quarta-feira, 20 de novembro de 2013

A DITADURA EM COISAS MIÚDAS


          As recentes e chocantes “revelações” em torno das atrocidades cometidas pela ditadura civil-militar que comandou o país, entre meados das décadas de 1960 e 1980, ainda incomodam muito a nossa sociedade, permanecendo como uma espécie de esqueleto no fundo do armário de nossas consciências. O uso das aspas em relação à palavra revelações é absolutamente proposital, uma vez que muito do que está vindo à tona já era bastante conhecido, mas estava recalcado nas memórias de quem gostaria de esquecer para sempre (algozes desejosos de esconder seus delitos e algumas vítimas traumatizadas pela violência sofrida), especialmente entre os que apoiaram a ditadura, ou que foram no mínimo omissos (o que não deixa de ser uma forma de apoio dissimulado), e hoje gostam de posar de bons moços do passado. Alguns desses mesmos possuem a capacidade camaleônica de apoiar qualquer grupo que estiver nas cercanias do poder, como numa inversão de conhecido ditado: “¿Hay gobieno? Soy favorable”... Uma cultura autoritária subjaz no fundo da “alma nacional”, não poucas vezes se voltando contra pobres, indigentes e desfavorecidos de todo o tipo nessa nossa pátria, que ostenta varonil a condição de uma das campeãs mundiais de exclusão social. Não se toca fogo em índios ou mendigos amiúde sem uma sofisticada elaboração cultural como pano de fundo.




Uma das questões menos percebidas nos debates em torno da instalação da Comissão da Verdade, diz respeito ao fato de que nos defrontamos com essa cultura autoritária profundamente enraizada e nos cabe aprofundar o debate sobre o como será possível enfrentá-la em toda a sua extensão. Como será possível explicar que boa parte da nossa sociedade se divirta com programas de gosto no mínimo duvidoso como os reality shows da vida, cuja finalidade essencial é humilhar, expor ao ridículo, ao sofrimento? Como é que pessoas supostamente saudáveis não vomitam – ou até vibram entusiasticamente – ao ver Roberto Justus demitir outras pessoas, como se fossem ratinhos em um satânico laboratório social, ou Pedro Bial comandar rituais de sadismo explícito em horário “nobre” (que bem poderiam ser invadidos por defensores dos animais indignados com os maus tratos à espécie humana)? Como explicar a empatia generalizada com quem manda, quem pode humilhar e espezinhar os outros? Como equacionar devidamente o fenômeno aparentemente inexplicável da falta de civilidade no trânsito e da manifesta prepotência de alguns homicidas potenciais, que possuem carros possantes e se sentem os verdadeiros capitães do mato, soltos nas estradas e estacionamentos país afora?
Ainda falta muito – se é que um dia conseguiremos – para expurgar esse nosso lado herdado do baú escravista que é o lado mais obscuro de nossa cultura. O espírito da Casa Grande ainda reina inconteste em nossa sociedade. É o nosso “ovo da serpente”, chocado dia a dia sob o calor do nosso sol tropical e o nosso céu gentil. Para os interessados, não deixo de sugerir a estimulante leitura de “O Mulo”, de Darcy Ribeiro, um retrato em negativo dos desvãos da memória de nossos mandões, cujos bisnetos, trajados de terno e gravata, munidos da tecnologia mais sofisticada e ocupando os postos mais elevados de nosso mundo empresarial-político, ainda sentem saudades da senzala e do chicote para poderem exercer suas vocações com mais autenticidade.
Para estes, a democracia se resume ao que lhes favorece, a um rito meramente formal, ou como já tinha intuído João Goulart (à parte as seguidas controvérsias em torno do personagem) no famoso Comício da Central em 13 de março de 1964: Democracia para esses democratas não é o regime da liberdade de reunião para o povo: o que eles querem é uma democracia de povo emudecido, amordaçado nos seus anseios e sufocado nas suas reivindicações. A democracia que eles desejam impingir-nos é a democracia antipovo, do anti-sindicato, da anti-reforma, ou seja, aquela que melhor atende aos interesses dos grupos a que eles servem ou representam. Na mesma ocasião, indo além, o então Presidente declarou de alto e bom som a força do auto-engano que move parte de nossa consciência, que sofre crises histéricas de moralismo hipócrita e inquisitorial alimentado à mancheia por nosso oligopólio midiático: Ameaça à democracia não é vir confraternizar com o povo na rua. Ameaça à democracia é empulhar o povo explorando seus sentimentos cristãos, mistificação de uma indústria do anticomunismo, pois tentar levar o povo a se insurgir contra os grandes e luminosos ensinamentos dos últimos Papas que informam notáveis pronunciamentos das mais expressivas figuras do episcopado brasileiro. Não seria esse o combustível para alimentar a luta feroz pela manutenção de nossa sociedade de privilégios? Não seriam as manipulações de “ameaça do comunismo”, “baderna do vandalismo” e outras desse jaez uma confortável coberta para esconder o fato de que nossos maiorais desejam firmemente manter suas vidas nababescas acima da maior parte da sociedade?
Em 1964 tudo cabia no anticomunismo (repressão a reivindicações sociais diversas, moralismo exacerbado, um monte de coisas e até mesmo o comunismo, que serviu à medida como um “espantalho” para assombrar as senhoras da “boa sociedade”). Hoje continua cabendo um monte de coisa em rótulos de ocasião, para “explicar” o que não tem como esconder: uma sociedade violentamente cindida entre um topo que goza as delícias da existência e uma vasta base alijada de tudo isso. Esse é o verdadeiro combustível de nossas políticas de “insegurança pública”, para as quais não haverá policiamento que dê jeito. A propósito, não temos todos os elementos para entender toda a extensão do que acontece nos dias que correm e recebem o rótulo de “vandalismo” – mas que podem esconder desde a rebelião contra a violência diária a qual são submetidos jovens empobrecidos até a ação dos famosos “agentes provocadores”, que obram a serviço de “forças terríveis” escondidas no subsolo de nosso mundo social. Independentemente de tudo isso, gostaria de obtemperar que não me parece o melhor caminho destruir patrimônio público como telefones ou lixeiras, é preciso divisar caminhos efetivos para construir um futuro alternativo. A não ser que parte desse componente autoritário de fundo também se acople ao tecido de determinados grupos que apenas pretendem obter as condições necessárias para empunhar o látego sobre os outros.         
Por tudo isso mesmo, é que só conseguimos vislumbrar da ditadura o seu lado mais “espetacular” e “chocante”, as narrativas das horrendas perseguições, exílios, torturas, assassinatos, desaparecimentos e outras práticas de infernal teor. Ainda não foi publicamente avaliada a longa permanência dos esquadrões da morte, “mão branca” e toda a sorte de “clubes de extermínio” que possibilitaram, sob denominações diversas, o “sono sossegado” de nossas altruístas elites. Passa despercebida da maior parte a ditadura solerte, as coisas miúdas do cotidiano que se entranharam profundamente em nosso tecido social e cuja superação exigirá um longo aprendizado – lembrado oportunamente por uma das pessoas mais especiais que me honraram com sua amizade, o sociólogo e Ex-Presidente da UNE Vinícius Caldeira Brant, numa publicação acerca do Congresso de reconstrução da entidade em Salvador (1979): Pra reaprender a somar no movimento estudantil ou em qualquer outro movimento, vai ser necessário responder a uma prática democrática de tolerância que a ditadura fez que as pessoas desaprendessem –, ou seja, que a ditadura tinha exacerbado nosso traço autoritário mais que secular e que o aprendizado de uma prática efetivamente democrática levaria longos anos, talvez gerações. Eu acrescentaria, para o sorriso do amigo: e não é possível construirmos qualquer prática democrática mergulhados num oceano de injustiça social.

O "exílio interno" em O Toque do Silêncio.

          Essa ditadura miúda – ainda longe de seu ocaso – se manifestou na gestação de um ambiente asqueroso de bajulação de poderosos e de delação generalizados; no exercício sutil de um olhar seletivo, que evitava ver certos abusos e injustiças cometidos à luz do sol. Além da ditadura dos porões e grupos de extermínio, essa outra ditadura vicejou longamente, sendo aquela que dava sentido à dos quartéis: a peçonhenta ditadura do grande capital (lembrando da obra sempre marcante de Octávio Ianni), da exploração desenfreada e desavergonhada dos trabalhadores, somada à das pequenas perseguições do cotidiano, dos incalculáveis danos gerados a muitas pessoas que foram prejudicadas em seu ambiente de trabalho, nas suas relações de vizinhança, nos comentários à boca miúda que constrangeram indivíduos que “feriam a moral e os bons costumes”. Essa ditadura miúda foi tratada com brilho e rara sensibilidade e brilho em “O Toque do Silêncio”, de autoria de mais uma pessoa que me honrou com sua amizade, o historiador Francisco César de Araújo. No livro, através do seu alterego, o professor Júlio – um ex-militante do movimento estudantil que se tornara professor em uma cidade (qualquer cidade) do interior brasileiro nos finais dos anos 60 e início dos 70 – Chico Araújo denunciou o clima contínuo de delação, de controle, de perseguição que mostra o “lado civil da ditadura militar”, o lado miúdo que tinha na tortura sua outra e terrível face: ambas se alimentavam mutuamente. Na Escola, no bairro, nas mais comezinhas atividades diárias, esse ambiente “empesteado” se manifestava de sol a sol.
Não podemos deixar esquecer que muita, mas muita gente apoiou ativa ou passivamente a ditadura e exerceu do jeito que pode sua “ditadura particular”. Fosse a vítima a empregada doméstica, o menino de rua, a pessoa “esquisita” da vizinhança, essa ditadura penetrou por todos os poros de nossa sociedade. Não podemos deixar esquecer que maior parte dos meios de comunicação (o oligopólio midiático) que tece loas à democracia nos dias que correm, colaborou alegremente com o que alguém, numa dose deslavada de eufemismo e um acesso de cinismo, denominou de “democracia forte”.
Para não deixar de referir mais miudamente a um fato que nada tem de miúdo – pelo contrário, revela em sua extensão o descalabro do regime – lembro de um fatídico acontecimento no dia 25 de agosto de 1975, em João Pessoa: em meio às comemorações da semana do soldado, um festivo evento com direito a exposição de armamentos e veículos militares no ponto central da cidade, terminou com um trágico resultado: 35 mortos, 29 dos quais crianças. Por incúria ou outro problema que falta apurar, uma embarcação que fazia passeios na Lagoa do Parque Solon de Lucena naufragou e o desespero das pessoas e o despreparo dos promotores do evento consumaram o terrível acidente. Com certeza, não chegaria aqui a conceber qualquer propósito soturno no acidente (seria coisa inimaginável), mas a não apuração judicial das responsabilidades (como hodiernamente exigimos em relação da tragédia da Boate Kiss, em Santa Maria-RS), garantiu a impunidade para os culpados e a não reparação devida pelo Estado brasileiro. As famílias vítimas do terrível acidente devem receber as reparações do Estado, uma vez que a incapacidade do poder público de garantir a segurança da população e, nesse caso da Lagoa, a clamorosa incompetência, levou ao trágico desenlace. Como o incidente envolvia gente poderosa, sua investigação foi devidamente engavetada, assim como em muitas outras atrocidades cometidas pelo Estado brasileiro em relação à sua população. Lembremos ainda o caso da tragédia da Vila Socó (Cubatão-SP, 1984), quando uma comunidade foi totalmente destruída, com centenas de vítimas carbonizadas, dada a incúria e a prepotência dos diretores da Refinaria Artur Bernardes, que se recusaram a atender os reclamos da população sobre vazamento do gasoduto que atravessava o subsolo da comunidade: uma pequena fagulha e... muitas vítimas...

Tragédia da Lagoa - o Estado brasileiro precisa ser responsabilizado.

Creio que tragédias como a da Lagoa ou da Vila Socó são questões que exigiriam a investigação das Comissões da Verdade, por envolverem a falta de apuração por responsabilidades do Estado frente a tragédias sociais, geralmente anunciadas. Estado esse que sempre foi muito cioso de segurança pública quando essa envolvia e envolve a proteção dos bens e propriedade de nossos patrícios, mas que é insensível ou omisso quando essa segurança exige o cuidado com os mais desprotegidos frente à sanha do grande capital.
                           


Em 20 de novembro de 2013, 318 anos depois da morte de Zumbi dos Palmares pelas tropas a serviço da segurança e da propriedade dos poderosos de plantão.  


sábado, 16 de novembro de 2013

UMA HIPOTECA PARA O FUTURO? Em torno da propalada mudança da Assembleia Legislativa para o Altiplano do Cabo Branco.

Assembleia Legislativa - entre o conforto e a responsabilidade.  















           O fascínio das novidades convive com questões menos inocentes que mobilizam alguns arautos do novo. Não raras vezes, numa cidade, quando se exalta uma nova área como moderna, sofisticada, esse discurso traz à socapa inconfessáveis interesses de especulação, notadamente imobiliária, com suas decorrentes lavagem de dinheiro, superfaturamentos de obras e toda essa pletora de práticas que a sociedade, muitas vezes, finge condenar.
A propalada mudança da Assembleia Legislativa da Paraíba para o Altiplano do Cabo Branco segue uma desastrosa política urbana já iniciada décadas atrás com a mudança do Centro Administrativo do Estado para Jaguaribe, do Centro Administrativo Municipal para a Água Fria e a pulverização de ramos do Judiciário para áreas diversas da cidade, com tendência a se concentrar no Brisamares e Jardim Luna, às margens já congestionadas da BR-230 (não sendo nenhum exercício de futurologia prever congestionamentos-monstro na área após a instalação da Justiça do Trabalho e do Ministério Público nas imediações, para maior desespero dos “quase-futuros-ex-moradores” da Rua Casimiro de Abreu e adjacentes).    
Numa passagem clássica na qual discutia a formação das cidades brasileiras, o historiador Sérgio Buarque de Holanda nos comparava a “semeadores”, que fazíamos tudo à base do improviso, nos opondo aos povos “ladrilhadores”, marcados pelo senso de planejamento. Outros historiadores se contrapuseram, por vias diversas, a essa forma de análise e destacaram a questão de indícios de planejamento efetivo na formação de nossas urbes. Para embaralhar as coisas, fica a questão preliminar: ladrilhar seria necessariamente melhor que semear? Que tipo de ladrilhagem é efetivamente feita? A que interesses atende? Haveria uma oposição binária entre semear e ladrilhar ou ambos seriam processos muitas vezes complementares entre si? Nossas cidades, com esse tipo de crescimento, não estariam repetindo, em escalas distintas, ciclos de especulação-valorização-exclusão-violência? Enfim, vamos discutir algumas questões. 

Rua do Melão no começo do século XX.













          No filme Sábado (1995), de Ugo Giorgetti, o diretor abordou de forma mordaz os surrados discursos de “amor pelo Centro” e “vamos voltar às origens” na problemática metrópole de São Paulo, que propugnam iniciativas de “higienização do passado”, a fim de torná-lo uma terra de belezas, sem pobreza e cheia de heroísmos. Efetivamente, tais discursos se pautam por uma espécie de assepsia da História, elidindo os aspectos mais chocantes do passado. Falando em palavras redondas: o passado das cidades brasileiras (e nossa intrépida João Pessoa não é exceção) é marcado pela presença chocante da escravidão, da pobreza, da violência, do abandono, enfim, da nossa tão íntima, perversa e pitoresca convivência entre riqueza e miséria. Assim, sem muito rodeio, quando observamos antigas imagens de nossas cidades, poucas vezes ficam evidentes (ou são deliberadamente disfarçadas) as habitações precárias, as pessoas empobrecidas e assim por diante, como podemos verificar numa valiosa fotografia da Rua do Melão (Beaurepaire Rohan) no início do século XX. Que pena que as fotos não tem cheiros e barulhos!!! As tecnologias emergentes, logo que tornarem isso possível, poderão trazer várias vantagens e, com certeza, alguns incômodos.

Detalhe da Rua do Melão - passado a "terra de belezas".










Se realizássemos uma suposta viagem ao nosso “centro histórico” (neologismo para esconder o fato que o grande capital e a grande política abandonaram o lugar e foram “florescer” em outras plagas), ou mais precisamente nas imediações das atuais Praça Vidal de Negreiros, 1817 e João Pessoa, lá pelos finais do século XIX, encontraríamos o local povoado de ex-escravos, pobres, trabalhadores informais e toda uma pletora de gente que foi sendo escorraçada do lugar nos processos de modernização do século XX. Não é à toa que as antigas Igrejas do Rosário dos Pretos e da Mercês dos Pardos do local foram postas abaixo. Quem residia nesses lugares quando as mesmas foram erigidas em finais do século XVIII (que pena que os antigos mapas urbanos não representavam choças miseráveis que existiam na velha (então nova) cidade!!!)? Certamente não eram os pretensos afidalgados do lugar, que estavam mais acima, na parte mais alta nas Ruas Direita e Nova. Num processo que já vinha do final do Oitocentos, por volta dos anos 1920/1940, o lugar foi sendo seguidamente valorizado e “embelezado” para os bem-nascidos locais, sendo a populaça enxotada das redondezas. Esses processos não acontecem sem que estejam diretamente associados os ganhos dos ladrilhadores com as táticas ou astúcias de sobrevivência dos semeadores que laboram para se alojar nas fímbrias do tecido urbano valorizado e, assim, poderem defender seus modestos meios de vida.  
Eis que a cidade “descobre a praia” nos meados do século XX. Mesmerizados pela visão da cidade moderna, o paraíso tropical onde o sol nasce primeiro e apresenta uma pretensa qualidade de vida para os bem-afortunados, se transferem negócios, moradias e órgãos da administração pública para o lugar. As antigas povoações de pescadores (que ali estavam, como atesta um interessante depoimento do pastor Daniel Kidder que esteve em “Tambaiú” por volta de 1839 e conversou com pessoas do lugar) foram devidamente “realocadas” em outras plagas e seus moradores foram semear suas vidas onde pudessem habitar e ter algum trabalho. Em bairros abertos – ladrilhados – pela combinação entre os planos urbanos e as novas condições de transporte de massa, foi sendo destinada a moradia e serviços das populações de menor renda. Para os que habitavam os universos da pobreza “pura”, restaram os lugares menos prezados pelos negócios urbanos. Vejam-se os casos dos terrenos nos “fundos” de Manaíra, Tambaú, Bessa e Intermares, que vão se tornado progressivamente áreas consideradas “problemáticas” pelas autoridades da Capital e da Capitania. Não é futurologia também perceber o acúmulo de problemas de mobilidade urbana na nova fronteira do glorioso e solar porvir, o Altiplano do Cabo Branco, à medida do adensamento de Condomínios fechados, negócios e órgãos da administração nos grandiosos empreendimentos ladrilhados pelos bem-afortunados locais (associados ao Capital de outras plagas, nem sempre legal, e devidamente lavado para acobertar sua delituosa procedência); por sua vez, esses estarão associados aos processos de semeio de precárias moradias nos fundos dos pequenos vales (Timbó, Aratu e outros) que medeiam entre a “área nobre” e os bairros residenciais e comerciais ao seu oeste. Nessas áreas delicadas, a degradação ambiental estará associada à sua irmã siamesa, a social, ambas são ladrilhadas e semeadas no interior da mesma lógica.    
Para trás, vão ficando os “centros históricos” que guardam as “belezas do passado”. Será o busto de Tamandaré uma relíquia de nosso futuro, quando a cidade elegante tiver fugido para o Altiplano?
          O antigo lugar cívico da Capitania – onde, em tempos prístinos, provavelmente habitaram os potiguara, sucedidos pelos jesuítas e pelos moradores desse arrabalde, pelos Governantes e seus funcionários, pelos estudantes do Lyceu e da Escola Normal, pelos freqüentadores do Jardim Público (devidamente gradeado para espantar os indesejáveis), pelos Desembargadores e operadores do Judiciário, pelos Parlamentares Estaduais, pelo comércio mais refinado – foi sendo relegado paulatinamente ao papel de “relíquia” que é bom saber que está lá, que existe, mas que não convém freqüentar pelos habitantes da cidade cosmopolita. Resta aos que não usufruem dessa urbe moderna, se estabelecerem nesses lugares de formas possíveis como lavadores de carro, engraxates e outras pequenas ocupações urbanas. Como se espantar, senão para legitimar a religião nacional da hipocrisia, que algumas dessas pessoas adiram ao “submundo” dos crimes e das drogas, que tiram o sono de nossas autoridades de segurança pública e as pessoas de bem do lugar? Uma cidade que não fornece os confortos e direitos para todos, é geradora da insegurança pública estrutural. Isso não é paternalismo, é apenas a constatação de que esses processos só existem devidamente associados e que os ganhos de uns correspondem diretamente às perdas de outros.
História é coisa do presente e é o presente que nos interessa. Para além das dificuldades de exercício efetivo dos órgãos públicos como a Assembleia Legislativa da Paraíba no lugar (estacionamento, instalações etc), não seria melhor pensar numa solução “local” e inclusiva, social e economicamente, para os problemas? Por que não atacar os processos de concentração imobiliária e de estoque de edificações e terrenos, que, além de encarecerem o preço de compra (apanágio da violenta especulação que assola nossas cidades), transformam na mesma medida certos lugares em “fantasmas”? Não seria melhor discutir com responsabilidade social a efetiva ocupação da área e considerar os enormes prejuízos sociais e econômicos decorrentes da transferência da Assembleia para outra região? Não existem diversos imóveis desocupados ou sub-utilizados para os quais se poderia pensar a destinação pública e social? O lastimável arquivo da Assembleia (para não deixarmos de denunciar esse importante Patrimônio Público tratado com tanta incúria) não poderia ser alocado com conforto e todas as exigências técnicas em prédios abandonados das imediações, desde que devidamente feita a sua adequação? Não se pode levar efetivamente a sério os programas de habitação social no lugar? Não se pode valorizar as pequenas atividades de comércio e serviços que permitam a vida dos habitantes mais modestos da cidade? Não seria melhor levar em consideração as necessidades sociais, que não precisam estar em necessária contraposição ao conforto dos Parlamentares e funcionários do nosso Legislativo? Não seria importante pensar nessas coisas? Ou a ingenuidade e sua gêmea siamesa menos inocente – a cupidez – têm de guiar todo o processo? Temos de ladrilhar e semear perversamente os processos urbanos do futuro?        
Não é de desprezar o fato de que a cidade do futuro possa fazer “campanhas de valorização do Centro ‘Histórico’”, com slogans de “amor ao Centro”, concursos de redação nas Escolas para aplacar as consciências, criação de “centros de cultura” e “shoppings populares”. Mesmo os paraibanos de outras cidades não podem se furtar ao fato de que, no futuro, podem ser acrescidas despesas com segurança pública para os futuros contribuintes, a fim de “resolver” a insegurança do lugar. Lá virão denúncias de crimes e violências de toda a espécie, de depredação do Patrimônio Histórico, de abandono etc. O suposto “abandono” é produzido hoje, essa hipoteca será pesadamente resgatada no futuro. E se as coisas forem levadas do mesmo jeito, nossos futuros alcaides iluminados da Filipéia da Beira-Mar irão promover novas propostas de “revitalização” do lugar, que, invariavelmente, incluirão a exclusão dos pobres em seu cardápio. Por que, até não mudar a Capital e pensar num lugar novo digno das pessoas que virão, abandonando as ruínas do passado para trás? 

Hotel Globo - meados do século XX.














          Na contramão disso tudo, a comunidade do Porto do Capim tem aparecido como a principal novidade na política urbana da cidade, verdadeiro esteio de uma cidadania para além do discurso estéril e pouco convincente das autoridades, dos bem-nascidos e da mídia. Eles estão lutando para participar da ladrilhamento previsto para o lugar que há tempos semeiam com suas vidas e labutas, dizendo que a comunidade está lá e é a maior interessada e responsável pela sua preservação e desenvolvimento. No passado asséptico produzido às margens do poder, querem dizer que ali era o lugar nobre das caravelas onde os heróis fundadores empreenderam a civilização do lugar. Cabem alguns reparos: primeiramente, esses heróis fundadores foram os mesmos que promoveram a escravidão, que iniciaram a concentração de rendas e terras, que deixaram as fortunas para seus descendentes e a pobreza e outras mazelas para os seus pósteros não incluídos nas felizes genealogias nobilitantes. Portanto, não consta que devamos ser tão sentimentais em relação a essas pessoas de tempos idos, elas já usufruíram seu gostoso quinhão em vida. Outrossim, se ali havia um porto, não é preciso ser nenhum gênio da historiografia ocidental para saber que a área foi historicamente ocupada por populações trabalhadoras, que estão lá “desde sempre”, considerando que esse sempre começou depois que os potiguara foram devidamente “afastados” manu militari do lugar. Se alguém tem direitos legítimos a usufruir primeiramente da área, é quem já está lá agora, no presente, e que deseja ter voz ativa no que lhe diz respeito. Ou, se vamos “resgatar o passado”, devolvamos a área aos potiguara e ainda paguemos pelo seu uso secular.

No detalhe: Abaixo das glórias arquitetônicas da cidade, as moradias que não integram o
cenário celebrativo da História, mas que constroem as glórias alheias pelo seu trabalho.
Eles "sempre" estiveram lá. 


Há vezes nas quais os ladrilhadores semeiam problemas e os semeadores ladrilham soluções. Nossos parlamentares, que pretendem representar a voz do povo, teriam muito a ganhar se deixassem de se embalar pelo “som do mar e a luz do céu profundo” e aprendessem com os ribeirinhos que habitam as margens do Sanhauá, verdadeiro patrimônio do povo da Paraíba.        

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Rio: escavações revelam tesouro arqueológico em lixo da realeza

Arqueólogos acreditam que poderão recuperar até um milhão de peças, no que poderia ser um dos maiores achados arqueológicos do Brasil


Pasta para limpeza de dentes.
Um despejo do século 19 revelou no Rio de Janeiro um grande tesouro arqueológico com centenas de milhares de peças, incluindo uma escova com uma alusão ao imperador Dom Pedro II, que jogam luz sobre os costumes mais mundanos da elite da época da independência do Brasil.
Os arqueólogos catalogaram cerca de 200 mil objetos em bom estado de conservação em seis meses de trabalho e acreditam que poderão recuperar até um milhão de peças, no que poderia ser um dos maiores achados arqueológicos do Brasil, disse à Agência Efe o responsável pelas escavações, Cláudio Prado de Mello.
No acervo de peças encontradas estão restos de cosméticos franceses, água mineral importada da Inglaterra e um frasco de colônia com o curioso nome de "Anti-Catinga". Também há pratos e vasilhas de cerâmica, garrafas de licores e água, cachimbos com restos de tabaco, potes de porcelana com ungüentos e frascos com líquido em seu interior, que poderiam ser produtos medicinais, segundo os arqueólogos.
Manufatura indígena do século XVII.
As escavações mais profundas desencavaram objetos até do século 17, entre eles, alguns de manufatura indígena, como um raspador de sílex e um cachimbo feito com um chifre, que contrasta com outros cachimbos muito diferentes que pertenceram ou aos colonizadores europeus ou aos escravos africanos.​
Os europeus vão desde simples cachimbos de caulim até outros mais elaborados com cabeças de personagens talhadas, enquanto os dos escravos estavam decorados com grafismos que se correspondem com as escarificações ou marcas corporais que se tatuavam as tribos africanas.
Os arqueólogos fizeram a descoberta no início deste ano, quando se iniciaram no local obras relacionadas com a expansão do metrô. Devido a essas obras, que se prolongarão até 2016, os arqueólogos tiveram que interromper as escavações e terão que esperar três anos para voltar a abrir as fundações.
Então prosseguirão com os trabalhos para recuperar o "lixo" dos herdeiros da Casa de Bragança, a dinastia portuguesa, nos anos que fizeram do Brasil um Império, quando nem imaginavam o valor que teriam seus resíduos. 

sexta-feira, 21 de junho de 2013

A mentira sobre o suposto povo que dormia - O povo tem estado acordado.



O Brasil atravessa uma fase extraordinariamente delicada... é evidente que, despertada do sono cataléptico que dormira, ao embalo dos cantos de sereia... a Nação vê renascer sua consciência política...” General Waldomiro de Lima. Interventor no Estado de São Paulo (1933)


                Essa octogenária citação, reproduzida na íntegra pelos historiadores Carlos Alberto Vesentini e Edgar de Decca em artigo de 1976, nos faz pensar numa falácia sobre o suposto sono do povo brasileiro, pretensamente despertado nos últimos dias.
               
                Senão, vejamos:

                Não estavam dormindo as faxineiras, diaristas e toda essa pletora de trabalhadoras e trabalhadores que estão lutando pelos seus direitos, madrugando nos pontos de ônibus, enquanto boa parte dos filhos de nossas classes médias e altas gozam de seu dolce far niente apenas para torrar o dinheiro dos pais. E não dormem aquelas e aqueles que são responsáveis pela condição de funcionamento de empresas, Universidades, shopppings, repartições públicas e todo o tipo de estabelecimentos pelo país afora.
                Não estavam dormindo os trabalhadores rurais, que lutam pelo fim da escandalosa concentração fundiária no nosso país. Gente que herda a luta secular expressa em Canudos, Contestado, Ligas Camponesas e os mais diversos e bravos movimentos de trabalhadores que batalharam e batalham pelo acesso à terra na qual depositam seu pesado labor.
                Não estavam dormindo os povos indígenas, que lutam secularmente pelos seus direitos à terra, pelo respeito às suas culturas e que são vítimas diretas do vergonhoso esbulho que se pratica há cinco séculos contra seus direitos nesse país tropical. Eles estão despertos e continuam a resistir.
                Não estavam dormindo os trabalhadores urbanos, que reivindicam direitos de moradia (contra os escandalosos latifundiários urbanos, que especulam e encarecem as moradias), ou lutam contra a carestia que abate os mais pobres (em movimentos como o Quebra-quilos, a revolta do vintém, contra o aumento das passagens de bondes, entre muitas e muitas lutas pelo transporte popular e outros serviços públicos), que apenas favorece o apetite daqueles que se locupletam com a exploração do suor do povo.
Não estavam dormindo aqueles que lutam contra a maior e a mãe de todas as corrupções, a injustiça social, que é geratriz de todas as demais. Não dormiam esses que tentam garantir serviços públicos de qualidade e respeito, serviços esses que são aviltados por interesse de grandes e pequenos esquemas que sugam as energias de nosso trabalho. Lembremos que a macro e a micro-corrupção se alimentam nas mesmas tetas.
Não estavam dormindo os movimentos de negros, de homossexuais, de mulheres, de direitos humanos, enfim, de todos os grupos vítimas das mais diversas formas de opressão física e moral que batalham com ardor por respeito, por direitos iguais para as muitas diferenças. Estes estão avançando, para desespero dos fascistóides de todos os matizes que querem padronizar vidas e comportamentos. Querem padronizar segundo seus velhos modelos para excluir.
Não estavam dormindo aqueles que sabem que a grande mídia é um oligopólio que manipula as notícias ao bel prazer dos inconfessáveis interesses de grupos de poderosos e privilegiados que têm instrumentalizado secularmente o Estado brasileiro para manter toda uma sociedade jungida ao seu gosto por mandar e explorar.
Estejamos alertas: estavam e estão muitíssimo acordados os grupos de direita e extrema-direita e os oportunistas e arrivistas de plantão, que tentam usar agentes provocadores para desestabilizar a democracia pela qual nossa sociedade tem lutado tão longamente, com coragem cívica e com o sangue de muitos e muitos massacrados em nome de uma suposta ordem, que apenas pretende manter boa parte do povo como mera massa produtiva, enquanto esnobam dinheiro nas colunas sociais e arrotam seu pseudo-patriotismo de ocasião.
Não podemos cair nessa falácia: o povo está acordado há muito tempo, e não podemos nos deixar iludir pelas artes da manipulação que tão solertemente tentam se infiltrar nos legítimos reclames da sociedade. Lembremos: alguns de nossos piores inimigos estão disfarçados nas passeatas.


                                         Ângelo Emílio da Silva Pessoa
Professor de História    


terça-feira, 19 de março de 2013

A inundação de tragédias anunciadas







LADO B: "cena clássica" de enchente, com mortes e destruição material devidas às chuvas "acima do esperado". Imagem que parece se repetir à exaustão.  


“A inundação tinha coberto as margens do rio até onde a vista podia alcançar; as grandes massas de água, que o temporal durante uma noite inteira vertera sobre as cabeceiras dos confluentes do Paraíba, desceram das serranias, e, de torrente em torrente, haviam formado essa tromba gigantesca que se abatera sobre a várzea... A inundação crescia sempre; o leito do rio elevava-se gradualmente; as árvores pequenas desapareciam; e a folhagem dos soberbos jacarandás sobrenadava já como grandes moitas de arbustos”. José de Alencar. O Guarani. (1857).

“...muitos têm tido e têm a opinião de que as coisas do mundo são governadas pela fortuna e por Deus, de sorte que a prudência dos homens não pode corrigi-las, e mesmo não lhes traz remédio algum. Por isso, poder-se-ia julgar que não deve alguém incomodar-se muito com elas, mas deixar-se governar pela sorte... penso poder ser verdade que a fortuna seja árbitra de metade de nossas ações, mas que, ainda assim, ela nos deixe governar quase a outra metade. Comparo-a a um desses rios impetuosos que, quando se encolerizam, alagam as planícies, destroem as árvores, os edifícios, arrastam os montes de terra de um lugar para o outro: tudo foge diante dele, tudo cede ao seu ímpeto, sem poder obstar-lhe e, se bem que as coisas se passem assim, não é menos verdade que os homens, quando volta a calma, podem fazer reparos e barragens, de modo que, em outra cheia, aqueles rios correrão por um canal e o seu ímpeto não será tão livre nem tão danoso”. Nicolau Maquiavel”. O Príncipe. (1532).


                Lá pela 7ª série, a Professora de Português do Pio X havia nos indicado a leitura de O Guarani, de José de Alencar. Não posso negar que, à época, com uns 13 anos, achei a obra chata, impressão que acabou se desfazendo com uma leitura posterior e mais adulta. Mesmo passado esse tempo todo desde o final dos anos 70, nunca consegui esquecer a parte final do livro, porque me parecia simplesmente inverossímil que pudesse acontecer uma enchente daquele porte, que destruía tudo ao redor de suas margens e chegava à altura da copa de grandes árvores.
                Após morar duas décadas no Estado de São Paulo, pude constatar a violência de chuvas pesadas e grandes inundações, que me lembravam que o romance de Alencar, com toda a licença literária, não havia exagerado nesse ponto. Também lembro que a música Águas de Março, composta por Tom Jobim na década de 1970, se referia a esse fenômeno recorrente de chuvas ostensivas naquela região nesse mesmo período do ano.
                A questão é que já me cansou ouvir repetidamente a tal notícia, como um disco riscado na velha vitrola com a agulha pulando: “choveu três vezes mais que o esperado para tal período...” “...dez vezes mais que o esperado...” “...duzentas vezes mais que o esperado...” e o diabo a quatro!!!. Ora bolas, desde 1857, pelo menos, parece que quase sempre costuma chover mais que o esperado e aquela região se torna um verdadeiro mar, com os conseqüentes fenômenos decorrentes: inundação, desabamentos, destruição, mortes etc.
                Resumindo: a água e os aguaceiros já estavam lá há bastante tempo – pelo menos na época das grandes chuvas, frequentemente ficam “acima do esperado” e, assim, podemos constatar que o inesperado já é mais ou menos esperado – as vítimas humanas das tragédias chegaram depois, sejam os indígenas da região, dizimados com o avanço colonial, sejam as populações posteriores. E chegaram motivados por várias situações, entre as quais não se deve descartar as menos idílicas, como a cupidez imobiliária, a exclusão social, a imprevidência das autoridades que deveriam estar preparadas para o tal “mais que o esperado”. 
                Mais uma vez, em 2013, a cena se repete ad nauseam. As televisões e jornais mostram cenas dantescas de mortes e destruição, novas providências são prometidas e, em 2014 ou 2015, provavelmente “choverá mais que o esperado”. Listagens de prováveis culpados: São Pedro? O Presidente ou o Governador de plantão? Prefeitos? Políticos em geral? Nessa barafunda, no outro extremo da Brasilândia, aguarda-se a chuva com promessas aos céus!!!
                Certamente, aqui acolá encontramos tais (ir)responsabilidades e as mesmas precisam ser apuradas e punidas com todo o rigor necessário. Mas a questão não começa nem acaba aí. Mais que isso, há uma determinada formação social que convive de forma “natural” com a imprevidência, com um certo quê de “distração”, que deixa a sociedade (ou melhor, a parte mais vulnerável da mesma) entregue à própria sorte, até que algo acontece – a “fatalidade” – e o choque da tragédia mobiliza todos, até a próxima tragédia colocar a anterior no rol do esquecimento. Nosso descaso para com as profundas diferenças sociais, o espaço público, o impacto ambiental de nossas ações, os direitos alheios e a corrupção do poder público e os agentes privados são o combustível que alimenta esse cortejo de desgraças. Quem pode pagar para tentar ficar imune às tragédias, paira ou pensa pairar sobre os demais, especialmente aqueles que são relegados às fímbrias dos direitos, a quem cabe torcer para que “Deus seja brasileiro” e rezar para vir sol e chuva na medida certa.
A essência desse problema não está nas “temíveis forças naturais”, mas numa sociedade que convive “gostosamente” com a exclusão, com os abismos sociais e a extrema concentração de riqueza. Qualquer política mais ou menos tímida que pretenda alterar “as coisas como elas são” é duramente atacada e não está realmente no horizonte um conjunto de políticas que rompa os privilégios e garanta os direitos efetivos para todos. Por isso há a conhecida diferença entre “escolas para pobres e ricos”, “saúde para pobres e ricos”, “moradia para pobres e ricos”, entre outras condições useiras e vezeiras que parecem naturais, porque “choveu mais que o previsto...”. Nessa verdadeira “cruzada” pela manutenção dos privilégios, papel não desprezível joga uma mídia quase absolutamente partidária e engajada nas estruturas de poder, controlada por restritos grupos econômicos e que desinforma informando, mostrando uma “realidade” que simultaneamente falseia. Além do mais, o lado instrumental das tragédias (com todo o festival de roubalheira e irresponsabilidade associado) é, em si, um aspecto diretamente necessário e indispensável das mesmas.     
                Como não encontrar similaridades entre essa e outras tragédias – infelizmente corriqueiras – cujas maiores vítimas são invariavelmente os mais pobres? Só para lembrar de passagem, o terrível incêndio da Vila Socó, em Cubatão (SP), no ano de 1984, quando um vazamento irresponsavelmente não resolvido num duto da Petrobrás, matou 93 pessoas, de acordo com números oficiais, mas que pode chegar à cifra de 600 vítimas, num incidente não devidamente investigado em plena ditadura. A recente tragédia da Boate Kiss, em Santa Maria, não deixa de atualizar esse quadro do inesperado que é mais ou menos esperado, a depender dos azares da fortuna, que, segundo Maquiavel, governam metade de nossas vidas, mas que deixam a outra metade para nosso juízo se prevenir contra o “mais que o esperado”. Há o dado adicional nessa última de que, quando as tragédias atingem “gente bonita” (naquela simpática linguagem eugênico-popular) parece que a coisa até dói mais nos nossos órgãos cordiais.
Aqui mesmo em João Pessoa temos uma situação afortunada de tal porte na conhecida “partilha” da várzea do Jaguaribe entre tubarões e piabinhas, feita ao arrepio de qualquer regulamentação ou fiscalização pública. Mas Deus deve ser pessoense e, até que aconteça algo “inesperado”, ou seja, até que venham chuvas copiosas “acima do esperado”, tudo ficará no mesmo diapasão. No mais, em alguma eventual tragédia, a cidade sairá no noticiário nacional, o que poderá nos deixar muito orgulhosos pela projeção alcançada!!!



  



OUTRO LADO B:"cena clássica" da seca, com mortes e destruição material devidas à estiagem prolongada, com chuvas "abaixo do esperado". Imagem que parece se repetir à exaustão.  


Como reagir, por exemplo, frente à desfaçatez quase cínica de boa parte de nossas paraibanas elites, que “choram os males da seca”, enquanto promovem grandes negócios e negociatas, insensíveis às mazelas vividas pelos mais pobres? Hoje é Dia de São José, que, segundo a tradição popular, é o dia-limite para se saber se haverá ou não seca. O FATO (e uso o termo em maiúscula, para ressaltar sua efetividade) é que há muito tempo se sabe que há anos em que se chove “menos que o esperado” para o período – numa dessas irônicas inversões da fortuna entre norte e sul da nossa terra Brasilis – e as tragédias humanas parecem se repetir e acumular como um disco riscado, já devidamente detectado há tempos pela nossa célebre literatura da seca, também conhecida desde os bancos escolares. Essas tragédias também trazem seu lado instrumental e não poucas fortunas foram construídas à base de expedientes que se repetem ao tédio, como variações de um mesmo tema. Enquanto isso, as velhas e boas estruturas de poder e concentração de riquezas permanecem altaneiras sobre as vítimas do bolo que cresce há muitas gerações, mas que parece não querer ser dividido jamais. Quando chove “o esperado”, é o tempo certo de agir para evitar novas mazelas e tragédias, mas não parece que esse tipo de “previdência” (o ver adiante) esteja no horizonte, tais quais as inundações e secas, que virão “além do esperado” em algum momento que podemos esperar adiante.  

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Um professor de História descobre a América


 No centro de New Andradine, um monumento da tradicional fogueira junina local e quatro radiais que convidam a ir para todos os lados do continente. Um "ponto de partida" para descobrir a América. 



                Certas percepções que desenvolvemos ao longo de tempos, às vezes são resultado mais do acúmulo de preconceitos ou desinformação que de decisões totalmente conscientes de nossa parte.
                O fato é que concluí a graduação em História no octogésimo oitavo ano do século passado e tive uma experiência bastante desagradável com as maçantes aulas de História da América, que criaram em mim uma aversão mais ou menos inconsciente pela história de nosso continente. Confesso que tenho certa admiração e solidariedade por Cuba, mas nunca tive uma percepção romantizada da situação daquele país, predominando um certo afastamento em relação à forma passional como se discute a situação cubana. Arrastei essa situação por décadas, muito embora tivesse aqui acolá alguma evidência de que essas cismas eram infundadas e que precisaria ampliar meu campo de visão em relação à América.
                Em quase vinte anos de residência em Campinas (SP), comecei a ter um deslocamento da forma de olhar para o Brasil. Umas poucas vezes que peguei as longas estradas paulistas que se dirigiam para o oeste, parecia que me defrontava com outro mundo. Trafegar nas rodovias Castello Branco, Raposo Tavares, Marechal Rondon, Washington Luiz e Anhanguera me permitiu olhar para uma paisagem física e cultural muito peculiar, marcada por uma dinâmica muito diferente do que estava acostumado. Em entrevista dada a revista brasileira no início dos anos 1980, o historiador Fernand Braudel comentara que, o passar no oeste paulista e no Mato Grosso, quarenta anos antes, tinha percebido que ali a história era algo vivo, eram cidades que surgiam do dia para a noite, pessoas que lembravam da abertura de estradas, tudo era movimento, ao contrário do interior de sua França natal, onde a história parecia passar em câmera lenta, onde tudo parecia carregar o peso de séculos.  
Por volta de 1994 fui de ônibus a Corumbá (MS), para ministrar um minicurso num Encontro Nacional de Estudantes de História. Durante a madrugada, fiquei simplesmente pasmo na longa travessia do Rio Paraná, entre Presidente Epitácio (SP) e Bataguassu (MS), que parecia não acabar, com aquela imensidão de água em meio à escuridão cerrada da noite. Em tempos futuros, muitas vezes voltei a passar por ali, e nunca consegui me livrar daquela sensação de sempre viver a singular e emocionante experiência pela primeira vez. Na sequência da viagem, passar pela Serra de Maracaju e atravessar o Rio Paraguai por via de balsa foi uma dessas experiências indescritíveis sobre as quais apenas o viver pode dar a dimensão exata. Um jantar num restaurante ao som de uma guarânia e conhecer o mundo semi-líquido do Pantanal foram dessas coisas oníricas. Minha primeira fronteira internacional foi em direção a Puerto Suarez, na Bolívia, da qual minha lembrança abarca apenas uma espécie de grande feira de trecos eletrônicos, que o colega de viagem Manolo Florentino batizou oportunamente de “Disneylândia do consumo”. 
                Em 2006 me coube a aventura de ingressar num Campus de expansão da UFMS, na cidade de Nova Andradina, situada próxima à fronteira paulista. A posse em Campo Grande e a viagem para a nova cidade foi a única experiência mais ou menos easy rider que tive até hoje. Tirando o fato de que estava portando uma nomeação para um cargo público – o que não era nenhuma aventura sem destino – fiz questão de não ver nenhuma foto da cidade na qual iria morar. O pouco que sabia é que tinha cerca de 40 mil habitantes e estava marcada no mapa. Só. Ao chegar no novo território, confesso meu total alívio ao ver uma Lan House, ufa!!! Comemorei ao ver um cruzamento de trânsito com um semáforo. Intimamente só cantarolava em espírito a velha música de Bat Masterson: “no velho oeste ele nasceu, e entre bravos se criou...”.
                No hotel de viajantes no qual vivi dois meses, conheci algumas figuras inenarráveis, como o proprietário, uma espécie de Dorival Caymmi que nunca viu o mar. Todos os finais de tarde ele se sentava em cadeiras na calçada, acompanhado de seu indefectível tereré e ficava proseando horas embaixo de duas palmeirinhas que garantiam o ar de tropicalidade necessário. No ir e vir dos viajantes, estavam alguns trabalhadores das linhas de transmissão das hidrelétricas do Rio Paraná – um deles piauiense –, que se penduravam em alturas de 60 ou mais metros, bem na beira daquele monstro de água, num tipo de trabalho que era arriscado até de pensar.
                Com o tempo fui podendo fazer comparações, percebendo algumas similaridades com o até então conhecido e as novidades e a surpresa da descoberta. Saber que uma tal de sopa paraguaia era um tipo de bolo salgado não foi das menores. Outras pessoas e coisas foram passando pelas minhas retinas e ouvidos. Alunos descendentes de todos os tipos que por ali passavam ou se radicavam, como cearenses, japoneses, gaúchos, baianos, tchecos, paranaenses, árabes, mineiros, italianos e mais uma miscelânea de gente que se cruzava ali, nas proximidades do centro da América do Sul. Na cidade teve até Prefeito paraibano. Na praça central da cidade o “paraguaizinho” reunia as pessoas de todas as procedências e lá pude comprar um providencial guarda-chuva, numa tarde muito fria e chuvosa dois dias após minha chegada. Flanar às altas horas da noite pelas ruas da cidade, sozinho ou acompanhado e conversando com os amigos Marcelino, Paulo ou Charley, era uma experiência inesquecível. Numa dessas conversas, Charley me falou sobre a dinâmica das massas de ar oceânicas e continentais para me explicar os motivos do calor tão forte e seco que fazia em certas épocas. Marcelino contava sobre as aventuras de um tio que participou da abertura de cidades no norte do Mato Grosso na década de 1970. Paulo comentava sobre suas andanças por todos os rincões de imenso sulmatogrossense.
O cotidiano ditava o ritmo da própria história. Aos domingos, o cheiro de churrasco tomava conta da cidade. Na região, o Rio Ivinhema, caudaloso e por onde passaram algumas monções no século XVIII, onde pude mergulhar numa calorenta tarde de verão. Certo final de tarde, no ônibus, em direção a Casa Verde, vi em linha reta o sol poente e a lua cheia, numa fabulosa oportunidade de realmente perceber a posição do nosso planeta no cosmo. À boca miúda algumas pessoas me contaram uma história escabrosa sobre o “remoto passado” da fundação da cidade, cerca de cinco décadas antes, e sobre o “desaparecimento” de trabalhadores de madeireiras numa tal Lagoa do Sossego, que era o lembrete sobre os terríveis processos de territorialização que, desde o século XVI, marcam a vida das diversas fronteiras até os dias que correm. Num Museu bem montado, era possível ver fotografias de imensas árvores, das quais praticamente nada tinha restado entre os pastos e plantações de soja, cana e outras atividades agropecuárias. Também eram notáveis as pequenas casas de madeira (nas quais entrei em muitas), que lentamente desaparecem do cenário urbano, eram testemunhas bastante marcantes das populações que ali foram se estabelecendo nos meados do século passado.
O silêncio eloqüente sobre os índios era marca indelével de processos conflituosos relegados à neblina de uma memória tênue dos primeiros tempos. Alguns anos depois, já em João Pessoa, ao ler a autobiografia de Darcy Ribeiro, pude ter alguma pista dos ofaié com os quais ele se defrontou nos anos 50, em um sítio nas beiras do Ivinhema. Essa pequena descoberta me sugeriu um cartão de ano novo bastante diferente para os já ex-alunos no final de 2009. Um verdadeiro “choque cultural” foi a impressão que fiquei da visita à reserva indígena de Dourados, bem no meio da cidade, com um monte de mazelas vividas pelos grupos indígenas que habitavam aquela área e sofriam todas as pressões das suas rivalidades internas e da conflituosa convivência com a sociedade não-indígena. Muitos alunos me perguntaram, na ocasião, o que eu tinha achado daquela visita. O máximo que pude responder foi com um silêncio pasmado que escondia minha inquietação e meus limites para entender o que via. Confesso, apenas, que me vinha insistentemente à cabeça a leitura que fizera anos antes, para minha pesquisa de Doutorado, da Relação da missão do padre capuchinho Martin de Nantes, e que narrava dramaticamente aspectos cruéis do conflito entre uma frente de expansão pecuarista e as populações indígenas do Rio São Francisco no já longínquo século XVII.    
                Não pude circular mais pela região como desejaria, mas fui várias vezes a Campo Grande, sempre observando a paisagem, tudo que se oferecia à apreciação do olhar. As avenidas muito largas, que indicavam uma cidade de implantação mais recente (em comparação com nossas antigas cidades coloniais) e que sugeriam um movimento de circulação de pessoas e coisas pelos antigos campos da vacaria. A presença sensível da fronteira internacional, os destacamentos militares, a espacialidade da cidade, o cerrado e o campo de visão “infinito”, tudo que convida a aguçar os nossos sentidos e o nosso intelecto e nos lembra dois versos de Zé Ramalho: "nada digo e tudo faço, viajo nas amplidões". Municípios imensos, nos quais andamos mais de cem quilômetros sem sair de suas fronteiras. Poucas vezes fui a Dourados, cercada por uma verdadeira potência agrícola e singrada por imensos caminhões de grãos e outros produtos que se dirigiam a Paranaguá. Pisei uma única vez nas cidades geminadas de Ponta Porã e Pedro Juan Caballero (Paraguai), onde entrei incrédulo num tal Shopping China (solene templo dos eletrônicos) e vi o comércio bastante ativo nas ruas de ambas as cidades. Muamba, bom, muamba, muita muamba. As ruas de ambas as cidades-países guardavam a lembrança de que ali havia uma fronteira, que não apenas deixa passar, mas também estabelece limites. De ambos os lados eram general tal, tenente tal, capitán tal e todos por ali, no nome do chão das cidades, protagonistas da guerra que sacudiu aquela região mais de um século antes.
                A experiência mais singular, no entanto, se deu num final de tarde, na rodoviária de New Andradine (nome atribuído pelo meu amigo Marcelo). Esperava um ônibus que vinha de Dourados para Campinas, quando chegou o transporte. Ao me dirigir para o veículo, o motorista informou que haveria uma parada de 15 minutos e que esperasse. Então, se desenrolou uma dessas cenas simplesmente fora de órbita: desceram do ônibus, trajados a caráter, cinco paquistaneses, com seus tapetinhos e uma bússola. Localizaram Meca e realizaram suas preces vespertinas. Uma assustada senhora me perguntou, meio sussurrando, se era o “Bin Lader”, e eu só pude dizer que eram uns primos daquela celebridade. Ao entrarmos no ônibus, eles mandaram ver no consumo de Coca-Cola e fizeram mais algumas preces ao longo do caminho. Poucas horas depois, já em Teodoro Sampaio, uma cidade praticamente nordestina no oeste de São Paulo, os companheiros de viagem abriram seus tapetinhos para orar, na calçada próxima a um prostíbulo de beira de estrada, atraindo a atenção de todos os transeuntes que por ali passavam e importunando o expediente das moças. Algum tempo depois, meu enciclopédico amigo Paulo Valadares informou que aqueles paquistaneses eram açougueiros contratados pelo governo da Arábia Saudita para fiscalizar os abatedouros de gado no Mato Grosso do Sul. Nossa espécie é mesmo muito surpreendente.
                Se nosso tempo é linear, ele também comporta circularidades surpreendentes. Depois de duas décadas, voltei a morar em João Pessoa, no extremo oriental do continente. Recriar novas raízes, refazer minha identidade pessoense e paraibana parecia um novo desafio. Além do mais, para meu inicial desgosto, o Departamento de História havia me atribuído a disciplina de História da América II, justamente América, uma daquelas sobre a qual dissera, em alguma mesa de bar em algum lugar do mundo, o disparate de que “nunca daria aula, nem amarrado”. Além de queimar a língua tive de me virar e queimar a cachola para montar um programa de América colonial.
                Um ponto de partida foi pensar: por que, além de não gostar das aulas de minha antiga professora, eu tinha essa resistência em relação à América? Havia algo mais? E como eu poderia transformar a disciplina em algo interessante para os alunos se o desinteresse inicial era meu?
                Ante essa inquietação, num determinado dia, percebi que uma propaganda turística da cidade dava uma pista para pensar na questão: sermos o ponto extremo oriental do continente não era algo gratuito. Percebi que olhávamos para o continente a partir de uma perspectiva, digamos, atlântica. O restante do continente (onde habitamos um dos extremos) era uma experiência pouco palpável. Não apenas a nossa massa de ar é oceânica, mas também nossa massa mental acompanha a circulação atmosférica e parece que estamos – ou pensamos estar – bem afastados da massa continental.

A ponta dos Seixas, no extremo do continente, nos induz o olhar para o leste, para o Atlântico. Às nossas costas, está a América. Aqui poderia ser outro "ponto de partida".


                Do patrimônio de minha experiência existencial, descobri que um professor de História também pode fazer sua descoberta pessoal da América. Aquele pedaço de continente onde vivi, aquelas estradas nas quais atravessei centenas de quilômetros de carro ou ônibus, aquelas pessoas ao mesmo tempo muito parecidas e profundamente diferentes, tudo aquilo era a América que descobri sem perceber e sobre a qual só tomei consciência quando a experiência do deslocamento e a inquietação do desafio de professor me levaram a juntar os pedaços. Estamos numa ponta do continente e temos pouca percepção dos profundos vínculos que acabam nos ligando a outras terras e outras gentes. Por essas e outras, penso que esse pode ser um ponto de partida através do qual podemos estabelecer o nosso porto de Palos para descobrir a nossa América.      

Com os alunos de New Andradine, em sala de aula, sem desconfiar que estava "descobrindo" a América. 


* Para os meus alunos e bons amigos, que me levaram e possibilitaram a descobrir a nossa América. Para Ivan Leardini, o Honorável Dan, que hoje apaga mais uma velinha.            
   

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Neandertais conheciam propriedades medicinais das plantas

Um grupo internacional de pesquisadores demonstrou que os neandertais que viviam no sítio arqueológico de El Sídron, na Espanha, conheciam as propriedades medicinais e nutricionais de algumas plantas, como a camomila, e incluíam vegetais em sua dieta.


A pesquisa, que contou com a participação de especialistas do Conselho Superior de Pesquisas Científicas (CSIC) da Espanha, da Universidade Autônoma de Barcelona (UAB) e da Universidade de York (Reino Unido), chegou a estas conclusões a partir da análise do tártaro presente nos dentes de cinco indivíduos adultos e de um jovem da espécie.
Até pouco tempo atrás, pensava-se que os neandertais, que foram extintos há cerca de 30 mil e 24 mil anos, eram predominantemente carnívoros.
No entanto, cada vez mais estudos, como este publicado na revista alemã "Naturwissenschaften", mostram que a espécie também se alimentava de vegetais, sobretudo em latitudes mais ao sul, disse à Agência Efe Antonio Rosas, diretor do grupo de paleoantropologia do Museu Nacional de Ciências Naturais e um dos autores do trabalho.
"Está se observando que sobretudo em latitudes mais ao sul da Europa, como em El Sidrón, os neardentais tinham um componente vegetal nada desdenhável em sua dieta", explicou.
"A carne era claramente primordial, mas nossa pesquisa evidencia uma alimentação bastante mais complexa do que sabíamos até agora", explicou Karen.
A presença de componentes vegetais na dieta da espécie não é a única descoberta do trabalho. Segundo Rosas, foram encontradas evidências de fumaça no tártaro, provenientes, ao que tudo indica, de alimentos feitos à lenha.
O sítio arqueológico de El Sidrón, descoberto em 1994, possui a maior coleção de neandertais da Península Ibérica.

terça-feira, 1 de maio de 2012

Por que Dia do Trabalhador e não Dia do Trabalho?















Dia do trabalhador ou do trabalho? A batalha sobre os diferentes significados da data


Frequentemente, os professores de História se defrontam com a necessidade de discutirem com seus alunos sobre os significados de determinadas datas selecionadas no calendário como comemorativas de determinado acontecimento, celebrizado pela memória popular ou pelas autoridades. Uma questão nada fácil é estabelecer um tipo de discussão sobre esses significados, que ultrapasse a mera louvação dos heróis da tradição ou que se esgote numa linguagem estéril e panfletária. Ambas acabam por adotar a mesma postura rasa e linear, que apenas inverte alguns sinais de quem são os mocinhos ou os bandidos, mas que não aprofunda e problematiza as questões que devem estar associadas a um ensino de História efetivamente crítico. A discussão dos significados de certas datas possibilita a problematização de questões que dizem respeito não apenas aos fatos rememorados em si, mas, principalmente, qual a relação que estabelecemos presentemente com essas questões, a partir dos desafios de nosso próprio tempo. No que diz respeito a uma dessas datas, há certa dúvida sobre sua denominação: afinal, 1° de Maio deve ser chamado de Dia do Trabalho ou Dia do Trabalhador? Esse questionamento é um bom ponto de partida para um professor de História discutir com seus alunos. A data de 1° de Maio está associada às lutas operárias do século XIX, que tiveram entre uma de suas grandes causas a jornada de 8 horas diárias de trabalho. Um dos grandes problemas que afligia os operários fabris era o das excessivas jornadas de trabalho sem qualquer proteção aos trabalhadores. Muitas fábricas contratavam mulheres e crianças para atividades estafantes, nas quais os acidentes de trabalho eram constantes e as mortes aconteciam com freqüência. Submetidos a brutais condições de trabalho, péssima moradia e alimentação, os trabalhadores buscavam se organizar para reivindicar direitos. As campanhas pela jornada de trabalho de 8 horas (8 horas de trabalho, 8 horas de descanso e 8 horas de lazer) se alastraram por vários países e provocaram importantes mobilizações de trabalhadores, apesar da intensa repressão que patrões e autoridades promoviam.










A luta pela jornada das oito horas gerou amplas mobilizações em diversos países em todo o mundo






No dia 1° de Maio de 1886, trabalhadores da cidade de Chicago (EUA) promoviam uma manifestação em favor da jornada de 8 horas, quando sofreram ataque da polícia, com saldo de vários mortos e feridos. Nos dias seguintes os protestos se repetiram, culminando com o massacre de Haymarket Square, no qual os trabalhadores foram acusados de atacar a polícia e sofreram brutal repressão e posterior perseguição.
















Massacre em Chicago, que se tornou referência para as lutas de trabalhadores em vários países

A data de 1° de Maio passou a ser adotada pelos movimentos operários como momento de luta contra a exploração do trabalho e o reconhecimento de direitos. Em vários países, a comemoração dessa data marcava um importante momento das lutas dos trabalhadores e de manifestação de suas reivindicações. Ao longo do século XX e início do XXI, no Brasil e em diversos países tivemos momentos de intensas lutas de trabalhadores pela busca de seus direitos, como a busca da proibição da exploração do trabalho infantil, a garantia da seguridade social, a melhoria salarial, entre diversas outras campanhas que mobilizaram gerações de trabalhadores nas cidades e no campo. As greves do ABC paulista, nos finais dos anos 1970, aparecem como um desses importantes momentos de luta, no qual os operários fabris desafiaram seus patrões e a repressão de uma ditadura militar que proibia essas manifestações. Elas marcaram lugar no conjunto das lutas sociais do Brasil nas últimas décadas.
















As greves do final dos anos 1970 no ABC paulista foram momentos significativos de luta dos trabalhadores, que desafiaram os patrões e a ditadura militar

Com o passar dos anos, em vez de simplesmente reprimir as manifestações dos trabalhadores – muito embora a repressão ainda seja prática comum –, as autoridades passaram a buscar o controle da data, tentando “domesticar” essas lutas numa homenagem ao trabalho e não aos trabalhadores. Daí decorre essa disputa em torno dos significados da data: para os movimentos de trabalhadores a data corresponde à manifestação de suas lutas, para as autoridades há a tentativa de restringir a data a uma condição oficial de celebração do trabalho. Em sociedades como a nossa, na qual a superexploração do trabalho é um traço constante, a disputa em torno desses significados do 1° de Maio ganha em atualidade. Certamente o trabalho, como atividade criadora humana, é uma dimensão importante da vida, mas o trabalhador preexiste ao trabalho, ele é que garante esse esforço de criação e recriação da vida e os resultados de seu esforço devem lhe retornar como usufruto dos bens que ele mesmo constrói.



















O avanço das novas tecnologias, apesar das promessas de libertação do trabalho estafante, trouxe novas modalidades de superexploração, que afetam trabalhadores das áreas mais avançadas da economia.



sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Engenho: escravidão e religião





O filme sugere ricas discussões acerca da escravidão e das relações de poder.










Escrevo esse breve texto logo após assistir ao clássico filme cubano A Última Ceia (La Ultima Cena, direção de Tomás Gutiérrez Alea , 1976). Já fazia bastante tempo que ouvira falar dele, mas assisti-lo parecia sempre um objetivo inalcançável, dadas as diversas tentativas frustradas em obtê-lo.
A ação do filme se passa em um engenho de açúcar nas cercanias de Havana, em finais do século XVIII, durante a Semana Santa. Nesse momento, o Conde, proprietário do engenho, se vê dividido entre as demandas da produção, representadas pelo maestro Don Manuel (o administrador) e as cobranças do Padre, preocupado com as práticas cristãs e a obediência ao calendário litúrgico.
Tomado por profundas angústias e dúvidas, o Conde resolve realizar uma representação da Santa Ceia, determinando a escolha de 12 escravos para desempenharem o papel dos apóstolos, assumindo ele o papel de Jesus Cristo. Pretendia o Conde instilar, através do exemplo, as virtudes da obediência, da resignação e da submissão ao poder do Senhor e do seu senhor. Ao longo de algumas horas de banquete, os diálogos apresentam de forma bastante sutil e não-maniqueísta as diversas idiossincrasias das relações entre senhores e escravos e dos escravos entre si, com suas distintas tradições africanas, rivalidades e táticas de resistência frente ao sistema escravista.
Acompanhar atentamente os diálogos entre o Cristo-conde e seus apóstolos-escravos é uma rica experiência de perceber as dissonâncias e os ruídos na comunicação entre pessoas separadas pelo abismo da opressão. Os pequenos deslocamentos dos sentidos das palavras deixam entrever um quase diálogo de surdos, no qual cada um diz algo que os demais compreendem como querem compreender. Cada risada, cada choro tem múltiplos significados perpassados por uma tensão inerente à condição dos personagens.











O Conde-cristo e seus escravos-apóstolos. Diálogo truncado pelas condições concretas da escravidão.


Um ponto fundamental é a compreensão de alguns princípios religiosos como bondade, paraíso, salvação, igualdade, entre diversos outros, que são diferentemente apropriados por escravos e senhores e entre escravos em diferentes situações concretas de vivência do cativeiro. O filme nos leva a pensar no brilhante e mais recente livro Coroas de Glória, Lágrimas de Sangue (1998), de Emília Viotti da Costa, que analisou com grande percuciência uma rebelião de escravos acontecida em Demerara (Guiana Inglesa) no ano de 1823, investigando em especial a relação entre a mensagem religiosa e a escravidão e como as diferentes formas de entendimento da mensagem bíblica entre os escravos poderiam incentivar desde comportamentos compassivos até os mais explosivos.
O filme contou com a assessoria do historiador Manuel Moreno Fraginals, autor do clássico O Engenho (1974), obra na qual o autor analisou em detalhes todo o sistema produtivo açucareiro cubano. Podemos observar, alguns aspectos da produção açucareira e da sociedade que se constituiu em torno do grande complexo produtivo do engenho.
A menção a essas obras acima, nos lembra da importância de percebermos como uma boa investigação não pode desprezar as mais diversas dimensões do fazer histórico, que engloba questões mais amplas da economia política e da cultura, sem incorrer nas práticas reducionistas tão comuns nos dias que correm, através das quais apenas se trocam os sinais dos dogmatismos políticos ou economicistas pelos culturalistas, sem perceber que a história que os humanos fazem em sua vida concreta não separa essas coisas.
A Última Ceia é um filme que suscita muitas outras questões além das que apontamos muito brevemente aqui e que merece ser assistido e debatido nas aulas de História ou em outras ocasiões mais informais, nas quais se queira discutir algo um pouco mais interessante do que as últimas fofocas do Big Brother.