sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Engenho: escravidão e religião





O filme sugere ricas discussões acerca da escravidão e das relações de poder.










Escrevo esse breve texto logo após assistir ao clássico filme cubano A Última Ceia (La Ultima Cena, direção de Tomás Gutiérrez Alea , 1976). Já fazia bastante tempo que ouvira falar dele, mas assisti-lo parecia sempre um objetivo inalcançável, dadas as diversas tentativas frustradas em obtê-lo.
A ação do filme se passa em um engenho de açúcar nas cercanias de Havana, em finais do século XVIII, durante a Semana Santa. Nesse momento, o Conde, proprietário do engenho, se vê dividido entre as demandas da produção, representadas pelo maestro Don Manuel (o administrador) e as cobranças do Padre, preocupado com as práticas cristãs e a obediência ao calendário litúrgico.
Tomado por profundas angústias e dúvidas, o Conde resolve realizar uma representação da Santa Ceia, determinando a escolha de 12 escravos para desempenharem o papel dos apóstolos, assumindo ele o papel de Jesus Cristo. Pretendia o Conde instilar, através do exemplo, as virtudes da obediência, da resignação e da submissão ao poder do Senhor e do seu senhor. Ao longo de algumas horas de banquete, os diálogos apresentam de forma bastante sutil e não-maniqueísta as diversas idiossincrasias das relações entre senhores e escravos e dos escravos entre si, com suas distintas tradições africanas, rivalidades e táticas de resistência frente ao sistema escravista.
Acompanhar atentamente os diálogos entre o Cristo-conde e seus apóstolos-escravos é uma rica experiência de perceber as dissonâncias e os ruídos na comunicação entre pessoas separadas pelo abismo da opressão. Os pequenos deslocamentos dos sentidos das palavras deixam entrever um quase diálogo de surdos, no qual cada um diz algo que os demais compreendem como querem compreender. Cada risada, cada choro tem múltiplos significados perpassados por uma tensão inerente à condição dos personagens.











O Conde-cristo e seus escravos-apóstolos. Diálogo truncado pelas condições concretas da escravidão.


Um ponto fundamental é a compreensão de alguns princípios religiosos como bondade, paraíso, salvação, igualdade, entre diversos outros, que são diferentemente apropriados por escravos e senhores e entre escravos em diferentes situações concretas de vivência do cativeiro. O filme nos leva a pensar no brilhante e mais recente livro Coroas de Glória, Lágrimas de Sangue (1998), de Emília Viotti da Costa, que analisou com grande percuciência uma rebelião de escravos acontecida em Demerara (Guiana Inglesa) no ano de 1823, investigando em especial a relação entre a mensagem religiosa e a escravidão e como as diferentes formas de entendimento da mensagem bíblica entre os escravos poderiam incentivar desde comportamentos compassivos até os mais explosivos.
O filme contou com a assessoria do historiador Manuel Moreno Fraginals, autor do clássico O Engenho (1974), obra na qual o autor analisou em detalhes todo o sistema produtivo açucareiro cubano. Podemos observar, alguns aspectos da produção açucareira e da sociedade que se constituiu em torno do grande complexo produtivo do engenho.
A menção a essas obras acima, nos lembra da importância de percebermos como uma boa investigação não pode desprezar as mais diversas dimensões do fazer histórico, que engloba questões mais amplas da economia política e da cultura, sem incorrer nas práticas reducionistas tão comuns nos dias que correm, através das quais apenas se trocam os sinais dos dogmatismos políticos ou economicistas pelos culturalistas, sem perceber que a história que os humanos fazem em sua vida concreta não separa essas coisas.
A Última Ceia é um filme que suscita muitas outras questões além das que apontamos muito brevemente aqui e que merece ser assistido e debatido nas aulas de História ou em outras ocasiões mais informais, nas quais se queira discutir algo um pouco mais interessante do que as últimas fofocas do Big Brother.

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Manifesto da ANPUH sobre medida desastrada do STF

A venda vermelha no Judiciário, pela ignorância em relação à História.





A Associação Nacional de História (ANPUH), através da divulgação do manifesto O STF NÃO SABE O QUE É HISTÓRIA, protestou contra medida da Presidência do STF de estabelecer critérios de relevância de documentos, com evidentes fins de descarte dessas importantes fontes para a pesquisa histórica.

Não é de hoje que os Poderes da República manifestam o maior descaso com a salvaguarda dos acervos documentais e são diversas as denúncias de destruição de documentos em todo o país, fruto da incúria com esse patrimônio público.

No documento da ANPUH (acessível através do link do título dessa postagem) são tecidas severas críticas sobre os conhecidos gastos do Judiciário com instalações luxuosas, ao passo que inexiste uma vontade efetiva de investir na preservação dos acervos documentais, que deveria ser preocupação constante de todas as autoridades constituídas.

Também são tecidas críticas sobre os critérios para definir o que são documentos relevantes para a preservação, uma vez que isso toca em atribuição de certos valores, que tendem a privilegiar grandes personagens e deixar nas sombras as pessoas comuns. Exemplifica-se esse problema chamando atenção para obras que pesquisaram documentos outrora considerados irrelevantes, reconhecidos hoje como de crucial importância para a pesquisa de diversos temas e períodos.

A comunidade dos historiadores deve se manifestar com veemência contra tal tipo de medida, que apenas desserve a historiografia brasileira.

Arqueólogos encontram selo com mais de 1,5 mil anos em Israel

Objeto em forma de candelabro era usado para marcar o pão a ser consumido pelas comunidades judaicas, que viviam sob o Império Bizantino


Um grupo de arqueólogos israelenses encontrou em Acre, no norte do país, um selo com forma de candelabro utilizado para marcar o pão há mais de 1.500 anos, informou nesta terça-feira, 10, a Direção de Antiguidades de Israel em comunicado.

O selo, de pequeno tamanho e feito de cerâmica, deixava sobre a superfície do pão a figura de um candelabro de sete braços como o utilizado no segundo Templo de Jerusalém. Esta era uma forma de marcar o pão destinado às comunidades judaicas da época que viviam sob o Império Bizantino.

"Esta é a primeira vez que um selo deste tipo é achado em uma escavação científica controlada, o que torna possível determinar sua origem e sua data", afirmou Danny Syon, um dos diretores da escavação em um povoado rural aos arredores de Acre, cidade notoriamente cristã naquela época.

Segundo os arqueólogos, o achado demonstra que os judeus viviam na região e que o pão era marcado para enviá-lo aos que residiam dentro da cidade, uma espécie do atualmente empregado selo "kosher" para produtos que respondem às estritas normas da cozinha judaica.

O costume também se assemelha ao dos cristãos da época, que marcavam seus pães com uma cruz. Em letras gregas, ao redor do selo judeu, está o que parece ser o nome do padeiro, "Launtius", comum entre a comunidade judaica da época.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Acervo do Museu da Música de Mariana é reconhecido pela Unesco

Museu da Música de Mariana








A importância do acervo do Museu da Música de Mariana (MG), que abriga mais de 2 mil partituras originais, foi reconhecida pela Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco) por meio do Diploma do Registro Regional para a América Latina e o Caribe.

O título foi concedido pelo Programa Memória do Mundo, cujo objetivo é identificar e certificar patrimônios documentais de relevância internacional, regional e nacional, facilitando assim sua preservação e acesso pelo público geral.

Segundo a Universidade Estadual Paulista (Unesp), a coleção de música sacra manuscrita do Museu da Música de Mariana, considerada uma das mais importantes da América Latina, estava em condições precárias de conservação e foi recuperada graças ao projeto “Acervo da Música Brasileira”, coordenado pelo professor Paulo Castagna, do Instituto de Artes da Unesp.

Detalhe do acervo do Museu da Música de Mariana







O projeto revelou ainda peças inéditas de compositores como Lobo de Mesquita, José Maurício Nunes Garcia e João de Deus de Castro Lobo. Outros menos conhecidos, como Miguel Teodoro Ferreira, Frutuoso de Matos Couto e Manuel Dias de Oliveira, também começaram a ter sua memória resgatada.

sábado, 3 de dezembro de 2011

Restos maias de dois mil anos são descobertos no México




As mais antigas ossadas da época anterior à chegada dos espanhóis











Arqueólogos mexicanos descobriram restos maias do período pré-hispânico com cerca de dois mil anos de antiguidade. Trata-se dos primeiros encontrados em Mérida, no sudeste do país, divulgou o Instituto Nacional de Antropologia e História.

A instituição indicou em comunicado que os arqueólogos encontraram há alguns dias restos de dois enterros no centro histórico de Mérida, os primeiros da época anterior à chegada dos espanhóis que se localizam na capital de Yucatán e que poderiam corresponder a um assentamento maia denominado região de Joo.

O arqueólogo Angel Góngora Salas explicou que outras ossadas encontradas anteriormente em Mérida pertencem ao período colonial e etapas posteriores, "daí a relevância dos dois enterros humanos encontrados recentemente no Parque Hidalgo", provavelmente dos períodos pré-clássico médio e tardio (600 a.C. a 250 d.C.).

Ele também detalhou que em um deles foi encontrado um esqueleto inteiro junto com cerâmica, no segundo foram encontrado restos de ossos calcinados e cinzas que estavam dentro de uma urna. Os especialistas especulam que se tratou de uma cremação.

Com a descoberta, os pesquisadores têm os primeiros elementos para estudar "costumes funerários maias nessa área", disse Salas. Ele ressalta que os túmulos foram encontrados a pouco mais de dois metros de profundidade em uma escavação para instalar cabeamento subterrâneo.

O especialista lembrou que Mérida foi construída na época colonial sobre um assentamento pré-hispânico da região maia de Joo, o que sugere que os vestígios devem pertencer a esse assentamento indígena.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Decifrada a única inscrição em árabe das Cruzadas

Inscrição do Imperador Frederico II, da época da sexta cruzada.








Uma inédita inscrição em língua árabe das Cruzadas, descoberta num domicílio privado em Tel Aviv há alguns anos, foi finalmente decifrada, informou nesta segunda-feira a Autoridade de Antiguidades de Israel. A placa, de mármore cinza, data do século XIII e leva o nome do imperador do Sacro Império Romano-Germânico Frederico II, líder da Sexta Cruzada (1228-1229) e que se auto-intitulou rei de Jerusalém no Santo Sepulcro, igreja onde nasceu Jesus Cristo.
Os monarcas que se lançaram em conquista da Terra Santa usavam o francês como língua de comunicação e o latim como registro culto e para as inscrições. O latim, portanto, geralmente era a língua usada nas placas das fortalezas e templos construídos pelos reis no período entre sua chegada nas muralhas de Jerusalém, em 1099, até o fim das Cruzadas, em 1271.
Frederico II (1194-1250), no entanto, foi um monarca diferente, que tomou parte da Terra Santa sem derramamento de sangue, falava árabe com fluência e encheu sua corte de muçulmanos, explicou à EFE um dos responsáveis pela descoberta - Moshé Sharon. Antes de receber as chaves de Jerusalém das mãos do sultão egípcio al-Kamil, após um breve armistício assinado em 1229, o imperador mandou fortificar o castelo de Yafa, localidade litorânea que se localiza atualmente na mais importante via marítima de acesso a Tel Aviv.
Frederico II mandou colocar nos muros do castelo duas inscrições com o mesmo texto: uma em latim e outra em árabe, em sintonia com sua proximidade dessa cultura, explicou Sharon, que é especialista em epigrafia árabe e historiador do islã na Universidade Hebraica de Jerusalém. Um dos trechos dá a data exata da inscrição, "1229 da encarnação de nosso senhor Jesus, o Messias", e enumera os títulos do imperador, que foi excomungado pelo papa Gregório IX.
A placa em latim, que já no século XIX tinha sido atribuída ao imperador, encontra-se na Sicília, no palácio onde viveu Frederico. Não se sabia, porém, da existência da inscrição em árabe, peça que tinha sido achada há alguns anos numa casa em Tel Aviv. Só na semana passada, no entanto, os especialistas conseguiram decifrar seu significado completamente. O árabe mudou muito pouco daquela época até hoje, mas a legibilidade da placa estava muito comprometida.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Personagens Históricos

Tradicional vista do Porto do Capim. Para além dos casarões, uma comunidade dá sentido à vida no local.



Nos últimos tempos, têm sido divulgados, com certa frequência, projetos de revitalização de centros históricos de cidades brasileiras. Certamente, os méritos de tais iniciativas são relevantes, mas cabe considerar que tais projetos, muitas vezes desenvolvidos em áreas nas quais habitam populações possuidoras de poucos recursos materiais, não podem nem devem ficar restritos a especialistas que sabem o que é o "melhor para o povo", mas devem considerar o papel ativo dessas comunidades na preservação do patrimônio e na geração de políticas que promovam efetivamente seu bem estar, entre as quais o direito de participar de todas as atividades que envolvem essas áreas "revitalizadas".
Certas iniciativas adotadas com truculência, em décadas passadas, desalojaram famílias e desagregaram comunidades, com efeitos perversos. Em João Pessoa, em relação ao Porto do Capim, temos oportunidade de desenvolver uma política que garanta a preservação do patrimônio em sua ampla dimensão, ou seja, os testemunhos do passado e as pessoas do presente. O texto abaixo foi escrito após uma reunião, na noite de 31 de outubro, e alude à importância dessas pessoas para a história da região.


Comumente, associamos os chamados personagens históricos a pessoas que obtiveram alguma proeminência em tempos passados, que acabaram sendo citados em livros, batizando com seus nomes ruas, praças ou tendo monumentos erigidos em sua lembrança. De forma geral, uma maneira enraizada de se compreender História diz respeito justamente ao estudo desses personagens, de sua trajetória, de seus feitos.
Nas últimas décadas, a ampliação das fronteiras da pesquisa e do ensino de História possibilitou que se percebesse que a construção de todas as sociedades, em diferentes temporalidades e lugares, pressupõe a presença de um número muito maior de personagens que aqueles celebrizados anteriormente. Não que os homens e mulheres mais poderosos tenham sumido da História, mas que sua ação não se deu sem que tenha interagido com muitos e muitos outros agentes. Há algumas décadas, em sua “Carta a um Operário que Lê”, o dramaturgo alemão Bertolt Brecht já nos provocava a perceber que para além dos grandes reis e governantes, havia muitas e muitas pessoas que haviam construído a História, com os seus trabalhos, suas lutas cotidianas, suas produções culturais.
Também o que se convencionou chamar patrimônio histórico rompeu os limites mais estreitos que o associavam estritamente aos grandes testemunhos arquitetônicos e monumentais do passado, abrindo-se para a percepção das coisas mais modestas, chegando mesmo às próprias pessoas, como verdadeiro patrimônio humano e aquele que dá sentido a todos os demais.
Essa ampliação, chama para o proscênio novas vozes, que não podem nem devem ser silenciadas, a troco de fazermos valer a truculência que se apresenta em sua face brutal (comumente manu militari), mas que também tem uma face mais sofisticada e pretensamente moderna, travestida de ciência, mas que não passa de expediente para justificar os mesmos fins inconfessáveis e solertes. Emudecer essas vozes é diminuir mesmo a nossa condição de humanidade, ainda que nos dediquemos ao que se convencionou chamar de ciências humanas, mas que em muitos casos está mais a serviço da desumanização tecnocrática e da competição insana que assola os meios acadêmicos.
Na noite de 31 de outubro, tivemos a chance e o privilégio de nos defrontarmos com grandes personagens da História da Paraíba. Seus nomes não estão nas praças e monumentos, mas representam o que há de melhor na nossa gente, que labuta diariamente para viver a custa de seu próprio suor, sem explorar o alheio. Em pleno Varadouro, ponto no qual se deram os primeiros ensaios de uma cidade há quase cinco séculos e que bem antes já fora ocupado por populações indígenas que habitaram a região, conhecemos pessoas que repetem as lutas de seus antepassados por uma existência digna, respeitável e respeitada. Gente que mora para além dos grandes casarões e que o olhar clean de certas práticas patrimoniais e turísticas teima em obliterar.
Tivemos a honra de conhecer seu João Alagoano, com seus 78 anos bem vividos, construindo o sustento de uma numerosa e valorosa família e que deseja apenas ter respeitado o seu direito de permanecer onde está, recebendo a todos que o venham visitar com grande generosidade, mas sem subserviência.
Ouvimos o valioso depoimento de Dona Maria, falando de suas mangueiras, coqueiros, passarinhos, caranguejos e da visita cotidiana dos sagüis, que alegram sua casa e que ela pretende continuar a receber com a mesma alegria de sempre.

Para além dos casarões, há uma laboriosa comunidade, que preserva seus hábitos e exige respeito.










Muitos, muitos outros lutadores e lutadoras dessa comunidade, do Porto do Capim, que estão lá desde que esse velho mundo é mundo, querem melhorar suas vidas, mas querem que tudo isso se dê com o devido respeito e sensibilidade, para os quais não cabem termos como remoção ou coisa que apenas trai a intenção de quem quer produzir um “não-lugar” em meios às futuras ruínas do passado humano fetichizado em formas arquitetônicas, que não são nada mais nada menos que a evidência da passagem de outras vidas pelo tempo. Vidas que construíram esses lugares e que continuam a construí-los e lhes conferir sentido.
Uma política de patrimônio e turismo deve estar aberta para conversar com essas pessoas como quem bate uma boa prosa, à sombra das mangueiras, em meio à algazarra dos sagüis, tendo em mente que essas pessoas têm, antes das autoridades ou da academia, o direito de determinar os seus próprios futuros e definir os seus próprios sentidos de felicidade.

domingo, 30 de outubro de 2011

Acampamento estratégico romano é descoberto na Alemanha













Moedas e outros objetos foram encontrados na área do antigo acampamento romano.


BERLIM - Nas margens do rio Lippe, na região alemã de Westfália, foram descobertos os restos de um grande acampamento romano estratégico que fechava a linha defensiva do local e servia de entrada para a antiga Germânia até o rio Elba.

Wolfgang Kirsch, diretor do Instituto Arqueológico de Westfália Lippe (LWL), informou nesta terça-feira, 25, que os especialistas levaram mais de um século procurando este acampamento, que tem o tamanho de sete campos de futebol e está situado a 30 quilômetros da cidade de Dortmund, no oeste da Alemanha.

Dessa base, os soldados controlavam o rio Lippe, "uma das importantes regiões logísticas para os conquistadores romanos", disse Kirsch, que considerou a descoberta como "sensacional para a investigação da época romana em Westfália".

Kirsch acrescentou que as primeiras pistas sobre a localização do acampamento surgiram há três anos, quando arqueólogos descobriram moedas de cobre em um campo e escavações de prova posteriores encontraram restos de cerâmica e de uma cerca de madeira.

O acampamento romano de Olfen foi supostamente construído no início da ocupação da Germânia na margem direita do rio Reno, na época das campanhas bélicas de Druso, na última década antes do começo de nossa era.

domingo, 9 de outubro de 2011

O centenário de um poeta musical




Nélson Cavaquinho, com o instrumento que ficou identificado ao seu nome, desde a juventude nas rodas de choro.



No próximo dia 29 de outubro, a música brasileira comemorará o centenário de um de seus mais talentosos poetas musicais. Nélson Antônio da Silva, ou como era popularmente conhecido, Nélson Cavaquinho, integrou uma geração que nasceu no início do século XX e que elevou a música brasileira a um patamar de elevadíssima qualidade e sofisticação. Dessa geração faziam parte gênios musicais como Noel Rosa, Cartola, Luiz Gonzaga, João de Barro, Lamartine Babo, entre inúmeros outros, que seria um não terminar tentar elencar aqui.
Nélson nasceu no Rio de Janeiro, numa família modesta, sendo seu pai integrante da Banda da Polícia Militar. Essa origem exerceu sobre ele uma dupla influência, por um lado Nélson, logo após o casamento com Alice Neves, por volta dos 20 anos de idade, ingressou na corporação policial, a qual acabou deixando alguns anos depois. Por outro, desde jovem passou a acompanhar rodas musicais de chorinho e identificou-se com o cavaquinho, vindo esse instrumento a fazer parte de seu nome musical.
Nas rondas policiais que fazia no morro da Mangueira, conheceu Carlos Cachaça e Cartola, de quem se tornou amigo e parceiro. Sua identidade com a Escola de samba daquele morro foi tão profunda, que acabou se tornando numa das principais referências musicais da agremiação. No Carnaval de 2011, a Escola entrou na avenida com um enredo homenageando seu ilustre compositor.

Nélson e Cartola, grande amigo e parceiro, em desfile da Mangueira.




Separado do primeiro casamento, Nélson ainda casou-se aos 50 anos, com a jovem Durvalina, então com 20 anos e que foi sua companheira pelo resto da vida. Faleceu no mesmo Rio de Janeiro, em 18 de fevereiro de 1986.
Suas músicas sofisticadas, várias com seu parceiro mais freqüente Guilherme de Brito, falavam de sofrimentos da vida, saudades, amores desfeitos, envelhecimento, temas que alimentam boa parte da trama da existência. Em A Flor e o Espinho, como se estivesse num desfile, fala para um amor desfeito “tire o seu sorriso do caminho, que eu quero passar com a minha dor”. Homenageia sua Escola de coração em Folhas Secas: “Quando eu piso em folhas secas. Caídas de uma mangueira. Penso na minha escola. E nos poetas da minha estação primeira. Não sei quantas vezes. Subi o morro cantando. Sempre o sol me queimando. E assim vou me acabando”. Na sombria Luz Negra “A luz negra de um destino cruel. Ilumina um teatro sem cor. Onde estou desempenhando o papel. De palhaço do amor”. Em Caridade, fala com grande realismo sobre a experiência da pobreza “Não sei negar esmola. A quem implora a caridade. Me compadeço sempre de quem tem necessidade. Embora algum dia eu receba ingratidão. Não deixarei de socorrer a quem pedir o pão. Eu nunca soube evitar de praticar o bem. Porque eu posso precisar também”. Um verdadeiro baú de preciosidades ainda pode ser encontrado em seu vasto acervo musical, onde encontramos verdadeiros clássicos como Palhaço, Quando eu me chamar saudade, Vou partir, Degraus da vida, Rugas, entre tantas outras.













Nélson e o violão, que se tornou seu instrumento após o cavaquinho.

Importante destacar que, ao contrário do que prega certa percepção equivocada a respeito da música popular brasileira – de que a música feita pelas camadas mais pobres da população é tosca, brutal, banal, grosseira – compositores de origens e vidas pobres como Nélson Cavaquinho, Cartola, entre tantos outros, fizeram composições com grande sofisticação musical e poética. Alegar que o mal gosto institucionalizado, que tomou conta das rádios e televisões brasileiras, é culpa do mal gosto popular, é deixar de lado a percepção de que interessa a um sistema social como esse brutalizar as pessoas para aceitarem a vida como uma selva na qual importa apenas competir insanamente uns contra os outros.

Em "Os Quatro Grandes do Samba" (1977) seu reuniram Nélson, Candeia, Guilherme de Brito e Élton Medeiros, numa obra do mais alto quilate musical.

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Homínideo africano de 2 milhões de anos tem traços humanos

Análises aprofundadas do fóssil indicam que Australopithecus sediba possuía características modernas, como fazer ferramentas













Crânio do Au. sediba: fóssil de dois milhões de anos com características de seres humanos modernos



Cinco artigos que serão publicados na edição desta semana do periódico Science indicam que o Australopithecus sediba – hominídeo que viveu há dois milhões de anos – pode estar mais próximo do gênero Homo, ao qual pertence o ser humano, do que se imaginava.

Dois espécimes – uma mulher adulta (chamada de MH-2) e um menino (MH-1) – foram descobertos numa caverna da África do Sul e divulgadas em abril do ano passado, às vésperas da Copa, por um estudo coordenado por Lee Berger, da Universidade de Witwatersrand, em Johannesburgo, e também publicado pela Science.

Agora, os cinco novos artigos demonstram um avanço nas pesquisas e, a partir da análise detalhada do cérebro, da pélvis, das mãos e dos pés desses exemplares, trazem novas evidências. Entre elas, a de que o Au. sediba carregaria as características primitivas do Australopithecus, mas também as características modernas e os traços humanos do Homo. Nesse contexto, os pesquisadores, liderados por Berger, sugerem que o Au. sediba seja encarado como o melhor candidato a antepassado do gênero Homo.

As descobertas estão lançando dúvidas sobre antigas teorias a respeito da evolução humana, incluindo a noção de que a pélvis dos primeiros humanos teria evoluído em resposta a um cérebro de grandes proporções, em uma clara adequação ao momento do nascimento de cada indivíduo. Sugerem ainda que, tendo em vista as características dos pés e das mãos, o Au. sediba carregaria a capacidade de produzir e manejar ferramentas, ou seja, ele poderia ser considerado um “faz tudo”. Poderia ser o caso, inclusive, de rever o grupo em que a espécie se encontra atualmente, de acordo com os cientistas.

“Existem aspectos que sugerem a produção e o uso de ferramentas feitas de pedra, o que geralmente é um traço associado com o gênero Homo”, explicou Steve Churchill, da Universidade de Duke, nos Estados Unidos. Mas quando questionado sobre a possibilidade de enquadrar o hominídeo em questão no gênero Homo, Lee Berger indica cautela: “Que eu saiba, não faz parte da definição do gênero Homo o manuseio de ferramentas. Isso me parece ser aplicado com muita frequência. Se você tem ferramentas, então você está inserido no gênero Homo. Mas, tecnicamente, isso não faz parte da definição”.



Cérebro escaneado

Em relação ao cérebro do Australopithecus sediba, a pesquisa realizou o raio-X mais apurado e revelador já feito em um ancestral humano – o escaneamento do crânio em alta resolução do hominídeo, realizado no European Synchrotron Radiation Facility (ESRF), na França, deu aos pesquisadores uma visão profunda e detalhada sobre o Au. sediba e a época de seu surgimento, formando uma imagem de alta resolução que mostra detalhes mil vezes menores do que um milímetro.



Mão direita do fóssil feminina comparada a uma mão humana: possibilidade do uso de ferramentas












Com as mãos de um faz-tudo

Assim como as outras partes analisadas, as mãos e os pés do Au. sediba também apresentam características modernas e primitivas ao mesmo tempo. O fóssil analisado é o mais completo fóssil de hominídeo já encontrado – estão faltando apenas alguns ossos da mão e do pulso. Assim, foi possível estudar a mão como um todo e não apenas ossos isolados, como até então havia sido feito.