domingo, 20 de dezembro de 2020

Cronos e Zeus na errante dança do tempo.


Calma, tudo está em calma

Deixe que o beijo dure, deixe que o tempo cure

Deixe que a alma

Tenha a mesma idade que a idade do céu

Paulinho Moska


        Nossos avós mais antigos, quanto mais recuarmos, inúmeras gerações atrás, não possuíam aparelhos de celular, de televisão, livros impressos, a escrita ou quaisquer outras mídias que nos são tão usuais no papel de mediar nossas relações com as demais pessoas ou as coisas. Muitas vezes, sua experiência de observação era direta ou por ouvir dizer, tendo a oralidade um papel essencial na transmissão do não visto, mas visto por alguém cuja palavra era digna de fé.

                Para estabelecerem a contagem do tempo, para sair para caçar, fazer certos plantios ou mesmo migrar, dependiam de uma acurada percepção da mudança das estações e marcavam essas mudanças pela relação com alguns fenômenos observados em certas plantas ou animais ou ainda os movimentos de certos astros no céu: quando determinada estrela estava em certa posição, era o tempo certo de fazer algo, o calendário era determinado pela observação dos fenômenos naturais e sua observância era questão de sobrevivência estação após estação. Se seria seco ou chuvoso, quente ou frio, tudo isso dependia dessa apurada observação e dela, por sua vez, poderia depender a diferença entre a abundância e a penúria. Dessa forma, e considerando as exíguas dimensões das cidades – ou até mesmo a sua inexistência – e de uma possante iluminação artificial (reduzida apenas a fogueiras ou pequenos lumes), as noites eram bem mais escuras e o céu apresentava um verdadeiro luzeiro que não conseguimos avistar, ofuscado pelas luzes de nossas urbes. Também a falta do barulho de fundo dos automóveis, deixava os ouvidos mais atentos aos pequenos barulhos da natura, que podiam significar até o perigo de uma fera à espreita. 

Assim, esses nossos mais antigos avós viam e ouviam mais as vistas e sons que o texto do mundo natural lhes contava. Olhavam muito mais para o céu, a fim de ordenarem seu tempo pela dança que os astros pareciam fazer no firmamento. Astros mais brilhantes, de distintas cores ou que ocupassem determinadas posições pareciam se relacionar a certas ocorrências. Entender essa “dança dos astros” ficou cada vez mais a cargo de certas pessoas sábias, para as quais a junção de duas palavras gregas astros (corpos celestes) e logos (discurso ou estudo), se daria o nome de astrólogos.  Se poderia crer que essa dança celeste determinaria em alguma medida os destinos de pessoas e povos inteiros. Muitas e muitas gerações adiante, já nos nossos tempos ditos modernos, a busca de um critério mais científico para essas observações, fez com que dessa matriz se derivasse outra palavra, juntando astros dessa vez a nomos (leis, governo), levando a astronomia, que nascera de seu velho tronco e com ela haveria de esbarrar daí em diante.

Observatório Maia de Chichén Itza, um dos muitos postos de observação dos astros criados pelas mais diversas culturas humanas.

Mas além de governar a vida cotidiana, olhar para os astros e saber pela voz dos antigos que eles estavam lá há muito tempo, dava ideia de uma permanência bem maior que a breve vida humana, o que levava a uma busca de explicações das origens e a tentar saber de onde vinha o universo e a vida, a criação. Céus e terra pareciam estar sempre ligados. A isso, a observação do universo – o cosmos para os gregos – muito mais tarde se juntou outra palavra, também grega – discurso ou logos –, donde a palavra moderna cosmologia, ou estudo dos fenômenos nas diferentes escalas do universo. Mas mesmo considerando as palavras modernas, cada povo e cada cultura possuíam suas próprias astronomia e cosmologia, relacionando sabiamente a sua vida com a observação da natureza que a cercava e da qual extraía e conferia sentidos. Se usamos palavras gregas é apenas pelo costume, mas ela poderia ser outra palavra extraída de outro idioma, de outra tradição, aqui tradição no melhor sentido de “ouvir dizer aquilo que os e as avós contam para os netos e netas”.

Cada povo e cada cultura estabeleciam suas observações celestes, que estavam relacionadas à sua posição mais próxima ou distante da linha que o sol parecia descrever no céu ao longo da mudança das estações – ora mais ao sul ora mais ao norte – e considerando a curvatura da Terra (muito embora disso a grande maioria não tivesse consciência, entendendo viver numa superfície plana), via os astros de maneiras diferentes e lhes atribuía nomes, de acordo com suas formas de percepção. Traçar linhas imaginárias entre certos astros, para alguns povos indígenas de língua Tupi-Guarani naquilo que hoje chamamos Brasil, era ver no céu um Homem Velho, uma Anta ou uma Ema; já na cosmologia dos Tukano, seria possível avistar um Camarão ou um Tatu. Por sua vez, na tradição africana dos antigos egípcios, ver uma barca, uma ovelha ou um leão era desenhar essas linhas imaginárias com outros traços mentais. Os antigos chineses dividiam o céu nas regiões do dragão azul, tartaruga negra, tigre branco e pássaro vermelho, onde identificavam boi, coração e carruagem em lugar das antas ou barcos de outros povos. Na linhagem ocidental que herdamos, desenvolvida ou bebida pelos gregos junto aos povos do Oriente próximo, acabamos atribuindo a essas linhas imaginárias as figuras de animais como escorpiões, peixes, touros, caranguejos e cabras, de instrumentos como a balança, ofícios como um aguadeiro, uma mulher virgem ou ainda figuras de sua mitologia como o homem cavalo Sagitário ou o guerreiro Órion. Todas essas “constelações” são linhas que a imaginação dos avós mais antigos, em diversas culturas, desenharam na tela do universo que contemplavam.  



Cada cultura identificava nos desenhos mentais que fazia dos astros figuras familiares às suas vidas, como os Tupi-Guarani com a Anta do Norte e os Gregos com o Aguadeiro (Aquário). 

                Alguns daqueles astros pareciam ter movimentos bastante fixos e previsíveis – sendo o Sol e a Lua os governantes do dia e da noite e as constelações partícipes dessa dança – e, portanto, observar sua trajetória e relacioná-la à mudança das estações era uma maneira de organizar a faina nos devidos tempos. Outros pareciam errar ao longo das estações do ano e ao longo de anos pareciam chegar mais próximos, alinhando-se ou afastando-se. Para eles os gregos atribuíram o nome de errantes ou vagantes, cuja palavra Planis levou aos errantes planetas que parecem fazer movimentos muito inusitados no céu ao longo das estações. Ainda havia aqueles fenômenos ariscos e rapidamente mutáveis, mas familiares, que vinham aparentemente sem maior aviso e poderiam ser benfazejos ou malfazejos, a depender das circunstâncias, estando neles orvalhos, chuvas, temporais ou granizo, nevascas, aparentes exalações de fogos e rápidas estrelas que pareciam cair e se evaporar no firmamento. Para tanto, a palavra grega meteoros levou à observação dos traços que indicassem a proximidade de alguns desses fenômenos e deu origem ao que chamamos modernamente de meteorologia, que interessa a um agricultor que precisa saber o tempo certo do plantio ou a uma jovem urbana que precisa saber se “vai dar praia”. Percebendo a permanência de certas características constantes no tempo (seco, quente, chuvoso, frio etc.), os gregos também trouxeram a palavra clima (pender, inclinação), pois associavam a constância de certos tempos (neve no inverno ou sol tórrido nos verões) a um padrão que levou à climatologia, que se relaciona diretamente com um conhecimento irmão da Historiografia, a Geografia, que descreve a Terra (Gaia) em suas mais diversas fenomenologias e as relaciona à interação entre os fenômenos humanos e naturais, podendo, inclusive, lidar com fenômenos de mudanças na própria terra na qual pisamos e que transcendem o tempo da ação humana através da Geologia. Por fim, muito raramente, apareciam no céu astros de longas cabeleiras, vindos sabe-se lá de onde e que sumiam tão misteriosamente quanto tinham aparecido. Suas comas (as cabeleiras para os gregos) deram origem à palavra Cometas, que pareciam astros que carregariam presságios de mudanças inesperadas na ordem que parecia governar o cosmo, que talvez trouxessem a desordem, ou o caos (palavra hebraica herdada pelos gregos para ser coberto de trevas) e que parecia representar algo de antes da criação, de tempos tão profundos e distantes que a mente humana não podia conhecer e geralmente deveria temer.













O Vocabulario Portuguez & Latino do Padre Rapahel Bluteau anotava no século XVIII essa denominação de errantes ou vagabundos para os planetas.

 

Em todas as culturas e lugares, muitas vezes eram atribuídos a todos esses astros ou aos mais portentosos que eram visíveis certos poderes e características divinas, para os quais se deveriam observar certos respeitos e mesmo rituais para garantir bonança e longa vida. Assim, culturas, no sentido mais pleno de materialidade da vida e imaterialidade de suas representações mentais, estavam intimamente ligadas aos instrumentos agrícolas que lavravam a terra ou ao uso das armas para abate de animais e ao culto das forças primordiais que pareciam governar tudo isso. Os céus e a Terra pareciam estar em estreito contato e os tempos celestes e terrestres pareciam comungar destinos comuns. Para organizar essa passagem dos tempos e estações, em suas regularidades e temendo as eventuais rupturas, a palavra grega Calein (chamar ou convocar para designar as ordens do tempo) deu origem aos calendários (e há diversos deles para além dessa tradição ocidental que usamos), que governam os ciclos e as setas dos tempos que se repetem ou dos que seguem adiante para não mais voltar. A observação das posições do Sol e da Lua nos céus governam as datações que os distintos calendários oferecem, de forma a permitir contar o tempo que se passou ou o que ainda está por vir.

A obsessão em controlar a ordem dos tempos (e nela acomodar fenômenos bem humanos como respeitar contratos e pagar contas) levou à busca de calendários que fossem cada vez mais precisos na relação entre a observação das regularidades da natureza e as necessidades das ações humanas. Não é à toa que autoridades como Júlio César (séc. I a.C.) ou o Papa Gregório XIII (século XVI d.C.) tenham determinado reformas nos calendários que designamos como Juliano e Gregoriano (esse que usamos habitualmente no mundo ocidental). Algumas das providências das grandes revoluções francesa e russa foram a de mexer no calendário para demarcar novas formas de contagem dos tempos e de sua adequação aos seus programas revolucionários. Não obstante, outras tradições usam outros calendários e outras demarcações. No mundo ocidental, dividimos a contagem do calendário entre antes e depois do nascimento de Cristo (a.C. e d.C.), tal como estabelecido pela influência do cristianismo, muito embora chineses, judeus, muçulmanos e outras culturas e povos utilizem distintas demarcações e organizações dos calendários, tal como o calendário muçulmano, que usa a Hégira de Maomé (ano 622 da Era Cristã) como esse ponto de demarcação.  


Na Torre dei Venti, do Palácio Vaticano, os astrônomos Christopher Clavius e Aloisius Lillius observaram a defasagem do calendário juliano, levando o Papa Gregório XII a publicar a Bula Inter Gravissimas, em 24 de Fevereiro de 1582, determinando que após o dia 04 de Outubro daquele ano se pularia para o dia 15 do mesmo mês, dando um "cavalo de pau" de dez dias no calendário, que não foi aceito durante muito tempo. Na Rússia, apenas um Decreto assinado por Lenin em 24 de Janeiro de 1918 ajustou o calendário juliano ao gregoriano. 


Dezenas e dezenas de gerações se sucederam e ingressamos naquilo que denominamos tempos modernos, nos quais as cidades ganharam dimensões jamais vistas, a iluminação artificial começou a ofuscar a luz desses astros, bem como a relação entre as pessoas e as forças da natureza passaram a ser cada vez mais mediadas por instrumentos, muitas vezes criando uma total alienação do olhar para entender o mundo ao redor, criando uma espécie de redoma que faz com que nossas formas de sensibilidade se tornem muito distintas das de nossos ancestrais. Os mais modernos de nós acabaram esquecendo de olhar atentamente os céus, muito embora cosmólogos, astrônomos, meteorologistas e astrólogos a eles continuem atentos nos seus ofícios e com seus objetivos e métodos de perscrutar o éter (outro nome grego), seja em busca de respostas às suas indagações mais diáfanas – quais as nossas origens e nossos destinos? – seja em busca de indagações mais práticas – é tempo certo de plantar? Qual a previsão do tempo para o próximo mês? Que cor de roupa me dará sorte no dia do meu aniversário natalício?

Os historiadores, muito embora às vezes não tomem consciência disso, viajam nessas águas, à medida em que lidam com a mudança dos fenômenos humanos nos tempos, palavra essa última que vem de uma divindade primordial grega, Cronos, o tempo, que devorava seus filhos ao nascerem, e que levou a estarem muito atentos à cronologia e aos calendários, para conseguir identificar na duração o lugar específico que cada fenômeno humano ocupava e a sucessão ou repetição que esses mesmos fenômenos apresentavam. Numa brilhante percepção, o escritor inglês Henry Fielding (1707-1754), na sua obra prima Tom Jones, identificava o deus dos historiadores a um “deus cervejeiro”, uma vez que essa divindade parecia viajar feito um bêbado por séculos e eras, às vezes pulando extensas durações em apenas uma ou duas linhas de seus escritos, quando diziam algo do tipo “nos três ou dois últimos séculos a vida foi sacudida pela revolução industrial” ou quando olhamos para Cleópatra e para as pirâmides de Gizé e identificamos tudo isso sob o rótulo “antiguidade egípcia”, mas que feitas bem as contas descobrimos que a rainha, cuja aludida beleza teria seduzido Júlio César e Marco Antônio, teria vivido cerca de meio milênio mais próxima de nós que aqui hoje lemos essas linhas que das pirâmides dos seus antepassados Faraós do Egito. Definitivamente, só cerveja para lidar com essas grandezas.

Afora tudo isso, sabemos que o tempo tem uma duração física e outra psicológica que raramente se encontram ou muitas vezes se trombam. Basta considerar os cinco minutos finais de um jogo de futebol e as sensações de quem está ganhando por pouco e de quem precisa ganhar por pouco: para os primeiros, esses cinco minutos se arrastam por uma verdadeira eternidade enquanto para os segundos, os cinco minutos parecem se esvair em míseros segundos. Essa relação entre as diversas formas de percepção da temporalidade nos colocam diante de indagações poderosas sobre se nós passamos pelo tempo ou é ele que passa por nós.

Um dos mestres do nosso ofício de tantos mestres, Fernand Braudel, num artigo seminal, A Longa Duração, discute como essas diferentes escalas de tempo se relacionam à vida humana. Desde o tempo febril das atividades cotidianas, sob as quais muitas vezes surge o inusitado ou inesperado, mas que observando numa escala de tempo muito prolongada pode permitir entrever a permanência de hábitos arraigados ou as rupturas com os mesmos. Chama atenção para fenômenos de curtíssima, curta, média, longa e longuíssima duração, que convivem articulados num tempo que é simultaneamente uno e múltiplo. Medir segundos, horas, dias, meses e anos estaria nas nossas capacidades mais perceptíveis, séculos e milênios dependeriam de abstração por ultrapassarem essa escala de vida humana. Para além da escala de vida humana (e da própria humanidade enquanto espécie) estariam tempos profundos da geologia e da astronomia, orçando em milhões e bilhões, algo incomensurável para a nossa percepção concreta. Esses tempos exigem distintos calendários e relógios com escalas muito distintas de mensuração. Parte deles pode ser percebida de forma consciente (quando cronometramos uma partida de futebol ou a duração de uma prova escolar) ou inconsciente (o tempo dos astros ou das batidas do coração, que estão lá, mas que não costumamos ou não podemos contar).  

Certo dia, ao ir para a UFPB ministrar uma aula sobre o referido texto de Braudel, o autor dessas linhas se propôs a um experimento de tentar tornar consciente pelo menos uma parte do tempo inconsciente, passando a anotar mentalmente a troca de marchas no câmbio do carro ao longo do trajeto e registrando as operações possíveis do próprio ato de dirigir ao longo do caminho. Concentração absoluta no ato de dirigir. Só pode relatar que chegou exausto e suando profusamente, bem como com a percepção bastante alterada (porém nada perto de Aldous Huxley nas suas “Portas da Percepção”), não recomendando esse experimento para qualquer ser em sã consciência. Ao anotar no quadro o número de marchas trocadas e explicar o seu sentido, a cara atônita dos alunos indicou que aquilo jamais deveria ser tentado novamente.

Todo esse rodeio sobre observações e tempo chega à Quarta-feira, dia 16 de Dezembro do ano de 2020 da Era Cristã, quando alertado por uma notícia, esse autor passou a observar no início de noite após noite o lento movimento de aproximação das órbitas dos dois gigantes gasosos do sistema solar, aqueles errantes que os gregos apelidaram de planetas, a saber, Júpiter e Saturno (nomes romanos de Zeus e Cronos nas suas designações gregas), que foram aparecendo cada vez mais próximos e visíveis a olho nu, numa conjunção cujo ponto máximo se dará no dia 21 de Dezembro, ou seja, amanhã. Essas aproximações e afastamentos dos planetas (na verdade separados por milhões de quilômetros, mas aparentes para o nosso ponto de observação), derivadas da trajetória de suas órbitas e da posição da Terra em relação a eles, permite que aqui e acolá seja possível vê-los e perceber esse movimento “vagante” nos céus. Inclusive, como as órbitas possuem ligeiras inclinações em relação ao Sol, nem sempre as aproximações se estabelecem com os mesmos ângulos. Uma conjunção plena, quando um planeta chega a eclipsar ou outro em relação ao nosso ponto de observação, a Terra, é bastante rara.

No caso de Júpiter e Saturno, esse alinhamento acontece a cada 20 anos terrestres, mas devido aos ângulos levemente inclinados de suas órbitas, o nível de aproximação aparente para o observador nem sempre é o mesmo. Já obtivemos notícias de fontes diversas que essas aproximações em ângulos muito aproximados são bastante raras e que a última aconteceu cerca de 400 anos atrás e à noite cerca de 800 anos atrás. Era século XIII da Era Cristã e VI da Hégira, nada a se desprezar no nosso tempo de vida humana.

Caminho do alinhamento entre Júpiter e Saturno. Foto Sky at Night Magazine/ Pete Lawrence.


        Tem sido possível ver a lenta, mas perceptível aproximação desses dois Reis do Sistema Solar, a olho nu, de maneira a poder experimentar uma sensação que nos une aos nossos mais distantes avós e ver o relógio cósmico funcionando, numa escala de tempo que está fora de nossa experiência concreta de observação e percepção na quase absoluta parte do tempo. Depois de dois dias de observação, os dois pequenos pontinhos distantes pareciam cada vez mais próximos e seu movimento podia ser constatado noite após noite. Nessa noite do dia 16, diante da magnitude do que víamos, fomos levados a constatar que pessoas que viram tantos fenômenos espetaculares do cosmo, bem que gostariam de ter essa chance que estava nos sendo oferecida caso tirássemos os olhos das telas de celulares e dos televisores e levantássemos a cabeça para o céu. Pessoas como Nicolau Copérnico, Tycho Brahe, Galileu Galiei, Johannes Kepler, Isaac Newton, Albert Einstein e Carl Sagan, que tantas maravilhas cósmicas puderam apreciar, bem que gostariam de estar junto conosco para ver essa, da qual foram privados pela simples razão de terem vivido em tempos distintos dos nossos. Não necessariamente visando fazerem grandes descobertas, mas talvez pelo fascínio de poderem ver esse fenômeno nessas condições tão prosaicas. 

  
Na noite de 17/12/2020, sendo possível perceber o alinhamento (desde que ampliando as imagens), fotografado pelo vizinho Érico Lucena. 


        Não poderia ser menor o nosso entusiasmo de ver os dois gigantes gasosos, as duas velhas divindades gregas – ou os nomes que tivessem adquirido em outras culturas – nos dar uma aula de observação de uma escala de tempo que ultrapassa de longe a nossa percepção comum. Talvez ela nos aproxime desses distantes avós e nos levem a ter a humildade de reconhecer a grandeza do universo diante da singeleza das nossas vidas individuais, o que longe de nos esmagar, eleva o nosso espírito e faz crescer o nosso universo interior, para além do egocentrismo do “ser capitalista”, que imagina que o cosmo está ao seu serviço e morre vítima de prepotência, ambição ou ainda depressão. O Titã Saturno, o velho Cronos que governa os tempos e Júpiter, o Zeus maior do Olimpo, se cruzam mais uma vez diante das retinas da humanidade e nos lembram que sempre é tempo de mudança e que “o novo sempre vem”, como nos lembra com grande sensibilidade um velho vate de nosso melhor cancioneiro.   


*Para a querida irmã Fátima, que comemora mais uma translação em sua vida, em pleno Equinócio de Verão no Hemisfério Sul o no dia do grande encontro dos gigantes gasosos no céu.