sábado, 29 de agosto de 2015

Da visibilidade à transformação social


* Publicado originalmente na Coluna de Opinião do Núcleo de Cidadania e Direitos Humanos da UFPB, em 24/11/2014. Lamentavelmente, parece que o quadro então apontado se confirma.

               Talvez a melhor função de um trabalhador intelectual que se pensa solidário a algum movimento social – e a palavra social aqui não está colocada gratuita nem casualmente – seja a de estabelecer algum apoio crítico (e não incondicional), que aponte eventuais problemas e sugira alguns elementos para a reflexão, que é uma condição necessária para uma ação efetivamente transformadora dessa mesma sociedade. Poderá se questionar com alguma boa dose de razão: por que alguém que não sofre exatamente na pele esses problemas, tem direito de dar algum “pitaco” sobre aquilo que não é da sua conta? Exatamente por não sofrê-los diretamente na pele, talvez isso possibilite obter uma sensibilidade/percepção particular para essas questões e apontar dimensões não percebidas numa outra condição, mais ou menos como: quem está de fora, vê diferente. Enfim, todo o apoio crítico merece ser igualmente criticado e o próprio exercício da contradição pode nos permitir afiar os argumentos intelectuais, aporte mais que necessário ao bom encaminhamento das boas lutas.
                Parto de uma constatação que pode/deve ser errônea – e que inviabilizará todo o restante –, mas que pode ter algum grau de plausibilidade e contribua para entreabrir toda uma zona de reflexão/ação. Indo direto ao ponto, penso que as políticas de ações afirmativas, principalmente de bem sucedidos movimentos negros e homossexuais (abarcando uma grande diversidade de condições), realizadas num crescendo desde a década de 1990, têm efetivamente atingido um de seus objetivos mais caros, que é a questão da visibilidade de uma série de discriminações/repressões que estariam invisíveis na nossa sociedade, ou seja, o racismo e a homofobia seriam componentes estruturais e ocultos de nossa teia social e seria necessário trazer esses discursos e práticas à luz do dia para ser possível combatê-los efetivamente (não deixando de esquecer que essa paleta de horrores reúne ainda outras tintas tão fortes quanto o machismo e outras práticas que chamaremos de “nefandas” (que não devem ser ditas), bem ao gosto do linguajar do Santo Ofício da Inquisição). Não resta dúvida que o noticiário nos vomita dia a dia uma série generalizada de situações que deixam às claras os paroxismos de racismo e homofobia que sacodem nossa sociedade; se se desejava tornar visíveis esses problemas, parece que o objetivo foi em larga medida atingido e essas perversões ocultas vieram se explicitar na cena pública.
              Essencialmente, atacaram-se as bases de nossas ideologias integrativas/agregadoras, que pretendiam interpretar nossa ordem social como dotada de uma grande plasticidade para absorver suas próprias contradições e resolvê-las de modo singular num grande oceano de malemolência e afetividade (e doses maciças de sadomasoquismo Brasil varonil afora). Talvez, sua expressão mais bem acabada e intelectualmente eficaz esteja num autor muito condenado e, lamentavelmente, pouco lido (e combatido equivocadamente de maneira simplista e insuficiente), Gilberto Freyre. Freyre tem como diapasão fundamental não uma pueril ideologia da democracia racial – que pode ser derrubada com um piparote fraseológico ou com um arroubo de slogan – mas uma sofisticadíssima percepção daquilo que denomina equilíbrio de antagonismos, que seria uma engenhosa capacidade social/cultural brasileira de sublimar os intensos antagonismos que sacodem nossa sociedade, de criar uma zona de confraternização, indistinção, penumbra e quase total invisibilidade que elide esses antagonismos para uma dimensão oculta, que permite que os mesmos se resolvam sem desagregar o tecido dessa singular sociabilidade. O seu corolário quase necessário seria que, dada essa possibilidade de equilibrar esses antagonismos nas “alcovas sociais”, cada um “saberia o seu lugar”, por introjeção de regras implícitas, e seria possível manter um discreto status quo, sem ser necessário tornar muito explícitas e formalizadas as regras de dominação/discriminação/repressão. Tudo se resolveria numa democracia racial, onde a violência seria apanágio de indivíduos torpes, não de toda uma sociedade encoberta pelo manto da afetividade que nos garantia que o brasileiro era bonzinho e a empregada era “quase da família”. Seria assim como se resolvêssemos na “casa” aquilo que não deveria ir à “rua”. No bipolo homem/branco/heterossexual, estaria a mulher/negra/homossexual e cada qual saberia de antemão qual o seu papel. Mostrar que existia realmente racismo e homofobia, por baixo dessa capa de docilidade, seria uma missão essencial para enfrentar e superar esse “atavismo nacional”.
                Se os movimentos de ações afirmativas permitem elevar indivíduos de segmentos sociais anteriormente excluídos à proa da sociedade (mesmo que ainda amplamente minoritários), têm como subproduto trazer à tona aquilo que denunciam: o caráter racista e homofóbico dessa sociedade, antes introjetado e agora explicitado. Nada a estranhar, então, com as explícitas e horrendas manifestações daqueles que subjetivaramo ethos do mando e, agora, se sentem desafiados e desautorizados em casa e na rua pela intensa visibilidade do que estava encoberto e vem se mostrar à luz do sol. Nada a estranhar – e tudo a repudiar – com o comportamento de gente que faz questão de estacionar seu carro possante em duas vagas como desafio explícito ao espaço público. Outro intelectual de porte, Sérgio Buarque de Holanda, já tinha nos alertado sobre esse desapreço estrutural ao espaço público, o que podemos traduzir nos dias que correm, pelo desrespeito dos direitos do outro. Casos escabrosos se repetem e chegam às manchetes ou redes sociais, envolvendo desde o incômodo raivoso de sinhôs e sinhás com empregadas e pedreiros – não raro, afrodescendentes – viajando de avião, ou ainda de bons pais, mães e filhos de família revoltados com homoafetividades explicitadas, até o mais recente e absurdo caso da sinhá fortalezense que atacou verbalmente e por escrito dois trabalhadores que rebocaram seu carro estacionado irregularmente, dizendo a um deles que, graças à maldita Princesa Isabel (seria uma sublimada Isabel Rousseff?), ele não estava no tronco, que era o lugar que o mesmo merecia, não sem antes proferir toda a espécie de sortilégios de pragas e maldições que fizeram o inquisitorial século XVII falar pela sua boca.
              Não houvesse isso, essa verdadeira explosão de nossos esgotos sociais/culturais, Freyre estaria redondamente certo. A luta pela afirmação não será ganha numa parada cívica na qual os desafetos de ontem baterão palmas para os novos heróis; desafiados e inseguros, os que se sentiam até ontem donos da casa (e da rua), partirão para tentar afirmar seus lugares, defender seus privilégios, provavelmente se tornarão mais raivosos e agressivos, mas isso os movimentos não devem temer ou estranhar. Devem enfrentar sem partirem para a “guetização”; devem falar para toda a sociedade, em vez de se encastelarem em pequenos grupos de solidariedade; devem estabelecer laços maiores de solidariedade e articulação, enfrentando efetivamente a sociedade de sinhôs e sinhás que gerou no mesmo ventre racismo, homofobia e todo o cortejo de horrores que não começam nem acabam aí. Se quiserem se tornar sinhôs e sinhás negros e/ou homossexuais numa “nova ordem”, a casa grande e o patriarcalismo terão saído vencedores, apenas incorporando mais alguns personagens privilegiados, que olharão sobranceiramente das varandas para aqueles que labutam duramente ao sol.
               Ou seja, se o negócio era dar visibilidade ao que era antes invisível, agora a luta muda de patamar: é necessário encontrar uma forma efetiva (e social) de combater essas verdadeiras patogenias sociais, bem além da mera afirmação (necessária, mas não suficiente) de indivíduos afrodescendentes e homossexuais a lugares de proa de nossa sociedade. Trata-se de mudar as regras do jogo e não apenas de encontrar um nicho no jogo alheio. Bem além de travar ruidosas batalhas lingüísticas (dos que vêem ingenuamente as linguagens como constituintes e não como constitutivas das relações sociais), é necessária a coragem de mudar lugares sociais, ou mais, de mudar efetivamente a sociedade, e, aqui, sociedade não é mais um jogo de linguagem, é aquilo que paga as contas dos soldados da linguagem e que tem uma concretude bem real e, muitas vezes, dolorosa.
               Numa das críticas mais pertinentes que já vi a Gilberto Freyre, Luís Felipe de Alencastro (A Pré-Revolução de 30. IN: Novos Estudos CEBRAP, nº 18, Set, 1987, p. 17-21) apontou cirurgicamente que o gênio de Apipucos só pôde criar sua engenhosa e sofisticada formulação elidindo do engenho/berço da nação os fluxos de comércio internacional, que tinham o tráfico de escravos numa ponta e a demanda de produtos agrícolas na outra. Ou seja, em bom e velho idioma sonante: só escondendo sorrateiramente as relações capitalistas, pôde Freyre mergulhar tudo num saboroso “caldeirão de cultura”. O historiador ainda apontou argutamente, ao final do referido artigo, que o livro ainda teria belos dias diante de si, como obra seminal da ideologia patriarcal. Todo o cuidado é pouco para que o patriarcalismo apenas não amplie sua plasticidade, em vez de ser efetivamente liquidado, como herança quase perene do nosso belo e saudoso passado.
               Parece que, agora, mais que a visibilidade, é necessário apostar na transformação social efetiva, no custoso enfrentamento e desmonte de todo esse pesado ethos patriarcal que domina séculos de nossa sociedade e que resistirá tenazmente a qualquer mudança, ou cooptará os mais talentosos para o seu regaço (que terão sido como aqueles arrivistas que dizem ser contra o capitalismo – ou algo mais diáfano como “o sistema” – apenas por que não são burgueses, aderindo rapidamente tão logo encontrem alguma prebenda dando sopa). É necessária uma segunda onda de visibilidade, a visibilidade da necessidade de transformação social, pois a manutenção das redes de poder (às vezes obliteradas em engenhosos jogos de linguagens), que chamamos capitalismo e sociedades de classes, é que garantem a perpetuação de espécies diferentes de dominação/sujeição/discriminação/exploração, que aparecem modernamente em outras práticas igualmente nefandas como a agressão física e moral a mulheres, o horror patológico a pobres, a superexploração dos trabalhadores, a periculosa agressão/destruição socioambiental, enfim, essa dantesca paleta de cores fortes que tornam hediondos os cenários de nossas vidas coletivas. E não basta mudar/acrescentar os personagens da trama, é preciso destruir mesmo essa trama e contar uma outra história. Não criar um mundo de novos senhores, mas um mundo sem senhores.

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

José Dias, o alterego da classe média brasileira?












Com o tempo, adquiriu certa autoridade na família, certa audiência, ao menos: não abusava, e sabia opinar obedecendo. Ao cabo, era amigo, não direi ótimo, mas nem tudo é ótimo neste mundo. E não lhe suponhas alma subalterna; as cortesias que fizesse vinham antes do cálculo que da índole. Machado de Assis. Dom Casmurro.


O dramaturgo Plínio Marcos, em uma de suas geniais tiradas, chamou a classe média de "classe mérdea", por enxergar nos seus "valores" uma indisfarçável e profunda hipocrisia, marcada pelo mais absoluto servilismo frente aos poderosos e a total impiedade em relação aos pobres. Tudo isso mergulhado num seboso caldo cultural de preconceitos teimosamente enraizados, onde vicejam racismo em formas disfarçadas ou explícitas, aversão aos pobres, machismo, homofobia e toda essas ditosas práticas de teor semifascista.

Tal comportamento serviu de alimento para o apoio entusiasmado de segmentos expressivos de nossas classes médias à histeria anticomunista ao estilo UDN, às infames marchas da família, ao apoio fervoroso ao golpe militar de 1964, entre outras tristes passagens de nossa história. Nos dias bicudos que correm, essa atitude se reflete no ódio insano contra melhorias na condição de vida de pobres, adesão aos discursos inflamados da bancada da bala, entre outras elevadas propostas que honram a nossa humana espécie.

Como explicar esse comportamento?

Bom, haveria uma vintena de hipóteses que abordassem a questão pelos mais diversos ângulos. Muitas de grande valor. Arriscamos, aqui, uma delas.

Bem no ocaso do século XIX, aquele que se marcou pelo auge e pela extinção legal da escravidão, Machado de Assis criou um personagem quase arquetípico, que poderia ser definido como um alterego de nossa classe média.

José Dias era um agregado da casa de Dona Glória, senhora viúva de certas posses e de família bem situada na boa sociedade. A virtuosa matrona mantinha alguns criados e escravos de ganho e vivia com conforto e distinção numa bela e bem situada residência. José Dias havia servido fielmente o finado marido de Dona Glória e se mantinha na casa como uma espécie de ministro factotum, bajulando calculadamente seus superiores e mantendo toda a criadagem sob firme comando.

Dias pode ser considerado uma espécie de avô transcendente dessa classe média, espremida entre a escravidão e o senhorio. Muita servilidade para com os maiores. Muita ferocidade para com os subalternos. No horizonte, a expectativa de amealhar alguns tostões e poder - por sua vez - viver a divina ventura de ter seus próprios escravos e poder ser chamado de senhor. Como diria o velho padre-economista-tecnocrata Antonil, com sua frieza tucana lá pelos distantes confins do século XVIII, que ser senhor era título por muitos aspirado, porque trazia consigo ser servido, obedecido e respeitado.

Pois bem, foi-se a escravidão legal, mas seus vestígios arqueológicos prosseguiram vicejando com força nos nossos alegres trópicos. Homens e mulheres negros e de toda uma paleta de cores mestiças continuaram submetidos a uma condição de infra-cidadania, sem acesso à educação, à moradia própria, ao trabalho condigno, a toda uma série de direitos básicos numa república que tenha qualquer coisa de pública. Não é casual que a Constituição de 1988 se auto-intitule "Constituição-cidadã", quando essa condição já deveria existir plenamente um século antes, com o final legal da escravidão. Não é à toa que os planos escolares ainda falem de construção da cidadania, numa clara admissão de que a mesma ainda é uma quimera para muitos brasileiros.

Para as classes médias situadas nessas fímbrias, restou o josediismo, que consiste em fazer todo o tipo de salamaleques para os ricos e vociferar contra os pobres. Sempre na esperança de um dia alcançarem o senhoriato. Não poucos egressos da pobreza, tal como dizia o sagaz senhor de engenho Brandônio, lá na Paraíba pelas profundezas do século XVII, despiram a pele velha de cobras-pobres e se engalanaram com as mais finas sedas e brocados. Esquecidos de suas humildes origens, assumiram a soberba mais absoluta. Bem no apagar das "luzes" do século XVIII, o professor de grego luso-baiano Luís Vilhena, deles falava que se empavesavam como a mais aparatosa fidalguia e tratavam os filhos como nobres, cujo Imperador da China seria indigno de ser seu servo.

Os José Dias de nossos dias seguem fascinados pelo brilho sonante do capital, leem avidamente revistas que mostram a ostentação dos muito ricos ou bregas. Em compensação, quando sobem a escada social, tratam as empregadas e serviçais como ninguém, meras máquinas de trabalhar. Criam seus pequerruchos como condinhos, marquesinhos ou barõezinhos, cercados de afagos e mimos, mas não cogitam de mandar os pimpolhos aprenderem a valorizar o trabalho manual dos que os alimentam e prestam todos os serviços para seus confortos.

Alguns, alçando-se aos píncaros universitários, ao chegar aos dourados portões da academia, esquecem que um dia foram aprendizes e se tornam verdadeiros feitores de almas. Não poucos, para dourar ainda mais seus brasões, apresentam, aos pés de seus nomes nos endereços eletrônicos, uma enxurrada de títulos e honrarias que fazem lembrar aqueles grandiloquentes e cafonas ao estilo "grão-cã dos tártaros", "mil vezes grande de Espanha", "martelo dos hereges", "herói dos campos elísios", "exterminador dos infiéis", "campeão dos fariseus" e tudo o que mais a mente humana puder elucubrar. Um e-mail que recebi com o pomposo título de "Prof. Dr. Titular fulano de tal" já diz tudo. Sobre esses tipos, cabe o que o historiador francês Jacques Le Goff falou sobre alguns intelectuais pretensamente revolucionários do medievo, cujo "sonho deles é um mecenas generoso, uma gorda prebenda, vida folgada e feliz. Querem antes, parece, tornar-se os novos beneficiários de uma ordem social do que mudá-la". Lá se vão quarentões ou cinquentões gabolas, pressurosamente copiados por seus cãezinhos amestrados de vinte e poucos...

Qualquer perspectiva de virada da situação, significa ameaça ao josediismo, que passa a aderir ao que houver de mais repressivo contra os subalternos.

- Como, eu que pastei como escravo aos pés do meu senhor, poderei deixar de ter os "meus" próprios escravos no dia em que juntar meus trocados? Isso é subversão, é comunismo, é ameaça aos sagrados valores da família, da tradição, da propriedade, do altar e da pátria, é um escândalo!!!

Nada para causar surpresa, quando um bolsista agraciado com uma temporada de estudos no exterior, se volta ferozmente contra o governo que criou condições para que essa bolsa fosse concedida.

- Como dar essa chance a outros? Se muitos mais tiverem essas bolsas, não terei meu diferencial, meu valor agregado, e não poderei ser um grão-senhor a ser servido, obedecido e respeitado...

Nada a estranhar na mesquinharia aeroportuária de nossos bem-nascidos.

- Como aceitar que uma empregada ou um pedreiro ande de avião? Onde estão as hierarquias? No tempo de vovó Donalda essa gente era tratada a base de chibata e sabia muito bem qual era o seu lugar...

Nada a estranhar quando profissionais de determinadas carreiras queiram se considerar verdadeiras nobrezas togadas.

- Como aceitar que esses cargos herdados de pai para filho desde o saudoso Tomé de Sousa caia nas mãos de rebentos dessa patuleia nojenta? Onde já se viu? Para os amigos as benesses governamentais, para os inimigos os rigores da lei...

Nada a estranhar quando os terratenentes do agrobusiness se neguem terminantemente a aprovar e por em vigência a Emenda Constitucional do Trabalho Escravo, no Anno Domini de 2014 da Graça de N.S.J.C.

- Como essa rafameia quer salários dignos e direitos trabalhistas? Onde já se viu não poder mais nem empunhar meu querido chicote em paz?... ah, nos ditosos tempos de vôinho e vóinha...

Nada a estranhar, quando aparecem nas redes antissociais, as mais diversas expressões de fascismo cultural, com seu cortejo de ódio e discriminações.

- Como essa ralé quer ser gente? No máximo lhes cabe é receber algum pouco trocado para não entupir a cara e os cornos de cachaça, bando de preguiçosos, vadios, fedorentos, gente feia. O bom mesmo é gente rica e bonita...

Nada a estranhar. Eles não falam o que pensam pensar. José Dias fala pelas suas bocas e pensa pelas suas cabeças.                    

quarta-feira, 16 de julho de 2014

Ditadura é isso aí!



 
Informação oficial notificando as autoridades sobre o perigo escondido em "inocentes" Dicionários e Palavras Cruzadas. A subversão internacional atuando solerte onde menos se esperava. 
 

    Está lá no papel amarelado da Informação 230/74 da Assessoria Especial de Segurança e Informações da Universidade Federal da Paraíba, emitida no dia 12 de Dezembro do ano 1974 da Era cristã. Oriunda dos insondáveis “escalões superiores”, se informava aos Diretores dos Centros que circulavam entre professores e alunos publicações de alta periculosidade: os verbetes subversivos do Dicionário de Ouro da Língua Portuguesa, de Éverton Florenzano e uma Palavra Cruzada Coquetel Jumbo, com cruzadinhas apologéticas a políticos cassados.
Não, incrédulo leitor, isso não é uma brincadeira digna das Diatomáceas da Lagoa, é um documento oficial da República Federativa do Brasil, que através de um de seus órgãos, constatou por intermédio de um araponga zeloso de suas funções arapongais, que o referido Dicionário trazia os verbetes capitalismo e comunismo com fortes tendências esquerdizantes. Para corroborar suas ações em defesa da segurança nacional no combate da “democracia e cristandade contra o comunismo ateu”, o operoso e modelar funcionário público dedicou-se a comparar os verbetes capitalismo e comunismo com os constantes no famoso Dicionário Aurélio, constatando que o circunspecto dicionarista tratava tais verbetes com a devida neutralidade, o que provava as intenções subversivas do seu colega.
Para mostrar como se tornava ainda mais alarmante o perigo de tal doutrinação sobre os jovens e impressionáveis cérebros de escolares e universitários, observava o espião patriota que o divertimento de palavras cruzadas instilava de forma hedionda e subliminar o veneno subversivo sobre suas pobres vítimas, fazendo referências positivas a políticos nacionais e estrangeiros comprometidos com a propaganda dos comunas, certamente teleguiados a partir dos porões moscovitas, centro nervoso do comunismo internacional.

Segundo o zeloso araponga, o "inocente" divertimento instalava o veneno comunista nas mentes incautas. Autoridades de segurança da Mickeymouselândia já determinaram a proibição de venda de cruzadinhas em aeroportos e seu uso em aviões, pois pode ter algum plano de extremistas absconso nas entrelinhas e estimular os passageiros a cometerem maluquices aéreas.
  
Certamente, uma ditadura faz grandes coisas, constrói grandes obras, promove grandes negociatas sob o sigilo cerrado das autoridades, realiza grandes atos repressivos com constrangimentos, perseguições, torturas ou eliminações físicas de seus opositores. Mas as ditaduras também são campo fértil para a imbecilidade nossa de cada dia. No cotidiano ditatorial se misturam grandes e pequenos feitos, cruéis e bárbaras ações de violência e pequenas vinditas levadas a cabo por pequenos asseclas do regime.
Essa gente dá o tipo de suporte que parece conferir uma base “popular” ao regime. É composta de pequenas peças da grande engrenagem – tais como o nosso honorável e letrado araponga que espionou o Dicionário e as Palavras Cruzadas – que articulam as coisas grandes e as miúdas, tal como tivemos oportunidade de falar em outra ocasião nessas mesmas Terras.
Uma vez enviada essa assombrosa Informação aos administradores universitários, notificava-se – para o alívio da mãe gentil e gáudio da democracia ocidental –, que os diretores da editora de ambas as publicações haviam se comprometido a corrigir os problemas nas futuras edições, em nome da segurança pátria, não deixando de desqualificar o dicionarista nos seguintes termos: “o autor, um ex-oficial da FEB, não parecia pessoa capaz de emitir suas opiniões num dicionário”!!!.

O Dicionarista-subversivo teria utilizado a publicação para difundir opiniões esquerdistas. Material de doutrinação subliminar comuna circulando entre os estudantes ingênuos, que foram protegidos pelos altos e baixos escalões da segurança nacional. "O preço da liberdade é a eterna vigilância".  

















             Consideradas essas titânicas revelações, solicitavam os escalões médios dos setores de segurança e informações aos Diretores de Centro da colenda Universidade Federal da Paraíba que evitassem a adoção de tais publicações, acrescentando prudentemente que as mesmas autoridades acadêmicas agissem de forma discreta, para evitar atenção da comunidade, especialmente dos alunos. Tudo isso registrado com os devidos carimbos que deveriam garantir o eterno sigilo dessa história singular.
A aparatosa ditadura militar parece ter sido tragada pela noite dos tempos – pelo menos o seu aspecto castrense, incômodo, espalhafatoso e oneroso, parece ter sido tirado do caminho – mas a grande ditadura econômica continua vicejando lépida e fagueira por essas plagas. Essa mesma se solda com a pequena ditadura do cotidiano, expressa nas micro-violências dos que possuem alguma fatia de metal ou poder e conseguem descarregar seu autoritarismo e intolerância sobre os que os cercam e não possuem tais requisitos.
Quanto às Palavras Cruzadas ou Dicionários não há mais necessidade de fiscalizar se são ou não subversivos, afinal, ler e escrever não são bem passatempos prestigiados nos tempos felizes que correm. Hoje, esse araponga das cruzadinhas é passível de riso, mas a coisa não foi bem assim em datas pregressas...

Dedicado a Mirza Pellicciotta, que dividiu comigo a melhor parte dessas reflexões e preservou cuidadosamente esses documentos.                         

terça-feira, 8 de julho de 2014

As chuteiras douradas e a seleção amarela

                                                                                                         Ângelo Emílio da Silva Pessoa


As collonias... são estabelecidas em utilidade da metrópole. Por máxima fundada nesta utilidade os habitantes das Collonias devem ocupar-se em cultivar, e adquirir as producções naturaes, ou matérias primeiras, para que sendo exportadas à Metrópole, esta não só della se sirva, mas aperfeiçoaduas possa também tirar das collonias o preço da mão d’obra e possa commerciar no superfluo com as Nações estrangeiras. AUTOR DESCONHECIDO. Roteiro do Maranhão a Goiás pela Capitania do Piauí. (final do século XVIII).


A título de exemplo, diz-se que o Clube de Regatas Flamengo possui cerca de 25 milhões de torcedores. O time com maior torcida no país, nesse sentido, possuiria em torno metade da população espanhola, inserido numa economia que é maior que a daquela nação ibérica. Como explicar, então, que esse time – tal como diversos outros de porte similar – viva de pires na mão, apesar dos grandes negócios de vendas de jogadores para times espanhóis, italianos, alemães, ingleses, ucranianos, turcos, e por aí vai, em escalas decrescentes de economia e poder futebolísticos?
Como explicar que a mídia esportiva brasileira comemore tão efusivamente quando um craque de um time nacional seja vendido para um time estrangeiro (quando deveria protestar veementemente contra essa situação) e – alegadamente tão ciosa da moralidade – não discuta efetivamente os esquemas de evasão fiscal, lavagem de dinheiro e outros trambiques, alguns bastante notórios e bem recentes? 
Vamos a alguns fatos:
Por circunstâncias de jogo, o time brasileiro até poderia ter vencido a Alemanha no jogo que se encerrou há pouco. Um gol brasileiro no início, certa instabilidade alemã, novo gol no contra-ataque e placar seguro na base do drama, tal como se deu com a Colômbia. Afinal, a seleção alemã que enfiou 7 gols no time brasileiro, chegou a passar maus bocados com os EUA, a Argélia e Gana, que não são assim potências tão consideráveis. Por outro lado, as individualidades do time brasileiro não são jogadores de baixo nível técnico, a comissão técnica é experiente e tem resultados, mas, o conjunto, simplesmente, não aconteceu, não chegou a existir um coletivo.
Posto isso, o time brasileiro simplesmente se desmanchou como uma maionese que desanda. Na cultura popular, a amarelinha amarelou. Não padeceu de apagão futebolístico, mas de apagão moral (falo da moral coletiva e não do caráter certamente excelente de cada jogador), desmanchou-se e a prova mais dolorosa é que nenhum gol foi resultado de contra-ataques do time tedesco, mas de ataques não combatidos por uma equipe canarinho absolutamente apática, totalmente bisonha. Os 5 a 1 da Holanda sobre a Espanha foram resultantes de tentativas desesperadas dos espanhóis de correr atrás do placar adverso, os 7 a 1 da Alemanha foram obra do colapso de um quase-coletivo que não chegou a se realizar.
Parece que o time esteve a perigo em outros jogos, mas a casa só caiu na undécima hora. Digo time, e não seleção, basicamente porque não existe seleção brasileira: sem culpas dos jovens jogadores, eles não jogam no futebol brasileiro, não frequentam estádios brasileiros, não convivem com a população brasileira. São vendidos como produtos coloniais, tal e qual o procedimento que o anônimo do século XVIII dizia sobre o Brasil de antanho (ou hodierno?). Nos tornamos fornecedores de matérias-primas e usamos camisas de Barcelona, Bayern, Milan e times estrangeiros com orgulho de torcedores sinceros. Pouco a pouco as camisas e as histórias dos times nacionais vão se tornando meras barrigas de aluguel para gerar craques que irão atuar em outros gramados. A conta é fácil: de Flamengo, São Paulo, Palmeiras, Corinthians, Botafogo, Internacional, Vasco e outros times outrora poderosos, não havia NENHUM no time brasileiro. Enfim, onde não existe o futebol de qualidade no dia-a-dia não há como se gerar um selecionado verdadeiro, dá apenas para catar um time às pressas, treinar uns 30, 40 dias e torcer para a coisa engrenar à base de individualidades inspiradas.
Para o craque maior (com parcelas decrescentes do mesmo método para os demais), a receita foi abusar do merchandising, propagandear cuecas, óculos, chuteiras douradas e outros bibelôs, enquanto o futebol ia minguando a olhos vistos. Basta ver que depois das tais chuteiras douradas e umas tantas baixadas de calção para promover a fábrica de cuecas, o futebol foi declinando. Certamente o “garoto” não merecia a séria contusão e pode ainda fazer uma bela carreira, mas deve diminuir a publicidade e amassar um certo barro e comer mais feijão com arroz antes de superar gente como Rivelino, Garrincha, Nilton Santos, Jairzinho, Sócrates, Didi, Zico, Ademir da Guia, Falcão, Djalma Santos, Leônidas da Silva e tantos outros que envergaram a famosa “amarelinha”. Por ironia do destino, nas velhas gestas de cavaleiros andantes, quando algum dos duelantes movido pela vaidade vestia uma armadura ou usava uma espada dourada, acabava inapelavelmente derrotado.
Para a torcida que estava presente às partidas – a maior parte de gente que tinha bastante dinheiro para pagar o espetáculo mas nunca pisou num estádio, não vive o dia-a-dia dos times brasileiros, não participa da “cultura popular” do futebol – a coisa se resumiu a não ter palavras de ordem (ou repetir o surrado "eu sou brasileiro..."), vaiar hinos estrangeiros, xingar a Presidente, esbanjar selfies e outras coisas que não representam exatamente o que se passa nos estádios brasileiros, nos jogos sem badalação e toneladas de dinheiro, que fazem parte da cultura futebolística que foi (e digo FOI porque a coisa está passando e a história que interessa é a do futuro) a verdadeira força do futebol brasileiro.
O slogan que dizia “agora somos um”, representa, como devíamos saber, uma imaginação de nacionalidade, que supostamente expressaria nossa projeção ante o mundo. O futebol é algo no qual supostamente damos certo, somos superiores, e isso é uma espécie de contraparte do tal complexo de vira-latas, tão ciosamente e secularmente pregado pelas elites brasileiras contra o nosso povo, tratado como boçal, preguiçoso, incapaz. De repente, em meados do século XX, no cerne desse povo visto como chinfrim, nasce uma espécie de arte que poderia projetar algo positivo em torno desse imaginário da nação. Não à toa que, a par das manipulações políticas e negociatas econômicas, o futebol se constituiu n as brechas como uma espécie de patrimônio cultural do povo e da nação. Essa cultura futebolística afagou nossos sonhos de grandeza, de justiça, de melhoria. Chega a ser ironicamente doloroso – ou sintomático – comemorar o centenário da seleção com um fiasco de tal magnitude.  

É essa cultura futebolística – verdadeira galinha dos ovos de ouro – que está sendo esganada pela ganância desenfreada dos dirigentes, empresários e jornalistas-empresários do meio, que estão longe de sofrer algum prejuízo mesmo quando os times e as seleções perdem os jogos e os campeonatos. Nossa cultura futebolística já havia perdido o campeonato bem antes da Copa começar.  

sexta-feira, 6 de junho de 2014

A escravidão vai acabar, seu Edgar?


          Na efervescência político-cultural do início da década de 1960, Oduvaldo Vianna Filho escreveu a peça A mais-valia vai acabar, seu Edgar, que marcou uma proposta de engajamento bastante relevante para a época. Hoje, passadas cinco décadas, virou meio senso comum criticar por diversos vieses a produção artístico-cultural daquele momento, mas jamais podemos abstrair que aquela produção estava situada num contexto muito próprio de conservadorismo e que teve inegáveis méritos na abertura de novas frentes políticas e estéticas no Brasil.
Mas o que nos importa, nesse momento, parafraseando o título da peça de Vianninha e inserindo um provocativo sinal de interrogação, é indagar sobre a atualidade de um velho problema: a permanência da escravidão nas fímbrias da modernidade (ou até na sua intimidade mais insuspeita). Sob as mais diversas vestimentas ou disfarces, em sua face moderna ou arcaica, a escravização de pessoas continua a alimentar um sistema de exploração escravista associado ao mais avançado e cosmopolita capitalismo. Em suas formas rurais e urbanas, nos rincões ou nas metrópoles, munidos de laptops ou enxadas, a miríade de práticas escravistas floresce onde menos esperamos. Que dizer do trabalho em condições similares à escravidão em carvoarias, plantações, extrativismo e outras ocupações de brutal exploração da força física? Absolutamente execrável. Mas, o que dizer de insidiosas formas “pós-modernas” de condições similares à escravidão, alojadas nos recônditos das sofisticadas operações do mundo cibernético-informacional?

Ao obliterarem o trabalho como dimensão constituinte da vida social, diversos intelectuais não trouxeram à baila novas formas de liberdade, mas colaboraram para disfarçar formas diversas de sofrimento humano embutidas nas nossas diversas formações sociais. Não queremos dizer que as mais que honrosas e meritórias lutas contra todas as formas de discriminação racial, religiosa, sexual e outras não possuam um potencial necessário e indispensável para a mudança de atitudes humanas, apenas argumentamos que tais lutas não deveriam, sob qualquer hipótese, assumir uma feição exclusivista ou “corporativa”, reunindo pequenos cenáculos que se limitam a digladiar contra os diferentes, na mesma medida em que exaltam o direito às diferenças.
Dito isso, a escravidão contemporânea se mantém, mesmo a par dos exaltados discursos de liberdade de alguns, munidos da mais fina retórica, mas adeptos das mais brutais ações para extrair ganhos do suor alheio. A escravidão contemporânea persiste porque existe gente (e não pouca) que ganha com isso, gente que é escravista, que tem mentalidade escravista, que pratica as mais diversas formas de autoritarismo e exploração.


                       Relevante produção intelectual se debruça sobre o problema das práticas escravistas atuais e revelam sua considerável amplitude, densidade e modalidades, uma vez que nem sempre a mesma é perceptível de maneira inequívoca e evidente, exigindo certo grau de investigação para sua detecção. Além do mais, há problemas conexos, como trabalho infantil e de grupos em estado de vulnerabilidade, além de prática de racismo, coação, entre outros delitos e crimes de variada natureza. Entidades diversas denunciam essas situações, elaborando relatórios e boletins, veiculando informações ao público.

A aprovação, ontem, dia 05 de junho de 2014, da PEC 57A/1999, que coíbe a prática do Trabalho Escravo no Brasil, foi resultante de uma longa luta e contou com grande dificuldade de tramitação. Foram decorridos 15 anos desde sua apresentação inicial. O prazo demonstra a dificuldade da luta no campo legislativo para se obter algum avanço nesse sentido. Outrossim, é necessário ir além do discurso moralista de que “todo político rouba” para entender efetivamente as questões em jogo e quais os lados da questão. O simplismo moralista só alimenta quem já ganha com isso há muito tempo.
E essa situação vem de bem longe. A Lei 3.353/1888, a conhecida Lei Áurea, extinguiu legalmente a escravidão no Brasil. Veja-se e frise-se – legalmente –, porque as diversas formas de escravidão extra-legal ou ilegal permaneceram como práticas esparsas ou generalizadas país afora, vazando o século XX e adentrando o XXI. Em 1968, por exemplo, o Inquérito 460/68 se dedicava a investigar a existência de trabalho escravo em fazendas de Goiás e Mato Grosso. Denúncias pipocavam em regiões diversas do país, especialmente nas frentes de expansão de fronteira agrícola, como o sul do Pará, muito embora essa fosse a parte mais visível do problema.


             Em 1994, a Comissão de Trabalho, de Administração e Serviço Público da Câmara dos Deputados instituiu a Subcomissão Especial de Trabalho Escravo, que levantou em regiões diversas do país e distintas atividades econômicas (rurais e urbanas) a persistência de formas variadas de escravidão, que implicava em “formas análogas à escravidão”, algumas vezes difíceis de definir do ponto de vista jurídico. Por serem práticas veladas em maior ou menor grau, seria necessária uma ampla definição dos possíveis significados de trabalho escravo ou em condições similares à escravidão.
Essas variegadas práticas de escravidão e a dificuldade da definição legal de suas fronteiras se tornaram brechas usadas pela bancada escravista (vamos denominá-la explicitamente assim) para tentar barrar de todas as formas a aplicação de medidas legislativas e judiciais voltadas para coibir esse nefasto abuso. Um de seus pontos-chave é o confisco legal de propriedades nas quais forem detectadas práticas de escravidão. Nesse ponto, reside o maior cerne da resistência dos setores escravistas.
Não dizemos escravistas à toa. Em 28 de janeiro de 2004, fiscais do Ministério do Trabalho que investigavam denúncias de trabalho escravo na cidade de Unaí (MG), foram assassinados a tiros. Passados 10 anos, os acusados de serem mandantes da chacina ainda não foram a julgamento. Recebem todo o tipo de acobertamento das lacunas legislativas e da morosidade judiciária em apurar tal tipo de crime. Quando se trata de poderosos, a propalada lentidão judiciária se torna ainda mais clamorosa.
A PEC do Trabalho Escravo ainda demanda sua efetiva regulamentação, o que demandará em novo front de lutas contra a bancada escravista e a certeza que a escravidão ainda não acabou, seu Edgar.            

segunda-feira, 31 de março de 2014

A Ditadura que continua

       
               Algumas teorias que tentam entender os nossos avoengos mais primitivos – aqueles que singravam as savanas em busca da sobrevivência própria e, por conseguinte, da espécie – informam que esses remotos antepassados recorriam a todo o tipo de circunstâncias par obter alimento, entre as quais o recurso à exploração de carniça de animais remanescente da predação de carnívoros mais potentes. Ser carniceiros foi uma condição que permitiu à espécie frágil obter energia suficiente para sobreviver e seguir em frente.
                De certa forma, nossos ascendentes primevos competiam com as hienas pela carniça e esse traço da espécie parece ter remanescido em alguns, mesmo após milênios de evolução física e cultural. Parte da espécie, digamos, a que conseguiu avançar, passou a entender que não precisa manter-se em luta contra tudo e todos para sobreviver, viver e bem viver. Estabelecendo meios de cooperação, de colaboração, usando o intelecto verdadeiramente sapiens, compreendeu que seria possível melhorar a vida de cada um e de todos e não gerar danos maiores ao restante da espécie e da natureza.
                Outra parte, parece que manteve ao traço psicológico das hienas e tem necessidade quase transcendente de carniça para seguir em frente. Empunhando um chicote ou um avançado aparelho eletrônico, está ali um ser humano em seu estado mais atrasado, que podemos denominar homem capitalista (diga-se, de passagem, que estamos usando o termo homem em seu velho significado genérico, muito embora concretamente esse ser possa se manifestar em sexos, gêneros, etnias, culturas distintas). Para esses seres atrasados, comportar-se como feras parece ser algo meritório (se vangloriar como fera, animal, águia etc), mas seria melhor que os denominássemos como hienas, uma vez que é da carniça que realmente gostam, abusando do perfil de valentões (desse tipo de covardes que só são valentes mesmo quando estão cercado por gangs de agressores físicos ou de assessores munidos de laptops), enquanto escondem sua fragilidade intrínseca, pois só conseguem viver sugando o esforço alheio, roubando e saqueando o suor dos demais, agredindo o restante de sua espécie e o planeta. Há algo mais irracional do que alguém se jactar de ser um bilionário? É simplesmente ridículo para o conjunto da espécie.

Hiena em versão antiquada, empunhando o chicote.

Hienas em versão moderna continuam a farejar carniça.
      
























                 É desses humanos atrasados que se fizeram os regimes de exploração social (em suas múltiplas e concretas configurações) e o capitalismo e que se criam as diversas formas de ditaduras políticas, econômicas e culturais, que nos fazem lembrar que está mais que atual o dilema “socialismo ou barbárie” que importa em escolhas que realmente exigem coragem: não devemos sugar o trabalho e o esforço alheios, não devemos aceitar que outros sejam explorados ou massacrados em função de suas diferenças ou fragilidades. Socialismo não deve significar qualquer forma de ditadura, mas a supressão mesmo de todos os regimes que promovam essas mazelas.
                Chegando de perto à ditadura brasileira, podemos identificar seus traços em séculos de escravismo, no profundo desprezo que nossas elites-hienas têm por aqueles que lhes alimentam e geram as condições de seus luxos (inclusive com a formulação de “teorias” de inferioridade mal disfarçadas pelo cinismo e pela hipocrisia), pela luta insana que empreendem pela manutenção de privilégios arraigados por séculos. Nesse sentido e para estes, a ditadura não foi um problema, foi exatamente uma solução encontrada para brecar as lutas dos subalternos para fazer valer seus direitos: a luta de trabalhadores rurais e urbanos pela melhoria de suas condições concretas de vida (salários, moradia, lazer, educação, cultura), a luta de negros, mulheres, minorias religiosas, indígenas, homossexuais e todos os grupos diferenciados pelo respeito aos seus direitos e ao exercício de suas diferenças. A luta, todas as lutas pela dignidade, pelo respeito, pelos direitos, pela igualdade de fruição aos bens da natureza e da humanidade.

Cabra marcado para morrer pela ditadura "antes" da ditadura.

                É essencial não esquecer que as forças armadas foram instrumentalizadas para fazer esse serviço sujo para grandes empresários, banqueiros, latifundiários, burocratas de alto calibre, intolerantes de toda a espécie, enfim, essa fauna de hienas que apoiou entusiasticamente o golpe militar e que usa todos os meios para manter seus privilégios, mesmo após terem deixado de contar com a necessidade do recurso manu militari para tentarem perpetuar seu status quo. Indispensável, ainda, frisar que a maior parte dos veículos de comunicação apoiou o golpe e o regime, sendo, no mínimo, um show de hipocrisia das organizações Globo e grupos quejandos, que procuram se colocar como vítimas de um regime do qual foram beneficiários. Se tivessem maior (ou alguma) inteligência, os milicos de pijama e suas viúvas, em vez de tentarem fazer histriônicas “novas” marchas da família, deveriam avaliar como foram serviçais do grande capital e, logrados pela insânia anticomunista, acabaram por levar toda a culpa por uma tragédia da qual são sócios em larga medida, mas não atores exclusivos.   
                Além do horrendo massacre dos opositores políticos, não podemos deixar de lembrar do massacre cotidiano de pobres nas favelas ou no campo, que também são atos de repressão política, levados à frente por gente do naipe dos esquadrões da morte, mão branca e todo esse tipo de psicopatas que atuaram nas margens semi-legais do regime. Não há de se esquecer, também, das vultuosas negociatas feitas à sombra do autoritarismo, que desmentem cabalmente a mentira de que não havia corrupção na ditadura: havia e muita, escondida pela censura e pela repressão. Não podemos esquecer, também, de tantos parlamentares e juízes e outras autoridades, que exerciam vilmente o servilismo às autoridades títeres do grande capital.

A repressão política da ditadura.
A repressão social da ditadura.
Esse lado civil da ditadura, hoje, tenta usar todos os meios para disfarçar a continuidade da manutenção de sua dominação e privilégios, tenta editar a história conforme lhe convém, tenta apostar na empulhação ou no esquecimento. O mínimo arranhão nesses privilégios, acende, para eles, o sinal de alerta. Derrubaram João Goulart não por acreditarem no risco do comunismo iminente (talvez algumas daquelas senhorinhas alarmadas pelo Padre Peyton), mas por saberem concretamente que seu “bem-bom” estava em risco; e as hienas não estão dispostas a abrir mão de seu quinhão de carniça, mesmo que o mesmo exceda em muito o necessário para a sua vida.         
A ditadura cotidiana do capitalismo

Os anos se passam e se atualizam os processos de dominação e exploração, mas também avançam as formas de resistência e inteligência que exigem saídas lúcidas para evitar a completa barbárie que parece muito apetecível às hienas. Precisamos fazer jus à nossa condição de sapiens.  

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Estátua do deus Apolo é encontrada na faixa de Gaza

Rara estátua de Apolo encontrada na faixa de Gaza. 












Perdida durante séculos, uma rara estátua de bronze do deus grego Apolo ressurgiu na faixa de Gaza. A aparição, entretanto, foi breve: "confiscada" por integrantes do Hamas, ela ficou desaparecida durante meses até ser colocada à venda no site eBay e, em seguida, ser "apreendida" por autoridades palestinas. Segundo o Hamas, não há previsão de quando a estátua voltará a ser visita pelo público, se é que isso pode acontecer.
Segundo um pescador palestino, a estátua de aproximadamente 500 kg teria sido encontrada durante uma de suas saídas para o mar em agosto de 2013. Ele teria carregado a estátua para casa em seu burro, sem ter ideia de seu valor arqueológico.
Trata-se de um grande achado. "Eu diria que é um achado que não tem preço. É praticamente como perguntar qual é o valor de La Gioconda (a Mona Lisa) no Museu do Louvre", afirmou Jean-Michel de Tarragon, historiador da Escola Arqueológica de Jerusalém, à 'Reuters TV'. Pelo estado da estátua, ele diz ainda que não poderia ter sido encontrada no leito do mar.
Ahmed al-Bursch, diretor de arqueologia do Ministério do Turismo, disse que viu a estátua e prometeu que o pescador receberá sua recompensa, assim que a investigação criminal seja concluída. Só então, disse, o deus Apolo poderá ser visto em sua glória.
"Instituições internacionais já nos contataram para oferecer ajuda com o processo de restauração", afirmou. Segundo ele, um museu em Genebra e o próprio Louvre já demonstraram interesse em um empréstimo do bronze de Apolo.

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

A DITADURA EM COISAS MIÚDAS


          As recentes e chocantes “revelações” em torno das atrocidades cometidas pela ditadura civil-militar que comandou o país, entre meados das décadas de 1960 e 1980, ainda incomodam muito a nossa sociedade, permanecendo como uma espécie de esqueleto no fundo do armário de nossas consciências. O uso das aspas em relação à palavra revelações é absolutamente proposital, uma vez que muito do que está vindo à tona já era bastante conhecido, mas estava recalcado nas memórias de quem gostaria de esquecer para sempre (algozes desejosos de esconder seus delitos e algumas vítimas traumatizadas pela violência sofrida), especialmente entre os que apoiaram a ditadura, ou que foram no mínimo omissos (o que não deixa de ser uma forma de apoio dissimulado), e hoje gostam de posar de bons moços do passado. Alguns desses mesmos possuem a capacidade camaleônica de apoiar qualquer grupo que estiver nas cercanias do poder, como numa inversão de conhecido ditado: “¿Hay gobieno? Soy favorable”... Uma cultura autoritária subjaz no fundo da “alma nacional”, não poucas vezes se voltando contra pobres, indigentes e desfavorecidos de todo o tipo nessa nossa pátria, que ostenta varonil a condição de uma das campeãs mundiais de exclusão social. Não se toca fogo em índios ou mendigos amiúde sem uma sofisticada elaboração cultural como pano de fundo.




Uma das questões menos percebidas nos debates em torno da instalação da Comissão da Verdade, diz respeito ao fato de que nos defrontamos com essa cultura autoritária profundamente enraizada e nos cabe aprofundar o debate sobre o como será possível enfrentá-la em toda a sua extensão. Como será possível explicar que boa parte da nossa sociedade se divirta com programas de gosto no mínimo duvidoso como os reality shows da vida, cuja finalidade essencial é humilhar, expor ao ridículo, ao sofrimento? Como é que pessoas supostamente saudáveis não vomitam – ou até vibram entusiasticamente – ao ver Roberto Justus demitir outras pessoas, como se fossem ratinhos em um satânico laboratório social, ou Pedro Bial comandar rituais de sadismo explícito em horário “nobre” (que bem poderiam ser invadidos por defensores dos animais indignados com os maus tratos à espécie humana)? Como explicar a empatia generalizada com quem manda, quem pode humilhar e espezinhar os outros? Como equacionar devidamente o fenômeno aparentemente inexplicável da falta de civilidade no trânsito e da manifesta prepotência de alguns homicidas potenciais, que possuem carros possantes e se sentem os verdadeiros capitães do mato, soltos nas estradas e estacionamentos país afora?
Ainda falta muito – se é que um dia conseguiremos – para expurgar esse nosso lado herdado do baú escravista que é o lado mais obscuro de nossa cultura. O espírito da Casa Grande ainda reina inconteste em nossa sociedade. É o nosso “ovo da serpente”, chocado dia a dia sob o calor do nosso sol tropical e o nosso céu gentil. Para os interessados, não deixo de sugerir a estimulante leitura de “O Mulo”, de Darcy Ribeiro, um retrato em negativo dos desvãos da memória de nossos mandões, cujos bisnetos, trajados de terno e gravata, munidos da tecnologia mais sofisticada e ocupando os postos mais elevados de nosso mundo empresarial-político, ainda sentem saudades da senzala e do chicote para poderem exercer suas vocações com mais autenticidade.
Para estes, a democracia se resume ao que lhes favorece, a um rito meramente formal, ou como já tinha intuído João Goulart (à parte as seguidas controvérsias em torno do personagem) no famoso Comício da Central em 13 de março de 1964: Democracia para esses democratas não é o regime da liberdade de reunião para o povo: o que eles querem é uma democracia de povo emudecido, amordaçado nos seus anseios e sufocado nas suas reivindicações. A democracia que eles desejam impingir-nos é a democracia antipovo, do anti-sindicato, da anti-reforma, ou seja, aquela que melhor atende aos interesses dos grupos a que eles servem ou representam. Na mesma ocasião, indo além, o então Presidente declarou de alto e bom som a força do auto-engano que move parte de nossa consciência, que sofre crises histéricas de moralismo hipócrita e inquisitorial alimentado à mancheia por nosso oligopólio midiático: Ameaça à democracia não é vir confraternizar com o povo na rua. Ameaça à democracia é empulhar o povo explorando seus sentimentos cristãos, mistificação de uma indústria do anticomunismo, pois tentar levar o povo a se insurgir contra os grandes e luminosos ensinamentos dos últimos Papas que informam notáveis pronunciamentos das mais expressivas figuras do episcopado brasileiro. Não seria esse o combustível para alimentar a luta feroz pela manutenção de nossa sociedade de privilégios? Não seriam as manipulações de “ameaça do comunismo”, “baderna do vandalismo” e outras desse jaez uma confortável coberta para esconder o fato de que nossos maiorais desejam firmemente manter suas vidas nababescas acima da maior parte da sociedade?
Em 1964 tudo cabia no anticomunismo (repressão a reivindicações sociais diversas, moralismo exacerbado, um monte de coisas e até mesmo o comunismo, que serviu à medida como um “espantalho” para assombrar as senhoras da “boa sociedade”). Hoje continua cabendo um monte de coisa em rótulos de ocasião, para “explicar” o que não tem como esconder: uma sociedade violentamente cindida entre um topo que goza as delícias da existência e uma vasta base alijada de tudo isso. Esse é o verdadeiro combustível de nossas políticas de “insegurança pública”, para as quais não haverá policiamento que dê jeito. A propósito, não temos todos os elementos para entender toda a extensão do que acontece nos dias que correm e recebem o rótulo de “vandalismo” – mas que podem esconder desde a rebelião contra a violência diária a qual são submetidos jovens empobrecidos até a ação dos famosos “agentes provocadores”, que obram a serviço de “forças terríveis” escondidas no subsolo de nosso mundo social. Independentemente de tudo isso, gostaria de obtemperar que não me parece o melhor caminho destruir patrimônio público como telefones ou lixeiras, é preciso divisar caminhos efetivos para construir um futuro alternativo. A não ser que parte desse componente autoritário de fundo também se acople ao tecido de determinados grupos que apenas pretendem obter as condições necessárias para empunhar o látego sobre os outros.         
Por tudo isso mesmo, é que só conseguimos vislumbrar da ditadura o seu lado mais “espetacular” e “chocante”, as narrativas das horrendas perseguições, exílios, torturas, assassinatos, desaparecimentos e outras práticas de infernal teor. Ainda não foi publicamente avaliada a longa permanência dos esquadrões da morte, “mão branca” e toda a sorte de “clubes de extermínio” que possibilitaram, sob denominações diversas, o “sono sossegado” de nossas altruístas elites. Passa despercebida da maior parte a ditadura solerte, as coisas miúdas do cotidiano que se entranharam profundamente em nosso tecido social e cuja superação exigirá um longo aprendizado – lembrado oportunamente por uma das pessoas mais especiais que me honraram com sua amizade, o sociólogo e Ex-Presidente da UNE Vinícius Caldeira Brant, numa publicação acerca do Congresso de reconstrução da entidade em Salvador (1979): Pra reaprender a somar no movimento estudantil ou em qualquer outro movimento, vai ser necessário responder a uma prática democrática de tolerância que a ditadura fez que as pessoas desaprendessem –, ou seja, que a ditadura tinha exacerbado nosso traço autoritário mais que secular e que o aprendizado de uma prática efetivamente democrática levaria longos anos, talvez gerações. Eu acrescentaria, para o sorriso do amigo: e não é possível construirmos qualquer prática democrática mergulhados num oceano de injustiça social.

O "exílio interno" em O Toque do Silêncio.

          Essa ditadura miúda – ainda longe de seu ocaso – se manifestou na gestação de um ambiente asqueroso de bajulação de poderosos e de delação generalizados; no exercício sutil de um olhar seletivo, que evitava ver certos abusos e injustiças cometidos à luz do sol. Além da ditadura dos porões e grupos de extermínio, essa outra ditadura vicejou longamente, sendo aquela que dava sentido à dos quartéis: a peçonhenta ditadura do grande capital (lembrando da obra sempre marcante de Octávio Ianni), da exploração desenfreada e desavergonhada dos trabalhadores, somada à das pequenas perseguições do cotidiano, dos incalculáveis danos gerados a muitas pessoas que foram prejudicadas em seu ambiente de trabalho, nas suas relações de vizinhança, nos comentários à boca miúda que constrangeram indivíduos que “feriam a moral e os bons costumes”. Essa ditadura miúda foi tratada com brilho e rara sensibilidade e brilho em “O Toque do Silêncio”, de autoria de mais uma pessoa que me honrou com sua amizade, o historiador Francisco César de Araújo. No livro, através do seu alterego, o professor Júlio – um ex-militante do movimento estudantil que se tornara professor em uma cidade (qualquer cidade) do interior brasileiro nos finais dos anos 60 e início dos 70 – Chico Araújo denunciou o clima contínuo de delação, de controle, de perseguição que mostra o “lado civil da ditadura militar”, o lado miúdo que tinha na tortura sua outra e terrível face: ambas se alimentavam mutuamente. Na Escola, no bairro, nas mais comezinhas atividades diárias, esse ambiente “empesteado” se manifestava de sol a sol.
Não podemos deixar esquecer que muita, mas muita gente apoiou ativa ou passivamente a ditadura e exerceu do jeito que pode sua “ditadura particular”. Fosse a vítima a empregada doméstica, o menino de rua, a pessoa “esquisita” da vizinhança, essa ditadura penetrou por todos os poros de nossa sociedade. Não podemos deixar esquecer que maior parte dos meios de comunicação (o oligopólio midiático) que tece loas à democracia nos dias que correm, colaborou alegremente com o que alguém, numa dose deslavada de eufemismo e um acesso de cinismo, denominou de “democracia forte”.
Para não deixar de referir mais miudamente a um fato que nada tem de miúdo – pelo contrário, revela em sua extensão o descalabro do regime – lembro de um fatídico acontecimento no dia 25 de agosto de 1975, em João Pessoa: em meio às comemorações da semana do soldado, um festivo evento com direito a exposição de armamentos e veículos militares no ponto central da cidade, terminou com um trágico resultado: 35 mortos, 29 dos quais crianças. Por incúria ou outro problema que falta apurar, uma embarcação que fazia passeios na Lagoa do Parque Solon de Lucena naufragou e o desespero das pessoas e o despreparo dos promotores do evento consumaram o terrível acidente. Com certeza, não chegaria aqui a conceber qualquer propósito soturno no acidente (seria coisa inimaginável), mas a não apuração judicial das responsabilidades (como hodiernamente exigimos em relação da tragédia da Boate Kiss, em Santa Maria-RS), garantiu a impunidade para os culpados e a não reparação devida pelo Estado brasileiro. As famílias vítimas do terrível acidente devem receber as reparações do Estado, uma vez que a incapacidade do poder público de garantir a segurança da população e, nesse caso da Lagoa, a clamorosa incompetência, levou ao trágico desenlace. Como o incidente envolvia gente poderosa, sua investigação foi devidamente engavetada, assim como em muitas outras atrocidades cometidas pelo Estado brasileiro em relação à sua população. Lembremos ainda o caso da tragédia da Vila Socó (Cubatão-SP, 1984), quando uma comunidade foi totalmente destruída, com centenas de vítimas carbonizadas, dada a incúria e a prepotência dos diretores da Refinaria Artur Bernardes, que se recusaram a atender os reclamos da população sobre vazamento do gasoduto que atravessava o subsolo da comunidade: uma pequena fagulha e... muitas vítimas...

Tragédia da Lagoa - o Estado brasileiro precisa ser responsabilizado.

Creio que tragédias como a da Lagoa ou da Vila Socó são questões que exigiriam a investigação das Comissões da Verdade, por envolverem a falta de apuração por responsabilidades do Estado frente a tragédias sociais, geralmente anunciadas. Estado esse que sempre foi muito cioso de segurança pública quando essa envolvia e envolve a proteção dos bens e propriedade de nossos patrícios, mas que é insensível ou omisso quando essa segurança exige o cuidado com os mais desprotegidos frente à sanha do grande capital.
                           


Em 20 de novembro de 2013, 318 anos depois da morte de Zumbi dos Palmares pelas tropas a serviço da segurança e da propriedade dos poderosos de plantão.  


sábado, 16 de novembro de 2013

UMA HIPOTECA PARA O FUTURO? Em torno da propalada mudança da Assembleia Legislativa para o Altiplano do Cabo Branco.

Assembleia Legislativa - entre o conforto e a responsabilidade.  















           O fascínio das novidades convive com questões menos inocentes que mobilizam alguns arautos do novo. Não raras vezes, numa cidade, quando se exalta uma nova área como moderna, sofisticada, esse discurso traz à socapa inconfessáveis interesses de especulação, notadamente imobiliária, com suas decorrentes lavagem de dinheiro, superfaturamentos de obras e toda essa pletora de práticas que a sociedade, muitas vezes, finge condenar.
A propalada mudança da Assembleia Legislativa da Paraíba para o Altiplano do Cabo Branco segue uma desastrosa política urbana já iniciada décadas atrás com a mudança do Centro Administrativo do Estado para Jaguaribe, do Centro Administrativo Municipal para a Água Fria e a pulverização de ramos do Judiciário para áreas diversas da cidade, com tendência a se concentrar no Brisamares e Jardim Luna, às margens já congestionadas da BR-230 (não sendo nenhum exercício de futurologia prever congestionamentos-monstro na área após a instalação da Justiça do Trabalho e do Ministério Público nas imediações, para maior desespero dos “quase-futuros-ex-moradores” da Rua Casimiro de Abreu e adjacentes).    
Numa passagem clássica na qual discutia a formação das cidades brasileiras, o historiador Sérgio Buarque de Holanda nos comparava a “semeadores”, que fazíamos tudo à base do improviso, nos opondo aos povos “ladrilhadores”, marcados pelo senso de planejamento. Outros historiadores se contrapuseram, por vias diversas, a essa forma de análise e destacaram a questão de indícios de planejamento efetivo na formação de nossas urbes. Para embaralhar as coisas, fica a questão preliminar: ladrilhar seria necessariamente melhor que semear? Que tipo de ladrilhagem é efetivamente feita? A que interesses atende? Haveria uma oposição binária entre semear e ladrilhar ou ambos seriam processos muitas vezes complementares entre si? Nossas cidades, com esse tipo de crescimento, não estariam repetindo, em escalas distintas, ciclos de especulação-valorização-exclusão-violência? Enfim, vamos discutir algumas questões. 

Rua do Melão no começo do século XX.













          No filme Sábado (1995), de Ugo Giorgetti, o diretor abordou de forma mordaz os surrados discursos de “amor pelo Centro” e “vamos voltar às origens” na problemática metrópole de São Paulo, que propugnam iniciativas de “higienização do passado”, a fim de torná-lo uma terra de belezas, sem pobreza e cheia de heroísmos. Efetivamente, tais discursos se pautam por uma espécie de assepsia da História, elidindo os aspectos mais chocantes do passado. Falando em palavras redondas: o passado das cidades brasileiras (e nossa intrépida João Pessoa não é exceção) é marcado pela presença chocante da escravidão, da pobreza, da violência, do abandono, enfim, da nossa tão íntima, perversa e pitoresca convivência entre riqueza e miséria. Assim, sem muito rodeio, quando observamos antigas imagens de nossas cidades, poucas vezes ficam evidentes (ou são deliberadamente disfarçadas) as habitações precárias, as pessoas empobrecidas e assim por diante, como podemos verificar numa valiosa fotografia da Rua do Melão (Beaurepaire Rohan) no início do século XX. Que pena que as fotos não tem cheiros e barulhos!!! As tecnologias emergentes, logo que tornarem isso possível, poderão trazer várias vantagens e, com certeza, alguns incômodos.

Detalhe da Rua do Melão - passado a "terra de belezas".










Se realizássemos uma suposta viagem ao nosso “centro histórico” (neologismo para esconder o fato que o grande capital e a grande política abandonaram o lugar e foram “florescer” em outras plagas), ou mais precisamente nas imediações das atuais Praça Vidal de Negreiros, 1817 e João Pessoa, lá pelos finais do século XIX, encontraríamos o local povoado de ex-escravos, pobres, trabalhadores informais e toda uma pletora de gente que foi sendo escorraçada do lugar nos processos de modernização do século XX. Não é à toa que as antigas Igrejas do Rosário dos Pretos e da Mercês dos Pardos do local foram postas abaixo. Quem residia nesses lugares quando as mesmas foram erigidas em finais do século XVIII (que pena que os antigos mapas urbanos não representavam choças miseráveis que existiam na velha (então nova) cidade!!!)? Certamente não eram os pretensos afidalgados do lugar, que estavam mais acima, na parte mais alta nas Ruas Direita e Nova. Num processo que já vinha do final do Oitocentos, por volta dos anos 1920/1940, o lugar foi sendo seguidamente valorizado e “embelezado” para os bem-nascidos locais, sendo a populaça enxotada das redondezas. Esses processos não acontecem sem que estejam diretamente associados os ganhos dos ladrilhadores com as táticas ou astúcias de sobrevivência dos semeadores que laboram para se alojar nas fímbrias do tecido urbano valorizado e, assim, poderem defender seus modestos meios de vida.  
Eis que a cidade “descobre a praia” nos meados do século XX. Mesmerizados pela visão da cidade moderna, o paraíso tropical onde o sol nasce primeiro e apresenta uma pretensa qualidade de vida para os bem-afortunados, se transferem negócios, moradias e órgãos da administração pública para o lugar. As antigas povoações de pescadores (que ali estavam, como atesta um interessante depoimento do pastor Daniel Kidder que esteve em “Tambaiú” por volta de 1839 e conversou com pessoas do lugar) foram devidamente “realocadas” em outras plagas e seus moradores foram semear suas vidas onde pudessem habitar e ter algum trabalho. Em bairros abertos – ladrilhados – pela combinação entre os planos urbanos e as novas condições de transporte de massa, foi sendo destinada a moradia e serviços das populações de menor renda. Para os que habitavam os universos da pobreza “pura”, restaram os lugares menos prezados pelos negócios urbanos. Vejam-se os casos dos terrenos nos “fundos” de Manaíra, Tambaú, Bessa e Intermares, que vão se tornado progressivamente áreas consideradas “problemáticas” pelas autoridades da Capital e da Capitania. Não é futurologia também perceber o acúmulo de problemas de mobilidade urbana na nova fronteira do glorioso e solar porvir, o Altiplano do Cabo Branco, à medida do adensamento de Condomínios fechados, negócios e órgãos da administração nos grandiosos empreendimentos ladrilhados pelos bem-afortunados locais (associados ao Capital de outras plagas, nem sempre legal, e devidamente lavado para acobertar sua delituosa procedência); por sua vez, esses estarão associados aos processos de semeio de precárias moradias nos fundos dos pequenos vales (Timbó, Aratu e outros) que medeiam entre a “área nobre” e os bairros residenciais e comerciais ao seu oeste. Nessas áreas delicadas, a degradação ambiental estará associada à sua irmã siamesa, a social, ambas são ladrilhadas e semeadas no interior da mesma lógica.    
Para trás, vão ficando os “centros históricos” que guardam as “belezas do passado”. Será o busto de Tamandaré uma relíquia de nosso futuro, quando a cidade elegante tiver fugido para o Altiplano?
          O antigo lugar cívico da Capitania – onde, em tempos prístinos, provavelmente habitaram os potiguara, sucedidos pelos jesuítas e pelos moradores desse arrabalde, pelos Governantes e seus funcionários, pelos estudantes do Lyceu e da Escola Normal, pelos freqüentadores do Jardim Público (devidamente gradeado para espantar os indesejáveis), pelos Desembargadores e operadores do Judiciário, pelos Parlamentares Estaduais, pelo comércio mais refinado – foi sendo relegado paulatinamente ao papel de “relíquia” que é bom saber que está lá, que existe, mas que não convém freqüentar pelos habitantes da cidade cosmopolita. Resta aos que não usufruem dessa urbe moderna, se estabelecerem nesses lugares de formas possíveis como lavadores de carro, engraxates e outras pequenas ocupações urbanas. Como se espantar, senão para legitimar a religião nacional da hipocrisia, que algumas dessas pessoas adiram ao “submundo” dos crimes e das drogas, que tiram o sono de nossas autoridades de segurança pública e as pessoas de bem do lugar? Uma cidade que não fornece os confortos e direitos para todos, é geradora da insegurança pública estrutural. Isso não é paternalismo, é apenas a constatação de que esses processos só existem devidamente associados e que os ganhos de uns correspondem diretamente às perdas de outros.
História é coisa do presente e é o presente que nos interessa. Para além das dificuldades de exercício efetivo dos órgãos públicos como a Assembleia Legislativa da Paraíba no lugar (estacionamento, instalações etc), não seria melhor pensar numa solução “local” e inclusiva, social e economicamente, para os problemas? Por que não atacar os processos de concentração imobiliária e de estoque de edificações e terrenos, que, além de encarecerem o preço de compra (apanágio da violenta especulação que assola nossas cidades), transformam na mesma medida certos lugares em “fantasmas”? Não seria melhor discutir com responsabilidade social a efetiva ocupação da área e considerar os enormes prejuízos sociais e econômicos decorrentes da transferência da Assembleia para outra região? Não existem diversos imóveis desocupados ou sub-utilizados para os quais se poderia pensar a destinação pública e social? O lastimável arquivo da Assembleia (para não deixarmos de denunciar esse importante Patrimônio Público tratado com tanta incúria) não poderia ser alocado com conforto e todas as exigências técnicas em prédios abandonados das imediações, desde que devidamente feita a sua adequação? Não se pode levar efetivamente a sério os programas de habitação social no lugar? Não se pode valorizar as pequenas atividades de comércio e serviços que permitam a vida dos habitantes mais modestos da cidade? Não seria melhor levar em consideração as necessidades sociais, que não precisam estar em necessária contraposição ao conforto dos Parlamentares e funcionários do nosso Legislativo? Não seria importante pensar nessas coisas? Ou a ingenuidade e sua gêmea siamesa menos inocente – a cupidez – têm de guiar todo o processo? Temos de ladrilhar e semear perversamente os processos urbanos do futuro?        
Não é de desprezar o fato de que a cidade do futuro possa fazer “campanhas de valorização do Centro ‘Histórico’”, com slogans de “amor ao Centro”, concursos de redação nas Escolas para aplacar as consciências, criação de “centros de cultura” e “shoppings populares”. Mesmo os paraibanos de outras cidades não podem se furtar ao fato de que, no futuro, podem ser acrescidas despesas com segurança pública para os futuros contribuintes, a fim de “resolver” a insegurança do lugar. Lá virão denúncias de crimes e violências de toda a espécie, de depredação do Patrimônio Histórico, de abandono etc. O suposto “abandono” é produzido hoje, essa hipoteca será pesadamente resgatada no futuro. E se as coisas forem levadas do mesmo jeito, nossos futuros alcaides iluminados da Filipéia da Beira-Mar irão promover novas propostas de “revitalização” do lugar, que, invariavelmente, incluirão a exclusão dos pobres em seu cardápio. Por que, até não mudar a Capital e pensar num lugar novo digno das pessoas que virão, abandonando as ruínas do passado para trás? 

Hotel Globo - meados do século XX.














          Na contramão disso tudo, a comunidade do Porto do Capim tem aparecido como a principal novidade na política urbana da cidade, verdadeiro esteio de uma cidadania para além do discurso estéril e pouco convincente das autoridades, dos bem-nascidos e da mídia. Eles estão lutando para participar da ladrilhamento previsto para o lugar que há tempos semeiam com suas vidas e labutas, dizendo que a comunidade está lá e é a maior interessada e responsável pela sua preservação e desenvolvimento. No passado asséptico produzido às margens do poder, querem dizer que ali era o lugar nobre das caravelas onde os heróis fundadores empreenderam a civilização do lugar. Cabem alguns reparos: primeiramente, esses heróis fundadores foram os mesmos que promoveram a escravidão, que iniciaram a concentração de rendas e terras, que deixaram as fortunas para seus descendentes e a pobreza e outras mazelas para os seus pósteros não incluídos nas felizes genealogias nobilitantes. Portanto, não consta que devamos ser tão sentimentais em relação a essas pessoas de tempos idos, elas já usufruíram seu gostoso quinhão em vida. Outrossim, se ali havia um porto, não é preciso ser nenhum gênio da historiografia ocidental para saber que a área foi historicamente ocupada por populações trabalhadoras, que estão lá “desde sempre”, considerando que esse sempre começou depois que os potiguara foram devidamente “afastados” manu militari do lugar. Se alguém tem direitos legítimos a usufruir primeiramente da área, é quem já está lá agora, no presente, e que deseja ter voz ativa no que lhe diz respeito. Ou, se vamos “resgatar o passado”, devolvamos a área aos potiguara e ainda paguemos pelo seu uso secular.

No detalhe: Abaixo das glórias arquitetônicas da cidade, as moradias que não integram o
cenário celebrativo da História, mas que constroem as glórias alheias pelo seu trabalho.
Eles "sempre" estiveram lá. 


Há vezes nas quais os ladrilhadores semeiam problemas e os semeadores ladrilham soluções. Nossos parlamentares, que pretendem representar a voz do povo, teriam muito a ganhar se deixassem de se embalar pelo “som do mar e a luz do céu profundo” e aprendessem com os ribeirinhos que habitam as margens do Sanhauá, verdadeiro patrimônio do povo da Paraíba.