sábado, 29 de agosto de 2015

Da visibilidade à transformação social


* Publicado originalmente na Coluna de Opinião do Núcleo de Cidadania e Direitos Humanos da UFPB, em 24/11/2014. Lamentavelmente, parece que o quadro então apontado se confirma.

               Talvez a melhor função de um trabalhador intelectual que se pensa solidário a algum movimento social – e a palavra social aqui não está colocada gratuita nem casualmente – seja a de estabelecer algum apoio crítico (e não incondicional), que aponte eventuais problemas e sugira alguns elementos para a reflexão, que é uma condição necessária para uma ação efetivamente transformadora dessa mesma sociedade. Poderá se questionar com alguma boa dose de razão: por que alguém que não sofre exatamente na pele esses problemas, tem direito de dar algum “pitaco” sobre aquilo que não é da sua conta? Exatamente por não sofrê-los diretamente na pele, talvez isso possibilite obter uma sensibilidade/percepção particular para essas questões e apontar dimensões não percebidas numa outra condição, mais ou menos como: quem está de fora, vê diferente. Enfim, todo o apoio crítico merece ser igualmente criticado e o próprio exercício da contradição pode nos permitir afiar os argumentos intelectuais, aporte mais que necessário ao bom encaminhamento das boas lutas.
                Parto de uma constatação que pode/deve ser errônea – e que inviabilizará todo o restante –, mas que pode ter algum grau de plausibilidade e contribua para entreabrir toda uma zona de reflexão/ação. Indo direto ao ponto, penso que as políticas de ações afirmativas, principalmente de bem sucedidos movimentos negros e homossexuais (abarcando uma grande diversidade de condições), realizadas num crescendo desde a década de 1990, têm efetivamente atingido um de seus objetivos mais caros, que é a questão da visibilidade de uma série de discriminações/repressões que estariam invisíveis na nossa sociedade, ou seja, o racismo e a homofobia seriam componentes estruturais e ocultos de nossa teia social e seria necessário trazer esses discursos e práticas à luz do dia para ser possível combatê-los efetivamente (não deixando de esquecer que essa paleta de horrores reúne ainda outras tintas tão fortes quanto o machismo e outras práticas que chamaremos de “nefandas” (que não devem ser ditas), bem ao gosto do linguajar do Santo Ofício da Inquisição). Não resta dúvida que o noticiário nos vomita dia a dia uma série generalizada de situações que deixam às claras os paroxismos de racismo e homofobia que sacodem nossa sociedade; se se desejava tornar visíveis esses problemas, parece que o objetivo foi em larga medida atingido e essas perversões ocultas vieram se explicitar na cena pública.
              Essencialmente, atacaram-se as bases de nossas ideologias integrativas/agregadoras, que pretendiam interpretar nossa ordem social como dotada de uma grande plasticidade para absorver suas próprias contradições e resolvê-las de modo singular num grande oceano de malemolência e afetividade (e doses maciças de sadomasoquismo Brasil varonil afora). Talvez, sua expressão mais bem acabada e intelectualmente eficaz esteja num autor muito condenado e, lamentavelmente, pouco lido (e combatido equivocadamente de maneira simplista e insuficiente), Gilberto Freyre. Freyre tem como diapasão fundamental não uma pueril ideologia da democracia racial – que pode ser derrubada com um piparote fraseológico ou com um arroubo de slogan – mas uma sofisticadíssima percepção daquilo que denomina equilíbrio de antagonismos, que seria uma engenhosa capacidade social/cultural brasileira de sublimar os intensos antagonismos que sacodem nossa sociedade, de criar uma zona de confraternização, indistinção, penumbra e quase total invisibilidade que elide esses antagonismos para uma dimensão oculta, que permite que os mesmos se resolvam sem desagregar o tecido dessa singular sociabilidade. O seu corolário quase necessário seria que, dada essa possibilidade de equilibrar esses antagonismos nas “alcovas sociais”, cada um “saberia o seu lugar”, por introjeção de regras implícitas, e seria possível manter um discreto status quo, sem ser necessário tornar muito explícitas e formalizadas as regras de dominação/discriminação/repressão. Tudo se resolveria numa democracia racial, onde a violência seria apanágio de indivíduos torpes, não de toda uma sociedade encoberta pelo manto da afetividade que nos garantia que o brasileiro era bonzinho e a empregada era “quase da família”. Seria assim como se resolvêssemos na “casa” aquilo que não deveria ir à “rua”. No bipolo homem/branco/heterossexual, estaria a mulher/negra/homossexual e cada qual saberia de antemão qual o seu papel. Mostrar que existia realmente racismo e homofobia, por baixo dessa capa de docilidade, seria uma missão essencial para enfrentar e superar esse “atavismo nacional”.
                Se os movimentos de ações afirmativas permitem elevar indivíduos de segmentos sociais anteriormente excluídos à proa da sociedade (mesmo que ainda amplamente minoritários), têm como subproduto trazer à tona aquilo que denunciam: o caráter racista e homofóbico dessa sociedade, antes introjetado e agora explicitado. Nada a estranhar, então, com as explícitas e horrendas manifestações daqueles que subjetivaramo ethos do mando e, agora, se sentem desafiados e desautorizados em casa e na rua pela intensa visibilidade do que estava encoberto e vem se mostrar à luz do sol. Nada a estranhar – e tudo a repudiar – com o comportamento de gente que faz questão de estacionar seu carro possante em duas vagas como desafio explícito ao espaço público. Outro intelectual de porte, Sérgio Buarque de Holanda, já tinha nos alertado sobre esse desapreço estrutural ao espaço público, o que podemos traduzir nos dias que correm, pelo desrespeito dos direitos do outro. Casos escabrosos se repetem e chegam às manchetes ou redes sociais, envolvendo desde o incômodo raivoso de sinhôs e sinhás com empregadas e pedreiros – não raro, afrodescendentes – viajando de avião, ou ainda de bons pais, mães e filhos de família revoltados com homoafetividades explicitadas, até o mais recente e absurdo caso da sinhá fortalezense que atacou verbalmente e por escrito dois trabalhadores que rebocaram seu carro estacionado irregularmente, dizendo a um deles que, graças à maldita Princesa Isabel (seria uma sublimada Isabel Rousseff?), ele não estava no tronco, que era o lugar que o mesmo merecia, não sem antes proferir toda a espécie de sortilégios de pragas e maldições que fizeram o inquisitorial século XVII falar pela sua boca.
              Não houvesse isso, essa verdadeira explosão de nossos esgotos sociais/culturais, Freyre estaria redondamente certo. A luta pela afirmação não será ganha numa parada cívica na qual os desafetos de ontem baterão palmas para os novos heróis; desafiados e inseguros, os que se sentiam até ontem donos da casa (e da rua), partirão para tentar afirmar seus lugares, defender seus privilégios, provavelmente se tornarão mais raivosos e agressivos, mas isso os movimentos não devem temer ou estranhar. Devem enfrentar sem partirem para a “guetização”; devem falar para toda a sociedade, em vez de se encastelarem em pequenos grupos de solidariedade; devem estabelecer laços maiores de solidariedade e articulação, enfrentando efetivamente a sociedade de sinhôs e sinhás que gerou no mesmo ventre racismo, homofobia e todo o cortejo de horrores que não começam nem acabam aí. Se quiserem se tornar sinhôs e sinhás negros e/ou homossexuais numa “nova ordem”, a casa grande e o patriarcalismo terão saído vencedores, apenas incorporando mais alguns personagens privilegiados, que olharão sobranceiramente das varandas para aqueles que labutam duramente ao sol.
               Ou seja, se o negócio era dar visibilidade ao que era antes invisível, agora a luta muda de patamar: é necessário encontrar uma forma efetiva (e social) de combater essas verdadeiras patogenias sociais, bem além da mera afirmação (necessária, mas não suficiente) de indivíduos afrodescendentes e homossexuais a lugares de proa de nossa sociedade. Trata-se de mudar as regras do jogo e não apenas de encontrar um nicho no jogo alheio. Bem além de travar ruidosas batalhas lingüísticas (dos que vêem ingenuamente as linguagens como constituintes e não como constitutivas das relações sociais), é necessária a coragem de mudar lugares sociais, ou mais, de mudar efetivamente a sociedade, e, aqui, sociedade não é mais um jogo de linguagem, é aquilo que paga as contas dos soldados da linguagem e que tem uma concretude bem real e, muitas vezes, dolorosa.
               Numa das críticas mais pertinentes que já vi a Gilberto Freyre, Luís Felipe de Alencastro (A Pré-Revolução de 30. IN: Novos Estudos CEBRAP, nº 18, Set, 1987, p. 17-21) apontou cirurgicamente que o gênio de Apipucos só pôde criar sua engenhosa e sofisticada formulação elidindo do engenho/berço da nação os fluxos de comércio internacional, que tinham o tráfico de escravos numa ponta e a demanda de produtos agrícolas na outra. Ou seja, em bom e velho idioma sonante: só escondendo sorrateiramente as relações capitalistas, pôde Freyre mergulhar tudo num saboroso “caldeirão de cultura”. O historiador ainda apontou argutamente, ao final do referido artigo, que o livro ainda teria belos dias diante de si, como obra seminal da ideologia patriarcal. Todo o cuidado é pouco para que o patriarcalismo apenas não amplie sua plasticidade, em vez de ser efetivamente liquidado, como herança quase perene do nosso belo e saudoso passado.
               Parece que, agora, mais que a visibilidade, é necessário apostar na transformação social efetiva, no custoso enfrentamento e desmonte de todo esse pesado ethos patriarcal que domina séculos de nossa sociedade e que resistirá tenazmente a qualquer mudança, ou cooptará os mais talentosos para o seu regaço (que terão sido como aqueles arrivistas que dizem ser contra o capitalismo – ou algo mais diáfano como “o sistema” – apenas por que não são burgueses, aderindo rapidamente tão logo encontrem alguma prebenda dando sopa). É necessária uma segunda onda de visibilidade, a visibilidade da necessidade de transformação social, pois a manutenção das redes de poder (às vezes obliteradas em engenhosos jogos de linguagens), que chamamos capitalismo e sociedades de classes, é que garantem a perpetuação de espécies diferentes de dominação/sujeição/discriminação/exploração, que aparecem modernamente em outras práticas igualmente nefandas como a agressão física e moral a mulheres, o horror patológico a pobres, a superexploração dos trabalhadores, a periculosa agressão/destruição socioambiental, enfim, essa dantesca paleta de cores fortes que tornam hediondos os cenários de nossas vidas coletivas. E não basta mudar/acrescentar os personagens da trama, é preciso destruir mesmo essa trama e contar uma outra história. Não criar um mundo de novos senhores, mas um mundo sem senhores.

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