhorio. Muita servilidade para com os maiores. Muita ferocidade para com os subalternos. No horizonte, a expectativa de amealhar alguns tostões e poder - por sua vez - viver a divina ventura de ter seus próprios escravos e poder ser chamado de senhor. Como diria o velho padre-economista-tecnocrata Antonil, com sua frieza tucana lá pelos distantes confins do século XVIII, que ser senhor era título por muitos aspirado, porque trazia consigo ser servido, obedecido e respeitado.

Pois bem, foi-se a escravidão legal, mas seus vestígios arqueológicos prosseguiram vicejando com força nos nossos alegres trópicos. Homens e mulheres negros e de toda uma paleta de cores mestiças continuaram submetidos a uma condição de infra-cidadania, sem acesso à educação, à moradia própria, ao trabalho condigno, a toda uma série de direitos básicos numa república que tenha qualquer coisa de pública. Não é casual que a Constituição de 1988 se auto-intitule "Constituição-cidadã", quando essa condição já deveria existir plenamente um século antes, com o final legal da escravidão. Não é à toa que os planos escolares ainda falem de construção da cidadania, numa clara admissão de que a mesma ainda é uma quimera para muitos brasileiros.

Para as classes médias situadas nessas fímbrias, restou o josediismo, que consiste em fazer todo o tipo de salamaleques para os ricos e vociferar contra os pobres. Sempre na esperança de um dia alcançarem o senhoriato. Não poucos egressos da pobreza, tal como dizia o sagaz senhor de engenho Brandônio, lá na Paraíba pelas profundezas do século XVII, despiram a pele velha de cobras-pobres e se engalanaram com as mais finas sedas e brocados. Esquecidos de suas humildes origens, assumiram a soberba mais absoluta. Bem no apagar das "luzes" do século XVIII, o professor de grego luso-baiano Luís Vilhena, deles falava que se empavesavam como a mais aparatosa fidalguia e tratavam os filhos como nobres, cujo Imperador da China seria indigno de ser seu servo.

Os José Dias de nossos dias seguem fascinados pelo brilho sonante do capital, leem avidamente revistas que mostram a ostentação dos muito ricos ou bregas. Em compensação, quando sobem a escada social, tratam as empregadas e serviçais como ninguém, meras máquinas de trabalhar. Criam seus pequerruchos como condinhos, marquesinhos ou barõezinhos, cercados de afagos e mimos, mas não cogitam de mandar os pimpolhos aprenderem a valorizar o trabalho manual dos que os alimentam e prestam todos os serviços para seus confortos.

Alguns, alçando-se aos píncaros universitários, ao chegar aos dourados portões da academia, esquecem que um dia foram aprendizes e se tornam verdadeiros feitores de almas. Não poucos, para dourar ainda mais seus brasões, apresentam, aos pés de seus nomes nos endereços eletrônicos, uma enxurrada de títulos e honrarias que fazem lembrar aqueles grandiloquentes e cafonas ao estilo "grão-cã dos tártaros", "mil vezes grande de Espanha", "martelo dos hereges", "herói dos campos elísios", "exterminador dos infiéis", "campeão dos fariseus" e tudo o que mais a mente humana puder elucubrar. Um e-mail que recebi com o pomposo título de "Prof. Dr. Titular fulano de tal" já diz tudo. Sobre esses tipos, cabe o que o historiador francês Jacques Le Goff falou sobre alguns intelectuais pretensamente revolucionários do medievo, cujo "sonho deles é um mecenas generoso, uma gorda prebenda, vida folgada e feliz. Querem antes, parece, tornar-se os novos beneficiários de uma ordem social do que mudá-la". Lá se vão quarentões ou cinquentões gabolas, pressurosamente copiados por seus cãezinhos amestrados de vinte e poucos...

Qualquer perspectiva de virada da situação, significa ameaça ao josediismo, que passa a aderir ao que houver de mais repressivo contra os subalternos.

- Como, eu que pastei como escravo aos pés do meu senhor, poderei deixar de ter os "meus" próprios escravos no dia em que juntar meus trocados? Isso é subversão, é comunismo, é ameaça aos sagrados valores da família, da tradição, da propriedade, do altar e da pátria, é um escândalo!!!

Nada para causar surpresa, quando um bolsista agraciado com uma temporada de estudos no exterior, se volta ferozmente contra o governo que criou condições para que essa bolsa fosse concedida.

- Como dar essa chance a outros? Se muitos mais tiverem essas bolsas, não terei meu diferencial, meu valor agregado, e não poderei ser um grão-senhor a ser servido, obedecido e respeitado...

Nada a estranhar na mesquinharia aeroportuária de nossos bem-nascidos.

- Como aceitar que uma empregada ou um pedreiro ande de avião? Onde estão as hierarquias? No tempo de vovó Donalda essa gente era tratada a base de chibata e sabia muito bem qual era o seu lugar...

Nada a estranhar quando profissionais de determinadas carreiras queiram se considerar verdadeiras nobrezas togadas.

- Como aceitar que esses cargos herdados de pai para filho desde o saudoso Tomé de Sousa caia nas mãos de rebentos dessa patuleia nojenta? Onde já se viu? Para os amigos as benesses governamentais, para os inimigos os rigores da lei...

Nada a estranhar quando os terratenentes do agrobusiness se neguem terminantemente a aprovar e por em vigência a Emenda Constitucional do Trabalho Escravo, no Anno Domini de 2014 da Graça de N.S.J.C.

- Como essa rafameia quer salários dignos e direitos trabalhistas? Onde já se viu não poder mais nem empunhar meu querido chicote em paz?... ah, nos ditosos tempos de vôinho e vóinha...

Nada a estranhar, quando aparecem nas redes antissociais, as mais diversas expressões de fascismo cultural, com seu cortejo de ódio e discriminações.

- Como essa ralé quer ser gente? No máximo lhes cabe é receber algum pouco trocado para não entupir a cara e os cornos de cachaça, bando de preguiçosos, vadios, fedorentos, gente feia. O bom mesmo é gente rica e bonita...

Nada a estranhar. Eles não falam o que pensam pensar. José Dias fala pelas suas bocas e pensa pelas suas cabeças.                    

quarta-feira, 16 de julho de 2014

Ditadura é isso aí!



 
Informação oficial notificando as autoridades sobre o perigo escondido em "inocentes" Dicionários e Palavras Cruzadas. A subversão internacional atuando solerte onde menos se esperava. 
 

    Está lá no papel amarelado da Informação 230/74 da Assessoria Especial de Segurança e Informações da Universidade Federal da Paraíba, emitida no dia 12 de Dezembro do ano 1974 da Era cristã. Oriunda dos insondáveis “escalões superiores”, se informava aos Diretores dos Centros que circulavam entre professores e alunos publicações de alta periculosidade: os verbetes subversivos do Dicionário de Ouro da Língua Portuguesa, de Éverton Florenzano e uma Palavra Cruzada Coquetel Jumbo, com cruzadinhas apologéticas a políticos cassados.
Não, incrédulo leitor, isso não é uma brincadeira digna das Diatomáceas da Lagoa, é um documento oficial da República Federativa do Brasil, que através de um de seus órgãos, constatou por intermédio de um araponga zeloso de suas funções arapongais, que o referido Dicionário trazia os verbetes capitalismo e comunismo com fortes tendências esquerdizantes. Para corroborar suas ações em defesa da segurança nacional no combate da “democracia e cristandade contra o comunismo ateu”, o operoso e modelar funcionário público dedicou-se a comparar os verbetes capitalismo e comunismo com os constantes no famoso Dicionário Aurélio, constatando que o circunspecto dicionarista tratava tais verbetes com a devida neutralidade, o que provava as intenções subversivas do seu colega.
Para mostrar como se tornava ainda mais alarmante o perigo de tal doutrinação sobre os jovens e impressionáveis cérebros de escolares e universitários, observava o espião patriota que o divertimento de palavras cruzadas instilava de forma hedionda e subliminar o veneno subversivo sobre suas pobres vítimas, fazendo referências positivas a políticos nacionais e estrangeiros comprometidos com a propaganda dos comunas, certamente teleguiados a partir dos porões moscovitas, centro nervoso do comunismo internacional.

Segundo o zeloso araponga, o "inocente" divertimento instalava o veneno comunista nas mentes incautas. Autoridades de segurança da Mickeymouselândia já determinaram a proibição de venda de cruzadinhas em aeroportos e seu uso em aviões, pois pode ter algum plano de extremistas absconso nas entrelinhas e estimular os passageiros a cometerem maluquices aéreas.
  
Certamente, uma ditadura faz grandes coisas, constrói grandes obras, promove grandes negociatas sob o sigilo cerrado das autoridades, realiza grandes atos repressivos com constrangimentos, perseguições, torturas ou eliminações físicas de seus opositores. Mas as ditaduras também são campo fértil para a imbecilidade nossa de cada dia. No cotidiano ditatorial se misturam grandes e pequenos feitos, cruéis e bárbaras ações de violência e pequenas vinditas levadas a cabo por pequenos asseclas do regime.
Essa gente dá o tipo de suporte que parece conferir uma base “popular” ao regime. É composta de pequenas peças da grande engrenagem – tais como o nosso honorável e letrado araponga que espionou o Dicionário e as Palavras Cruzadas – que articulam as coisas grandes e as miúdas, tal como tivemos oportunidade de falar em outra ocasião nessas mesmas Terras.
Uma vez enviada essa assombrosa Informação aos administradores universitários, notificava-se – para o alívio da mãe gentil e gáudio da democracia ocidental –, que os diretores da editora de ambas as publicações haviam se comprometido a corrigir os problemas nas futuras edições, em nome da segurança pátria, não deixando de desqualificar o dicionarista nos seguintes termos: “o autor, um ex-oficial da FEB, não parecia pessoa capaz de emitir suas opiniões num dicionário”!!!.

O Dicionarista-subversivo teria utilizado a publicação para difundir opiniões esquerdistas. Material de doutrinação subliminar comuna circulando entre os estudantes ingênuos, que foram protegidos pelos altos e baixos escalões da segurança nacional. "O preço da liberdade é a eterna vigilância".  

















             Consideradas essas titânicas revelações, solicitavam os escalões médios dos setores de segurança e informações aos Diretores de Centro da colenda Universidade Federal da Paraíba que evitassem a adoção de tais publicações, acrescentando prudentemente que as mesmas autoridades acadêmicas agissem de forma discreta, para evitar atenção da comunidade, especialmente dos alunos. Tudo isso registrado com os devidos carimbos que deveriam garantir o eterno sigilo dessa história singular.
A aparatosa ditadura militar parece ter sido tragada pela noite dos tempos – pelo menos o seu aspecto castrense, incômodo, espalhafatoso e oneroso, parece ter sido tirado do caminho – mas a grande ditadura econômica continua vicejando lépida e fagueira por essas plagas. Essa mesma se solda com a pequena ditadura do cotidiano, expressa nas micro-violências dos que possuem alguma fatia de metal ou poder e conseguem descarregar seu autoritarismo e intolerância sobre os que os cercam e não possuem tais requisitos.
Quanto às Palavras Cruzadas ou Dicionários não há mais necessidade de fiscalizar se são ou não subversivos, afinal, ler e escrever não são bem passatempos prestigiados nos tempos felizes que correm. Hoje, esse araponga das cruzadinhas é passível de riso, mas a coisa não foi bem assim em datas pregressas...

Dedicado a Mirza Pellicciotta, que dividiu comigo a melhor parte dessas reflexões e preservou cuidadosamente esses documentos.                         

terça-feira, 8 de julho de 2014

As chuteiras douradas e a seleção amarela

                                                                                                         Ângelo Emílio da Silva Pessoa


As collonias... são estabelecidas em utilidade da metrópole. Por máxima fundada nesta utilidade os habitantes das Collonias devem ocupar-se em cultivar, e adquirir as producções naturaes, ou matérias primeiras, para que sendo exportadas à Metrópole, esta não só della se sirva, mas aperfeiçoaduas possa também tirar das collonias o preço da mão d’obra e possa commerciar no superfluo com as Nações estrangeiras. AUTOR DESCONHECIDO. Roteiro do Maranhão a Goiás pela Capitania do Piauí. (final do século XVIII).


A título de exemplo, diz-se que o Clube de Regatas Flamengo possui cerca de 25 milhões de torcedores. O time com maior torcida no país, nesse sentido, possuiria em torno metade da população espanhola, inserido numa economia que é maior que a daquela nação ibérica. Como explicar, então, que esse time – tal como diversos outros de porte similar – viva de pires na mão, apesar dos grandes negócios de vendas de jogadores para times espanhóis, italianos, alemães, ingleses, ucranianos, turcos, e por aí vai, em escalas decrescentes de economia e poder futebolísticos?
Como explicar que a mídia esportiva brasileira comemore tão efusivamente quando um craque de um time nacional seja vendido para um time estrangeiro (quando deveria protestar veementemente contra essa situação) e – alegadamente tão ciosa da moralidade – não discuta efetivamente os esquemas de evasão fiscal, lavagem de dinheiro e outros trambiques, alguns bastante notórios e bem recentes? 
Vamos a alguns fatos:
Por circunstâncias de jogo, o time brasileiro até poderia ter vencido a Alemanha no jogo que se encerrou há pouco. Um gol brasileiro no início, certa instabilidade alemã, novo gol no contra-ataque e placar seguro na base do drama, tal como se deu com a Colômbia. Afinal, a seleção alemã que enfiou 7 gols no time brasileiro, chegou a passar maus bocados com os EUA, a Argélia e Gana, que não são assim potências tão consideráveis. Por outro lado, as individualidades do time brasileiro não são jogadores de baixo nível técnico, a comissão técnica é experiente e tem resultados, mas, o conjunto, simplesmente, não aconteceu, não chegou a existir um coletivo.
Posto isso, o time brasileiro simplesmente se desmanchou como uma maionese que desanda. Na cultura popular, a amarelinha amarelou. Não padeceu de apagão futebolístico, mas de apagão moral (falo da moral coletiva e não do caráter certamente excelente de cada jogador), desmanchou-se e a prova mais dolorosa é que nenhum gol foi resultado de contra-ataques do time tedesco, mas de ataques não combatidos por uma equipe canarinho absolutamente apática, totalmente bisonha. Os 5 a 1 da Holanda sobre a Espanha foram resultantes de tentativas desesperadas dos espanhóis de correr atrás do placar adverso, os 7 a 1 da Alemanha foram obra do colapso de um quase-coletivo que não chegou a se realizar.
Parece que o time esteve a perigo em outros jogos, mas a casa só caiu na undécima hora. Digo time, e não seleção, basicamente porque não existe seleção brasileira: sem culpas dos jovens jogadores, eles não jogam no futebol brasileiro, não frequentam estádios brasileiros, não convivem com a população brasileira. São vendidos como produtos coloniais, tal e qual o procedimento que o anônimo do século XVIII dizia sobre o Brasil de antanho (ou hodierno?). Nos tornamos fornecedores de matérias-primas e usamos camisas de Barcelona, Bayern, Milan e times estrangeiros com orgulho de torcedores sinceros. Pouco a pouco as camisas e as histórias dos times nacionais vão se tornando meras barrigas de aluguel para gerar craques que irão atuar em outros gramados. A conta é fácil: de Flamengo, São Paulo, Palmeiras, Corinthians, Botafogo, Internacional, Vasco e outros times outrora poderosos, não havia NENHUM no time brasileiro. Enfim, onde não existe o futebol de qualidade no dia-a-dia não há como se gerar um selecionado verdadeiro, dá apenas para catar um time às pressas, treinar uns 30, 40 dias e torcer para a coisa engrenar à base de individualidades inspiradas.
Para o craque maior (com parcelas decrescentes do mesmo método para os demais), a receita foi abusar do merchandising, propagandear cuecas, óculos, chuteiras douradas e outros bibelôs, enquanto o futebol ia minguando a olhos vistos. Basta ver que depois das tais chuteiras douradas e umas tantas baixadas de calção para promover a fábrica de cuecas, o futebol foi declinando. Certamente o “garoto” não merecia a séria contusão e pode ainda fazer uma bela carreira, mas deve diminuir a publicidade e amassar um certo barro e comer mais feijão com arroz antes de superar gente como Rivelino, Garrincha, Nilton Santos, Jairzinho, Sócrates, Didi, Zico, Ademir da Guia, Falcão, Djalma Santos, Leônidas da Silva e tantos outros que envergaram a famosa “amarelinha”. Por ironia do destino, nas velhas gestas de cavaleiros andantes, quando algum dos duelantes movido pela vaidade vestia uma armadura ou usava uma espada dourada, acabava inapelavelmente derrotado.
Para a torcida que estava presente às partidas – a maior parte de gente que tinha bastante dinheiro para pagar o espetáculo mas nunca pisou num estádio, não vive o dia-a-dia dos times brasileiros, não participa da “cultura popular” do futebol – a coisa se resumiu a não ter palavras de ordem (ou repetir o surrado "eu sou brasileiro..."), vaiar hinos estrangeiros, xingar a Presidente, esbanjar selfies e outras coisas que não representam exatamente o que se passa nos estádios brasileiros, nos jogos sem badalação e toneladas de dinheiro, que fazem parte da cultura futebolística que foi (e digo FOI porque a coisa está passando e a história que interessa é a do futuro) a verdadeira força do futebol brasileiro.
O slogan que dizia “agora somos um”, representa, como devíamos saber, uma imaginação de nacionalidade, que supostamente expressaria nossa projeção ante o mundo. O futebol é algo no qual supostamente damos certo, somos superiores, e isso é uma espécie de contraparte do tal complexo de vira-latas, tão ciosamente e secularmente pregado pelas elites brasileiras contra o nosso povo, tratado como boçal, preguiçoso, incapaz. De repente, em meados do século XX, no cerne desse povo visto como chinfrim, nasce uma espécie de arte que poderia projetar algo positivo em torno desse imaginário da nação. Não à toa que, a par das manipulações políticas e negociatas econômicas, o futebol se constituiu n as brechas como uma espécie de patrimônio cultural do povo e da nação. Essa cultura futebolística afagou nossos sonhos de grandeza, de justiça, de melhoria. Chega a ser ironicamente doloroso – ou sintomático – comemorar o centenário da seleção com um fiasco de tal magnitude.  

É essa cultura futebolística – verdadeira galinha dos ovos de ouro – que está sendo esganada pela ganância desenfreada dos dirigentes, empresários e jornalistas-empresários do meio, que estão longe de sofrer algum prejuízo mesmo quando os times e as seleções perdem os jogos e os campeonatos. Nossa cultura futebolística já havia perdido o campeonato bem antes da Copa começar.  

sexta-feira, 6 de junho de 2014

A escravidão vai acabar, seu Edgar?


          Na efervescência político-cultural do início da década de 1960, Oduvaldo Vianna Filho escreveu a peça A mais-valia vai acabar, seu Edgar, que marcou uma proposta de engajamento bastante relevante para a época. Hoje, passadas cinco décadas, virou meio senso comum criticar por diversos vieses a produção artístico-cultural daquele momento, mas jamais podemos abstrair que aquela produção estava situada num contexto muito próprio de conservadorismo e que teve inegáveis méritos na abertura de novas frentes políticas e estéticas no Brasil.
Mas o que nos importa, nesse momento, parafraseando o título da peça de Vianninha e inserindo um provocativo sinal de interrogação, é indagar sobre a atualidade de um velho problema: a permanência da escravidão nas fímbrias da modernidade (ou até na sua intimidade mais insuspeita). Sob as mais diversas vestimentas ou disfarces, em sua face moderna ou arcaica, a escravização de pessoas continua a alimentar um sistema de exploração escravista associado ao mais avançado e cosmopolita capitalismo. Em suas formas rurais e urbanas, nos rincões ou nas metrópoles, munidos de laptops ou enxadas, a miríade de práticas escravistas floresce onde menos esperamos. Que dizer do trabalho em condições similares à escravidão em carvoarias, plantações, extrativismo e outras ocupações de brutal exploração da força física? Absolutamente execrável. Mas, o que dizer de insidiosas formas “pós-modernas” de condições similares à escravidão, alojadas nos recônditos das sofisticadas operações do mundo cibernético-informacional?

Ao obliterarem o trabalho como dimensão constituinte da vida social, diversos intelectuais não trouxeram à baila novas formas de liberdade, mas colaboraram para disfarçar formas diversas de sofrimento humano embutidas nas nossas diversas formações sociais. Não queremos dizer que as mais que honrosas e meritórias lutas contra todas as formas de discriminação racial, religiosa, sexual e outras não possuam um potencial necessário e indispensável para a mudança de atitudes humanas, apenas argumentamos que tais lutas não deveriam, sob qualquer hipótese, assumir uma feição exclusivista ou “corporativa”, reunindo pequenos cenáculos que se limitam a digladiar contra os diferentes, na mesma medida em que exaltam o direito às diferenças.
Dito isso, a escravidão contemporânea se mantém, mesmo a par dos exaltados discursos de liberdade de alguns, munidos da mais fina retórica, mas adeptos das mais brutais ações para extrair ganhos do suor alheio. A escravidão contemporânea persiste porque existe gente (e não pouca) que ganha com isso, gente que é escravista, que tem mentalidade escravista, que pratica as mais diversas formas de autoritarismo e exploração.


                       Relevante produção intelectual se debruça sobre o problema das práticas escravistas atuais e revelam sua considerável amplitude, densidade e modalidades, uma vez que nem sempre a mesma é perceptível de maneira inequívoca e evidente, exigindo certo grau de investigação para sua detecção. Além do mais, há problemas conexos, como trabalho infantil e de grupos em estado de vulnerabilidade, além de prática de racismo, coação, entre outros delitos e crimes de variada natureza. Entidades diversas denunciam essas situações, elaborando relatórios e boletins, veiculando informações ao público.

A aprovação, ontem, dia 05 de junho de 2014, da PEC 57A/1999, que coíbe a prática do Trabalho Escravo no Brasil, foi resultante de uma longa luta e contou com grande dificuldade de tramitação. Foram decorridos 15 anos desde sua apresentação inicial. O prazo demonstra a dificuldade da luta no campo legislativo para se obter algum avanço nesse sentido. Outrossim, é necessário ir além do discurso moralista de que “todo político rouba” para entender efetivamente as questões em jogo e quais os lados da questão. O simplismo moralista só alimenta quem já ganha com isso há muito tempo.
E essa situação vem de bem longe. A Lei 3.353/1888, a conhecida Lei Áurea, extinguiu legalmente a escravidão no Brasil. Veja-se e frise-se – legalmente –, porque as diversas formas de escravidão extra-legal ou ilegal permaneceram como práticas esparsas ou generalizadas país afora, vazando o século XX e adentrando o XXI. Em 1968, por exemplo, o Inquérito 460/68 se dedicava a investigar a existência de trabalho escravo em fazendas de Goiás e Mato Grosso. Denúncias pipocavam em regiões diversas do país, especialmente nas frentes de expansão de fronteira agrícola, como o sul do Pará, muito embora essa fosse a parte mais visível do problema.


             Em 1994, a Comissão de Trabalho, de Administração e Serviço Público da Câmara dos Deputados instituiu a Subcomissão Especial de Trabalho Escravo, que levantou em regiões diversas do país e distintas atividades econômicas (rurais e urbanas) a persistência de formas variadas de escravidão, que implicava em “formas análogas à escravidão”, algumas vezes difíceis de definir do ponto de vista jurídico. Por serem práticas veladas em maior ou menor grau, seria necessária uma ampla definição dos possíveis significados de trabalho escravo ou em condições similares à escravidão.
Essas variegadas práticas de escravidão e a dificuldade da definição legal de suas fronteiras se tornaram brechas usadas pela bancada escravista (vamos denominá-la explicitamente assim) para tentar barrar de todas as formas a aplicação de medidas legislativas e judiciais voltadas para coibir esse nefasto abuso. Um de seus pontos-chave é o confisco legal de propriedades nas quais forem detectadas práticas de escravidão. Nesse ponto, reside o maior cerne da resistência dos setores escravistas.
Não dizemos escravistas à toa. Em 28 de janeiro de 2004, fiscais do Ministério do Trabalho que investigavam denúncias de trabalho escravo na cidade de Unaí (MG), foram assassinados a tiros. Passados 10 anos, os acusados de serem mandantes da chacina ainda não foram a julgamento. Recebem todo o tipo de acobertamento das lacunas legislativas e da morosidade judiciária em apurar tal tipo de crime. Quando se trata de poderosos, a propalada lentidão judiciária se torna ainda mais clamorosa.
A PEC do Trabalho Escravo ainda demanda sua efetiva regulamentação, o que demandará em novo front de lutas contra a bancada escravista e a certeza que a escravidão ainda não acabou, seu Edgar.            

segunda-feira, 31 de março de 2014

A Ditadura que continua

       
               Algumas teorias que tentam entender os nossos avoengos mais primitivos – aqueles que singravam as savanas em busca da sobrevivência própria e, por conseguinte, da espécie – informam que esses remotos antepassados recorriam a todo o tipo de circunstâncias par obter alimento, entre as quais o recurso à exploração de carniça de animais remanescente da predação de carnívoros mais potentes. Ser carniceiros foi uma condição que permitiu à espécie frágil obter energia suficiente para sobreviver e seguir em frente.
                De certa forma, nossos ascendentes primevos competiam com as hienas pela carniça e esse traço da espécie parece ter remanescido em alguns, mesmo após milênios de evolução física e cultural. Parte da espécie, digamos, a que conseguiu avançar, passou a entender que não precisa manter-se em luta contra tudo e todos para sobreviver, viver e bem viver. Estabelecendo meios de cooperação, de colaboração, usando o intelecto verdadeiramente sapiens, compreendeu que seria possível melhorar a vida de cada um e de todos e não gerar danos maiores ao restante da espécie e da natureza.
                Outra parte, parece que manteve ao traço psicológico das hienas e tem necessidade quase transcendente de carniça para seguir em frente. Empunhando um chicote ou um avançado aparelho eletrônico, está ali um ser humano em seu estado mais atrasado, que podemos denominar homem capitalista (diga-se, de passagem, que estamos usando o termo homem em seu velho significado genérico, muito embora concretamente esse ser possa se manifestar em sexos, gêneros, etnias, culturas distintas). Para esses seres atrasados, comportar-se como feras parece ser algo meritório (se vangloriar como fera, animal, águia etc), mas seria melhor que os denominássemos como hienas, uma vez que é da carniça que realmente gostam, abusando do perfil de valentões (desse tipo de covardes que só são valentes mesmo quando estão cercado por gangs de agressores físicos ou de assessores munidos de laptops), enquanto escondem sua fragilidade intrínseca, pois só conseguem viver sugando o esforço alheio, roubando e saqueando o suor dos demais, agredindo o restante de sua espécie e o planeta. Há algo mais irracional do que alguém se jactar de ser um bilionário? É simplesmente ridículo para o conjunto da espécie.

Hiena em versão antiquada, empunhando o chicote.

Hienas em versão moderna continuam a farejar carniça.
      
























                 É desses humanos atrasados que se fizeram os regimes de exploração social (em suas múltiplas e concretas configurações) e o capitalismo e que se criam as diversas formas de ditaduras políticas, econômicas e culturais, que nos fazem lembrar que está mais que atual o dilema “socialismo ou barbárie” que importa em escolhas que realmente exigem coragem: não devemos sugar o trabalho e o esforço alheios, não devemos aceitar que outros sejam explorados ou massacrados em função de suas diferenças ou fragilidades. Socialismo não deve significar qualquer forma de ditadura, mas a supressão mesmo de todos os regimes que promovam essas mazelas.
                Chegando de perto à ditadura brasileira, podemos identificar seus traços em séculos de escravismo, no profundo desprezo que nossas elites-hienas têm por aqueles que lhes alimentam e geram as condições de seus luxos (inclusive com a formulação de “teorias” de inferioridade mal disfarçadas pelo cinismo e pela hipocrisia), pela luta insana que empreendem pela manutenção de privilégios arraigados por séculos. Nesse sentido e para estes, a ditadura não foi um problema, foi exatamente uma solução encontrada para brecar as lutas dos subalternos para fazer valer seus direitos: a luta de trabalhadores rurais e urbanos pela melhoria de suas condições concretas de vida (salários, moradia, lazer, educação, cultura), a luta de negros, mulheres, minorias religiosas, indígenas, homossexuais e todos os grupos diferenciados pelo respeito aos seus direitos e ao exercício de suas diferenças. A luta, todas as lutas pela dignidade, pelo respeito, pelos direitos, pela igualdade de fruição aos bens da natureza e da humanidade.

Cabra marcado para morrer pela ditadura "antes" da ditadura.

                É essencial não esquecer que as forças armadas foram instrumentalizadas para fazer esse serviço sujo para grandes empresários, banqueiros, latifundiários, burocratas de alto calibre, intolerantes de toda a espécie, enfim, essa fauna de hienas que apoiou entusiasticamente o golpe militar e que usa todos os meios para manter seus privilégios, mesmo após terem deixado de contar com a necessidade do recurso manu militari para tentarem perpetuar seu status quo. Indispensável, ainda, frisar que a maior parte dos veículos de comunicação apoiou o golpe e o regime, sendo, no mínimo, um show de hipocrisia das organizações Globo e grupos quejandos, que procuram se colocar como vítimas de um regime do qual foram beneficiários. Se tivessem maior (ou alguma) inteligência, os milicos de pijama e suas viúvas, em vez de tentarem fazer histriônicas “novas” marchas da família, deveriam avaliar como foram serviçais do grande capital e, logrados pela insânia anticomunista, acabaram por levar toda a culpa por uma tragédia da qual são sócios em larga medida, mas não atores exclusivos.   
                Além do horrendo massacre dos opositores políticos, não podemos deixar de lembrar do massacre cotidiano de pobres nas favelas ou no campo, que também são atos de repressão política, levados à frente por gente do naipe dos esquadrões da morte, mão branca e todo esse tipo de psicopatas que atuaram nas margens semi-legais do regime. Não há de se esquecer, também, das vultuosas negociatas feitas à sombra do autoritarismo, que desmentem cabalmente a mentira de que não havia corrupção na ditadura: havia e muita, escondida pela censura e pela repressão. Não podemos esquecer, também, de tantos parlamentares e juízes e outras autoridades, que exerciam vilmente o servilismo às autoridades títeres do grande capital.

A repressão política da ditadura.
A repressão social da ditadura.
Esse lado civil da ditadura, hoje, tenta usar todos os meios para disfarçar a continuidade da manutenção de sua dominação e privilégios, tenta editar a história conforme lhe convém, tenta apostar na empulhação ou no esquecimento. O mínimo arranhão nesses privilégios, acende, para eles, o sinal de alerta. Derrubaram João Goulart não por acreditarem no risco do comunismo iminente (talvez algumas daquelas senhorinhas alarmadas pelo Padre Peyton), mas por saberem concretamente que seu “bem-bom” estava em risco; e as hienas não estão dispostas a abrir mão de seu quinhão de carniça, mesmo que o mesmo exceda em muito o necessário para a sua vida.         
A ditadura cotidiana do capitalismo

Os anos se passam e se atualizam os processos de dominação e exploração, mas também avançam as formas de resistência e inteligência que exigem saídas lúcidas para evitar a completa barbárie que parece muito apetecível às hienas. Precisamos fazer jus à nossa condição de sapiens.