domingo, 28 de agosto de 2022

Marco extraordinário

 

Marco extraordinário

Sesquicentenário da Independência

Potência de amor e paz

Esse Brasil faz coisas

que ninguém imagina que faz

Hino do Sesquicentenário da IndependênciaMiguel Gustavo (1972)


A nação, por exemplo, é associada a uma totalidade orgânica, à imagem do corpo uno, indivisível e harmonioso; o Estado também acompanha essa descrição; suas partes funcionam como órgãos de um corpo tecnicamente integrado; o território nacional, por sua vez, é apresentado como um corpo que cresce, expande, amadurece; as classes sociais mais parecem órgãos necessários uns aos outros para que funcionem sem conflitos; o governante, por sua vez, é descrito como uma cabeça dirigente e, como tal, não se cogita em conflituação entre a cabeça e o resto do corpo, imagem da sociedade [...] corpo como metáfora de ricas implicações políticas.

Alcir Lenharo. Sacralização da Política (1986).

 

Art. 10 - Fica suspensa a garantia de habeas corpus, nos casos de crimes políticos, contra a segurança nacional, a ordem econômica e social e a economia popular. 

Ato Institucional nº 5 (1968)




                – O que você vai ser quando crescer?

                – Astrônomo.

                Assim uma estranha criança respondia, cheia de certezas e certamente com uma pronúncia peculiar do nome da profissão pretendida, a essa constante indagação, que busca prescrutar o futuro imaginado, e nem sempre realizado, das melhores projeções da espécie humana.

                Afinal, o disco narrando a chegada dos homens na Lua, a passagem do Kohoutek – um intrigante cometa que mobilizou a atenção dos irmãos mais velhos e seus amigos pendurados no teto da casa com um telescópio –, e uma visão indelével de Saturno no antigo Observatório da Avenida 13 de Maio, povoavam sua imaginação.

Na figurinha 1, a revista e o disco encartado com narrativa da
chegada da Apolo XI à Lua, fizeram parte da imaginação
do pequeno em sua mais remota infância. 











                

             Corriam os primeiros anos da década de 70 e tudo parecia ser grande e bom. Brasil Grande. Potência Emergente. Maior Hidroelétrica do Mundo. Maior Campeão Mundial de Futebol. Quanta coisa bacana!

                Nesse ponto, a memória envolve – e talvez trai – a História, mas aqui se evita o necessário recurso às fontes para corroborar ou invalidar essas lembranças. No entanto, o historiador adverte:

                – Atenção, criança! Isso é memória! A memória é uma divindade! Ela tece a História! Mas ela não é a própria História!

Quem sabe, um dia, o rigor factual necessário não seja investigado como se deve? Por ora, fica a memória em cena.

                Voltando ao ponto e em meio a tudo isso, uma música povoava os primeiros meses de 1972: “É Dom Pedro I. É Dom Pedro do grito. Esse grito de glória. Que acorda a história e a vitória nos traz”. Uma moeda com as efígies do homem do grito e daquele que mandava abafar os gritos, encantava os ouvidos e as pupilas do pirralho-astrônomo.

                A única encanação do petiz era com o tal “Marco” da música. Quem era esse Marco? Que inveja tinha desse menino, ser extraordinário que começava a música. Tempos depois soube que Marco Extraordinário não era exatamente um ser humano, tratava-se de coisa imaginária, o que comprova que boa parte da inveja é sempre de seres que imaginamos ser, mas que não costumam a passar das nossas projeções e inseguranças.  

                Também havia uma tal de Minicopa da Independência, com oportuna decisão entre Brasil – Campeão! – e Portugal. Que feliz coincidência, que traçava nas quatro linhas do gramado a repetição da história de heroísmo, amor à mãe gentil e respeito ao velho pai. Que mimosa história da pátria como grande família!  

                De repente, anunciado em bom som: Lá vinha o corpo do herói! O mesmo herói que aparecia no filme ao qual o garoto fora ao cinema assistir, empolgado com a cena de um grito retumbante e altissonante, que ecoou de Norte a Sul, de Leste a Oeste, do Oipapoque ao Chuí, do Cabo Branco à Serra de Contamana, tal como decorara na Escola e se orgulhara por ter um dos extremos em sua cidade, a que via o Sol nascer mais cedo e onde baleias eram caçadas e exibidas como atrações turísticas e orgulho da terra! Na mistura das raças. Na esperança que uniu. O imenso continente nossa gente, Brasil.   

                A empolgação aumentava pelo motivo do seu segundo nome composto, Emílio, ser o mesmo do homem que fazia gritar e abafava os gritos dos que gritavam. Seu tio, Presidente do Botafogo de João Pessoa, era, em sua avaliação, uma autoridade do mesmo quilate da de Brasília. Então, juntando tudo isso, a criança deduziu que seu pomposo nome seria: Ângelo Emílio Garrastazu Médici, Presidente do Botafogo!


                      

Na figurinha 2, a efígie dos dois heróis, o do grito e o do que fazia gritar e abafava os gritos. As cabeças que dirigiam o imenso corpo da Nação. Nas figurinhas 3 e 4, enquanto isso, outros corpos, que não deviam divergir da cabeça, eram espezinhados e punidos por Sua Majestade O Capital. 



            Certo dia, o Grupo Escolar Dom Adauto fora levado ao Aeroporto Castro Pinto – nosso querido Aeropinto – para ver os poucos aviões que ali pousavam. De repente, não se podia entrar. O Vice-Presidente estava chegando à cidade e a Segurança Nacional exigia que aquelas professoras e crianças fossem impedidas de ingressar no espaço, dada a possibilidade de um infante terrorista cometer um ato tresloucado. Conversa daqui, conversa dali, um acordo foi estabelecido: as crianças ficariam perfiladas, com bandeirinhas que apareceram de algum lugar, acenando entusiasticamente para o Vice. Por ser o menorzinho da turma, cuja mãe professora levava para a Escola desde tenra idade, o petiz ficou logo no primeiro posto para saudar aquela colenda autoridade.

Na Figurinha 5, no Dom Adauto, entre astronomia e história, o fascínio pelo corpo do herói que vinha trazer a felicidade da Nação. 










                De repente, a criança estava nos braços vicepresidenciais – cujo nome, depois soube, era Augusto Rademaker –, com bandeirinha e tudo. O Almirante lhe perguntou o nome e a criança recitou todos os seus títulos, com os carimbos e estampilhas de direito! O homem não entendeu nada e a sua genitora, pressurosa, teve de explicar os motivos de tão insólita criatura estar em seus braços. Risos – dizia sua mãe que até um tal de João Agripino e um monte de engravatados riram – e a ex-criança, hoje, agradece aliviada por não ter sido hospedada nas dependências do CENIMAR em razão de tal tentativa de usurpação dos “poderes constituídos da República para salvação da Nação”.     

                Bom, mas voltando ao principal dessa memória, lá vinha o corpo do herói, direto de Portugal. Como? Viria a João Pessoa? Passaria em frente à casa da tia-avó? Que coisa maravilhosa! Dias antes, a excitação era tremenda. Veria uma caveira pela primeira vez na sua vida. E logo uma caveira imperial! Não era para qualquer um.

                Dia aprazado. Rua Rodrigues de Aquino. Muro da casa da tia-avó. Lá vinha um cortejo cheio de carros, gente, uma barafunda tremenda. A caveira estava a caminho! De repente, passa um possante carro com uma espécie de caixa. Aplausos da multidão! Sesquicentenário. E vamos mais e mais. Na festa do amor e da paz.

                – Mainha, cadê a caveira de Dom Pedro?

                – Já passou.

                – Como? Eu não vi!

                – Estava dentro daquela caixa com a bandeira.

 

                Foi a primeira grande decepção cívica do pivete!


                Algo estava errado nos astros. Como assim? Cadê a caveira? Frustração e indignação. Desde lá, todos os planos astronômicos devem ter desandado e foi só seguir caindo pelas tabelas vida à frente. Deve ter sido culpa da visão de Saturno!



Entre um e outro momento cívico, os anos se passaram e a preocupação maior foi a de comer os peixinhos de chocolate pendurados na vara do “pescador típico” enquanto invejava o avião nas mãos da irmã caçula (figurinha 6) e tocar a corneta para tentar ficar popular na Escola (figurinha 7). Os tempos da caveira imperial já tinham ficado para trás. 


                Passados cinqüenta anos, a festa necrofílica continua como um Marco Extraordinário. Tal e qual um falsete de mau gosto e de uma cafonalha insuperável, eis o coração do herói trazido para felicidade da populaça! Mas causa estranheza saber: o que o coração fazia longe do resto do corpo de seu dono? Os egípcios dos “bons tempos” de Tutmóses III e desses faraônicos personagens talvez devessem achar tudo isso, como sugere o título da música de Dalto, Muito estranho... Quanto ao dono do coração, em 1824 mandou executar um magote de revolucionários da Confederação do Equador, entre os quais Frei Caneca. Diz-se que matar padres dá um azar danado... Por isso recebeu o merecido castigo de parar numa presepada do país que o expulsou em 1831...

                Pelas ruas, os gritos já podem ser ouvidos. E não são exatamente “brados fortes retumbantes”, são mais gemidos de corpos famélicos, desprezados, ou são também gritos abafados de quase 700 mil vítimas de uma necropolítica, que pretende repetir aquela que trouxe o corpo do herói e agora promete uma verdadeira apoteose cardíaca pelas ruas do país.

                A propalada mistura das raças ainda ressoa como alerta de que todas as raças devem estar integradas, desde que algumas delas aceitem os sobejos das demais e concordem com as condições aviltantes de trabalho e de vida, como nos lembra a diva Elza Soares quando canta sobre o preço mais barato da carne no mercado.

                Além do mais, o fato de que esse país faz coisas que ninguém imagina que faz, pode nos levar ao espanto de encarar que o celeiro do mundo, o paraíso do agrobusiness pop, tenha optado pelo caminho, escolhido pela sua gente de bem – cheia de aporofobia –, de retomar a pitoresca fome como política de Estado, quando a havia praticamente debelado anos antes. Que portento para o mundo e que orgulho de herança para o futuro! Ninguém segura esse país!  

A “fila do osso” em Cuiabá e “do lixo” em Fortaleza: no paraíso agropecuário não há lugar para todos.


                Voltando às memórias da criança-astrônoma, e trazendo a História para lhe retraçar os caminhos, é possível perceber que até o logro da heróica caveira, a serpente ainda não tinha entrado no paraíso. Mas o paraíso também não era um paraíso, era um simulacro de paraíso. Fora dessa redoma, o inferno pegava fogo, como todos os infernos costumam fazer.  

                Mas os astros nos lembram do movimento, e o movimento costuma a rasgar a cortina e o biombo que procuram velar as cenas que não podem ser vistas ou abafar os gritos que não devem ser ouvidos. Mas eles vêm...

 

 

 

Ao som de sua xará Ângela Maria, ouvindo o tal Hino, mas sem a mesma empolgação de cinco décadas atrás.   





segunda-feira, 23 de agosto de 2021

Sobre nomes e monumentos na Cidade que costuma mudar de nome

Não é segredo para nenhum estudante de História, e possivelmente para nenhum cidadão pessoense minimamente atento, que as injunções políticas nomearam e renomearam essa terra diversas vezes e que, talvez, o problema de saída seja simplesmente de a mesma ter um nome. Nomear é um ato de tomar posse, de possuir e de estabelecer propriedade e, quem sabe, os Potiguara sequer tivessem um nome para o solo onde hoje fica a cidade, mas para o rio que lhe dá parte substantiva de sua vida e que define a transitoriedade da mesma. Ao espoliarem a terra dos seus habitantes primitivos, os luso-espanhois lhe deram nomes, que configuravam seu senso de propriedade, tais como Nossa Senhora das Neves (demarcando um território Católico), Filipeia (demarcando um território Monárquico somado à denominação Católica); mas tudo leva a crer que o nome indígena deve ter prevalecido pelo costume, apesar de também os holandeses terem tentado impor outro nome, qual seja, o de Frederica (aportuguesamento de Frederikstadt). Em sua obra de 1675, Nova Lusitânia ou História da Guerra Brasílica, relembrando os acontecimentos da guerra contra os holandeses, o militar português Francisco de Brito Freire (c.1625-1692) atentava para essa disputa dos nomes:

 

 Por ficar entre as que já occupavaõ,na Ilha de Tamaracá, & no Rio Grande, resolveraõ,que a Província,& Cidade da Parahiba; cujo nome tomou do Rio que a banha, & lhe foi | sempre mais próprio, sem nunca o perder de todo, pelo que lhe deraõ antes os Nossos, de Felippea, depois os Olandeses, de Friderica: estes,de Friderico, Príncipe de Oranje; & aquelles,de Felippe,Rey de Espanha.



 








Brito Freire notou a questão dos nomes com argúcia.


Vejamos a análise arguta do militar seiscentista português sobre a situação de três dos nomes: os espanhóis tentaram impor Filipeia, os holandeses, por sua vez, Frederica, já Brito Freire, luso, afirma que o de Parahiba lhe era sempre o “mais próprio”, dado, talvez, ao hábito de assim seus habitantes e visitantes a nomearem. É de se supor que por estar escrevendo em 1675, quatro décadas após as guerras contra os holandeses e três após os portugueses terem rompido os laços dinásticos com a Espanha, certamente o nome indígena Parahiba fosse o mais conveniente diante da consolidação da ocupação da terra perante os seus antigos donos indígenas, que possivelmente já não consistissem mais numa efetiva ameaça de “varrer o europeu invasor de sua terra”. Se Filipeia pode ter sido útil para demarcar a posse da terra recém conquistada a partir de 1585, noventa anos depois, Parahiba talvez fosse mesmo a opção mais conveniente para dialogar com o passado, deixando os nomes espanhol e holandês como referências para os livros de História, entre eles o do próprio Brito Freire. Nossa Senhora das Neves parece não ter sido considerada pelo escritor, eventualmente porque de sua parte também não houvesse tanto interesse de um militar ligado ao Estado Monárquico privilegiar essa pertença Católica. E enfeixando tudo isso, provavelmente acima de tudo, o hábito daqueles que não escreviam tenha prevalecido e Parahiba tenha se consolidado nos falares do povo – Brito Freire nos sugere que desde os primeiros tempos – para além do que ficou escrito pelos poucos que escreviam.

Em 1930, uma mais recente e controversa viragem trouxe outro nome para a mesma cidade – que parece ter o intrigante hábito de manter uma média de um nome por século (com o clímax nos primeiros 60 anos), o que garante emprego para professores de História explicarem esses imbróglios de vez em quando – a partir de um crime de motivações pessoais com rebates políticos e, nesses últimos 91 anos, a cidade mantém o nome do finado Presidente do Estado da Paraíba. Como estamos perto de mais um século de nomeação, o que o futuro pode nos reservar? Ficaremos por aí ou inventaremos novos nomes?

O que parece ser presumível em termos de hoje – muito embora as presunções costumem a ser desmentidas na primeira ocasião e a história do futuro não pare de nos surpreender –, é que se um plebiscito fosse realizado para a opção dos cidadãos em relação ao nome efetivo da cidade, possivelmente o de João Pessoa acabasse por prevalecer pela força do hábito, mas não necessariamente pelo apego ao político. Talvez a mesma força do hábito que fez Parahiba prosperar no século XVII, no XXI jogasse contra essa nomeação fluvial-indígena.

Mas não é sobre isso exatamente que queremos falar, apesar desse intróito ter tudo a ver com o que se seguirá. Queremos falar das recentes e agudas tensões dos diálogos com o passado e que têm sacudido diversos países do mundo, como atestam os noticiários sobre as derrubadas de monumentos que se têm acometido aqui e alhures. Não se trata de assunto despido do fogo da controvérsia e não consideramos que deva ser discutido de forma linear ou panfletária, mas que exija certa reflexão.

Voltemos às décadas nas quais a cidade trocou de nome cerca de três vezes – Filipeia, Frederica, Paraíba – e a diversos rebates que se colocam atualmente diante da toponímia de um lugar bem no coração cívico de nossa cidade; falamos aqui do popular Ponto de Cem Réis, oficialmente denominado Praça Vidal de Negreiros. Antes, porém, de recuar ao século XVII, vamos fazer um sobrevôo pelo XVIII.

Comecemos por um pouco do que sabemos acerca do lugar.

Até o século XVIII esse lugar, situado na então extremidade sul da Rua Direita (atual Duque de Caxias) era um pequeno declive, que caminhando mais um pouco a sul, voltava a ter leve subida e seguia para o sul da Capitania. Qualquer um que hoje transite a pé o pequeno trecho entre a Igreja da Misericórdia e o Palácio da Redenção sentirá essa suave descida e a posterior subida. De tal maneira, considerando sua topografia, o local era chamado de “baixa” e durante certo tempo se denominava Rua da Baixa. Em algum momento do século XVIII a população de ascendência africana da cidade, ergueu na “baixa” a Igreja de sua Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, que demarcou o lugar por mais de dois séculos até à sua demolição no início do século XX, assim como também se deu em relação a outro templo próximo – de Nossa Senhora das Mercês dos Homens Pardos, na atual Praça 1817 – que também foi demolido na década de 1930, de tal forma que foram apagadas marcas importantes da presença afro-brasileira na nossa cidade.

Por ter se constituído num ponto central da circulação dos bondes na cidade, a antiga “baixa” ou Largo do Rosário acabou ganhando a denominação popular de Ponto de Cem Réis, que até hoje prevalece no linguajar habitual, apesar de sua denominação oficial em homenagem ao paraibano André Vidal de Negreiros, considerado um “herói da nacionalidade” brasileira por gente como Francisco Adolfo de Varnhagen, um dos pais de nossa historiografia. Também um seu contemporâneo, o célebre Padre Antônio Vieira, o elogiou ao Rei, muito embora tenha sofrido certo desencanto depois de algum tempo.

Desse modo, temos de considerar algumas presenças e outras ausências no cenário atual: além de denominar a Praça, Vidal conta com um monumento erguido em sua homenagem naquele território. Outrossim, ironicamente e de frente a Vidal, encontramos risonhamente sentado num banco o jornalista e compositor Livardo Alves, que nos remete ao Ponto de Cem Réis, à jocosidade de seu homenageado como cronista de nossa vida cotidiana e à centralidade que lugar manteve na vida da cidade durante décadas. Por outro lado, as referências à “pequena África” (aqui inventamos o nome, mas não por puro palpite) da velha Paraíba foram devidamente apagadas nas “higienizações urbanas” das primeiras décadas do século XX.

Não iremos questionar de antemão a figura de Vidal, muito embora o mesmo, pelo seu destacado papel na expulsão dos holandeses, tenha granjeado honrarias de benesses em sua época, sendo agraciado pela monarquia portuguesa com a governança do Maranhão (1655-1656), de Pernambuco (1657-1661) e Angola (1661-1666). Em Angola, em 1665, Vidal comandou as forças lusas contra o Rei do Congo, D. Antônio I (reconhecido como um Rei Católico e até então aliado dos portugueses), que teve o seu ponto culminante na Batalha de Ambuíla, na qual as tropas do monarca congolês foram desbaratadas e aquela monarquia foi submetida à força das armas portuguesas. É concorde entre historiadores de diversas correntes que a destruição da monarquia do Congo fortaleceu as redes de tráfico escravo naquele contexto e, portanto, Vidal teve um papel central em sua época na consolidação desse terrível negócio.



 Frente a frente, em bronze, Vidal e Livardo nos contam duas histórias da cidade. 


Que fazer, então?

A história apagada de nossa pequena África. Até o momento, a única imagem remanescente encontrada da antiga Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos. 




As opções são muitas e externamos aqui o que consideramos mais conseqüente.

Não nos parece que a pura remoção do monumento efetivamente leve a uma reflexão sobre o lugar de construção de uma plena cidadania para a população afrodescendente em nossa cidade, mas consideramos mais procedente e educativo que se construa no lado oposto da dita Praça um monumento de vulto – mediante consulta pública e concurso – que destaque a presença da cultura negra em nossa terra. Isso também poderia ser acompanhado da eventual troca do nome do logradouro. Dessa maneira, Vidal e o monumento da “Pequena África paraibana” estabeleceriam esse “tenso diálogo com os tempos” como toda boa história crítica tão bem sabe fazer. Seria um processo educativo em plena praça pública. No outro canto, observando do final do século XX, Livardo Alves contemplaria o diálogo entre os séculos XVII e XVIII, e nós, em pleno XXI, aprenderíamos um pouco mais sobre a história da nossa cidade, de tal forma que possamos nos tornar cidadãos mais plenos.              

          

          

domingo, 20 de dezembro de 2020

Cronos e Zeus na errante dança do tempo.


Calma, tudo está em calma

Deixe que o beijo dure, deixe que o tempo cure

Deixe que a alma

Tenha a mesma idade que a idade do céu

Paulinho Moska


        Nossos avós mais antigos, quanto mais recuarmos, inúmeras gerações atrás, não possuíam aparelhos de celular, de televisão, livros impressos, a escrita ou quaisquer outras mídias que nos são tão usuais no papel de mediar nossas relações com as demais pessoas ou as coisas. Muitas vezes, sua experiência de observação era direta ou por ouvir dizer, tendo a oralidade um papel essencial na transmissão do não visto, mas visto por alguém cuja palavra era digna de fé.

                Para estabelecerem a contagem do tempo, para sair para caçar, fazer certos plantios ou mesmo migrar, dependiam de uma acurada percepção da mudança das estações e marcavam essas mudanças pela relação com alguns fenômenos observados em certas plantas ou animais ou ainda os movimentos de certos astros no céu: quando determinada estrela estava em certa posição, era o tempo certo de fazer algo, o calendário era determinado pela observação dos fenômenos naturais e sua observância era questão de sobrevivência estação após estação. Se seria seco ou chuvoso, quente ou frio, tudo isso dependia dessa apurada observação e dela, por sua vez, poderia depender a diferença entre a abundância e a penúria. Dessa forma, e considerando as exíguas dimensões das cidades – ou até mesmo a sua inexistência – e de uma possante iluminação artificial (reduzida apenas a fogueiras ou pequenos lumes), as noites eram bem mais escuras e o céu apresentava um verdadeiro luzeiro que não conseguimos avistar, ofuscado pelas luzes de nossas urbes. Também a falta do barulho de fundo dos automóveis, deixava os ouvidos mais atentos aos pequenos barulhos da natura, que podiam significar até o perigo de uma fera à espreita. 

Assim, esses nossos mais antigos avós viam e ouviam mais as vistas e sons que o texto do mundo natural lhes contava. Olhavam muito mais para o céu, a fim de ordenarem seu tempo pela dança que os astros pareciam fazer no firmamento. Astros mais brilhantes, de distintas cores ou que ocupassem determinadas posições pareciam se relacionar a certas ocorrências. Entender essa “dança dos astros” ficou cada vez mais a cargo de certas pessoas sábias, para as quais a junção de duas palavras gregas astros (corpos celestes) e logos (discurso ou estudo), se daria o nome de astrólogos.  Se poderia crer que essa dança celeste determinaria em alguma medida os destinos de pessoas e povos inteiros. Muitas e muitas gerações adiante, já nos nossos tempos ditos modernos, a busca de um critério mais científico para essas observações, fez com que dessa matriz se derivasse outra palavra, juntando astros dessa vez a nomos (leis, governo), levando a astronomia, que nascera de seu velho tronco e com ela haveria de esbarrar daí em diante.

Observatório Maia de Chichén Itza, um dos muitos postos de observação dos astros criados pelas mais diversas culturas humanas.

Mas além de governar a vida cotidiana, olhar para os astros e saber pela voz dos antigos que eles estavam lá há muito tempo, dava ideia de uma permanência bem maior que a breve vida humana, o que levava a uma busca de explicações das origens e a tentar saber de onde vinha o universo e a vida, a criação. Céus e terra pareciam estar sempre ligados. A isso, a observação do universo – o cosmos para os gregos – muito mais tarde se juntou outra palavra, também grega – discurso ou logos –, donde a palavra moderna cosmologia, ou estudo dos fenômenos nas diferentes escalas do universo. Mas mesmo considerando as palavras modernas, cada povo e cada cultura possuíam suas próprias astronomia e cosmologia, relacionando sabiamente a sua vida com a observação da natureza que a cercava e da qual extraía e conferia sentidos. Se usamos palavras gregas é apenas pelo costume, mas ela poderia ser outra palavra extraída de outro idioma, de outra tradição, aqui tradição no melhor sentido de “ouvir dizer aquilo que os e as avós contam para os netos e netas”.

Cada povo e cada cultura estabeleciam suas observações celestes, que estavam relacionadas à sua posição mais próxima ou distante da linha que o sol parecia descrever no céu ao longo da mudança das estações – ora mais ao sul ora mais ao norte – e considerando a curvatura da Terra (muito embora disso a grande maioria não tivesse consciência, entendendo viver numa superfície plana), via os astros de maneiras diferentes e lhes atribuía nomes, de acordo com suas formas de percepção. Traçar linhas imaginárias entre certos astros, para alguns povos indígenas de língua Tupi-Guarani naquilo que hoje chamamos Brasil, era ver no céu um Homem Velho, uma Anta ou uma Ema; já na cosmologia dos Tukano, seria possível avistar um Camarão ou um Tatu. Por sua vez, na tradição africana dos antigos egípcios, ver uma barca, uma ovelha ou um leão era desenhar essas linhas imaginárias com outros traços mentais. Os antigos chineses dividiam o céu nas regiões do dragão azul, tartaruga negra, tigre branco e pássaro vermelho, onde identificavam boi, coração e carruagem em lugar das antas ou barcos de outros povos. Na linhagem ocidental que herdamos, desenvolvida ou bebida pelos gregos junto aos povos do Oriente próximo, acabamos atribuindo a essas linhas imaginárias as figuras de animais como escorpiões, peixes, touros, caranguejos e cabras, de instrumentos como a balança, ofícios como um aguadeiro, uma mulher virgem ou ainda figuras de sua mitologia como o homem cavalo Sagitário ou o guerreiro Órion. Todas essas “constelações” são linhas que a imaginação dos avós mais antigos, em diversas culturas, desenharam na tela do universo que contemplavam.  



Cada cultura identificava nos desenhos mentais que fazia dos astros figuras familiares às suas vidas, como os Tupi-Guarani com a Anta do Norte e os Gregos com o Aguadeiro (Aquário). 

                Alguns daqueles astros pareciam ter movimentos bastante fixos e previsíveis – sendo o Sol e a Lua os governantes do dia e da noite e as constelações partícipes dessa dança – e, portanto, observar sua trajetória e relacioná-la à mudança das estações era uma maneira de organizar a faina nos devidos tempos. Outros pareciam errar ao longo das estações do ano e ao longo de anos pareciam chegar mais próximos, alinhando-se ou afastando-se. Para eles os gregos atribuíram o nome de errantes ou vagantes, cuja palavra Planis levou aos errantes planetas que parecem fazer movimentos muito inusitados no céu ao longo das estações. Ainda havia aqueles fenômenos ariscos e rapidamente mutáveis, mas familiares, que vinham aparentemente sem maior aviso e poderiam ser benfazejos ou malfazejos, a depender das circunstâncias, estando neles orvalhos, chuvas, temporais ou granizo, nevascas, aparentes exalações de fogos e rápidas estrelas que pareciam cair e se evaporar no firmamento. Para tanto, a palavra grega meteoros levou à observação dos traços que indicassem a proximidade de alguns desses fenômenos e deu origem ao que chamamos modernamente de meteorologia, que interessa a um agricultor que precisa saber o tempo certo do plantio ou a uma jovem urbana que precisa saber se “vai dar praia”. Percebendo a permanência de certas características constantes no tempo (seco, quente, chuvoso, frio etc.), os gregos também trouxeram a palavra clima (pender, inclinação), pois associavam a constância de certos tempos (neve no inverno ou sol tórrido nos verões) a um padrão que levou à climatologia, que se relaciona diretamente com um conhecimento irmão da Historiografia, a Geografia, que descreve a Terra (Gaia) em suas mais diversas fenomenologias e as relaciona à interação entre os fenômenos humanos e naturais, podendo, inclusive, lidar com fenômenos de mudanças na própria terra na qual pisamos e que transcendem o tempo da ação humana através da Geologia. Por fim, muito raramente, apareciam no céu astros de longas cabeleiras, vindos sabe-se lá de onde e que sumiam tão misteriosamente quanto tinham aparecido. Suas comas (as cabeleiras para os gregos) deram origem à palavra Cometas, que pareciam astros que carregariam presságios de mudanças inesperadas na ordem que parecia governar o cosmo, que talvez trouxessem a desordem, ou o caos (palavra hebraica herdada pelos gregos para ser coberto de trevas) e que parecia representar algo de antes da criação, de tempos tão profundos e distantes que a mente humana não podia conhecer e geralmente deveria temer.













O Vocabulario Portuguez & Latino do Padre Rapahel Bluteau anotava no século XVIII essa denominação de errantes ou vagabundos para os planetas.

 

Em todas as culturas e lugares, muitas vezes eram atribuídos a todos esses astros ou aos mais portentosos que eram visíveis certos poderes e características divinas, para os quais se deveriam observar certos respeitos e mesmo rituais para garantir bonança e longa vida. Assim, culturas, no sentido mais pleno de materialidade da vida e imaterialidade de suas representações mentais, estavam intimamente ligadas aos instrumentos agrícolas que lavravam a terra ou ao uso das armas para abate de animais e ao culto das forças primordiais que pareciam governar tudo isso. Os céus e a Terra pareciam estar em estreito contato e os tempos celestes e terrestres pareciam comungar destinos comuns. Para organizar essa passagem dos tempos e estações, em suas regularidades e temendo as eventuais rupturas, a palavra grega Calein (chamar ou convocar para designar as ordens do tempo) deu origem aos calendários (e há diversos deles para além dessa tradição ocidental que usamos), que governam os ciclos e as setas dos tempos que se repetem ou dos que seguem adiante para não mais voltar. A observação das posições do Sol e da Lua nos céus governam as datações que os distintos calendários oferecem, de forma a permitir contar o tempo que se passou ou o que ainda está por vir.

A obsessão em controlar a ordem dos tempos (e nela acomodar fenômenos bem humanos como respeitar contratos e pagar contas) levou à busca de calendários que fossem cada vez mais precisos na relação entre a observação das regularidades da natureza e as necessidades das ações humanas. Não é à toa que autoridades como Júlio César (séc. I a.C.) ou o Papa Gregório XIII (século XVI d.C.) tenham determinado reformas nos calendários que designamos como Juliano e Gregoriano (esse que usamos habitualmente no mundo ocidental). Algumas das providências das grandes revoluções francesa e russa foram a de mexer no calendário para demarcar novas formas de contagem dos tempos e de sua adequação aos seus programas revolucionários. Não obstante, outras tradições usam outros calendários e outras demarcações. No mundo ocidental, dividimos a contagem do calendário entre antes e depois do nascimento de Cristo (a.C. e d.C.), tal como estabelecido pela influência do cristianismo, muito embora chineses, judeus, muçulmanos e outras culturas e povos utilizem distintas demarcações e organizações dos calendários, tal como o calendário muçulmano, que usa a Hégira de Maomé (ano 622 da Era Cristã) como esse ponto de demarcação.  


Na Torre dei Venti, do Palácio Vaticano, os astrônomos Christopher Clavius e Aloisius Lillius observaram a defasagem do calendário juliano, levando o Papa Gregório XII a publicar a Bula Inter Gravissimas, em 24 de Fevereiro de 1582, determinando que após o dia 04 de Outubro daquele ano se pularia para o dia 15 do mesmo mês, dando um "cavalo de pau" de dez dias no calendário, que não foi aceito durante muito tempo. Na Rússia, apenas um Decreto assinado por Lenin em 24 de Janeiro de 1918 ajustou o calendário juliano ao gregoriano. 


Dezenas e dezenas de gerações se sucederam e ingressamos naquilo que denominamos tempos modernos, nos quais as cidades ganharam dimensões jamais vistas, a iluminação artificial começou a ofuscar a luz desses astros, bem como a relação entre as pessoas e as forças da natureza passaram a ser cada vez mais mediadas por instrumentos, muitas vezes criando uma total alienação do olhar para entender o mundo ao redor, criando uma espécie de redoma que faz com que nossas formas de sensibilidade se tornem muito distintas das de nossos ancestrais. Os mais modernos de nós acabaram esquecendo de olhar atentamente os céus, muito embora cosmólogos, astrônomos, meteorologistas e astrólogos a eles continuem atentos nos seus ofícios e com seus objetivos e métodos de perscrutar o éter (outro nome grego), seja em busca de respostas às suas indagações mais diáfanas – quais as nossas origens e nossos destinos? – seja em busca de indagações mais práticas – é tempo certo de plantar? Qual a previsão do tempo para o próximo mês? Que cor de roupa me dará sorte no dia do meu aniversário natalício?

Os historiadores, muito embora às vezes não tomem consciência disso, viajam nessas águas, à medida em que lidam com a mudança dos fenômenos humanos nos tempos, palavra essa última que vem de uma divindade primordial grega, Cronos, o tempo, que devorava seus filhos ao nascerem, e que levou a estarem muito atentos à cronologia e aos calendários, para conseguir identificar na duração o lugar específico que cada fenômeno humano ocupava e a sucessão ou repetição que esses mesmos fenômenos apresentavam. Numa brilhante percepção, o escritor inglês Henry Fielding (1707-1754), na sua obra prima Tom Jones, identificava o deus dos historiadores a um “deus cervejeiro”, uma vez que essa divindade parecia viajar feito um bêbado por séculos e eras, às vezes pulando extensas durações em apenas uma ou duas linhas de seus escritos, quando diziam algo do tipo “nos três ou dois últimos séculos a vida foi sacudida pela revolução industrial” ou quando olhamos para Cleópatra e para as pirâmides de Gizé e identificamos tudo isso sob o rótulo “antiguidade egípcia”, mas que feitas bem as contas descobrimos que a rainha, cuja aludida beleza teria seduzido Júlio César e Marco Antônio, teria vivido cerca de meio milênio mais próxima de nós que aqui hoje lemos essas linhas que das pirâmides dos seus antepassados Faraós do Egito. Definitivamente, só cerveja para lidar com essas grandezas.

Afora tudo isso, sabemos que o tempo tem uma duração física e outra psicológica que raramente se encontram ou muitas vezes se trombam. Basta considerar os cinco minutos finais de um jogo de futebol e as sensações de quem está ganhando por pouco e de quem precisa ganhar por pouco: para os primeiros, esses cinco minutos se arrastam por uma verdadeira eternidade enquanto para os segundos, os cinco minutos parecem se esvair em míseros segundos. Essa relação entre as diversas formas de percepção da temporalidade nos colocam diante de indagações poderosas sobre se nós passamos pelo tempo ou é ele que passa por nós.

Um dos mestres do nosso ofício de tantos mestres, Fernand Braudel, num artigo seminal, A Longa Duração, discute como essas diferentes escalas de tempo se relacionam à vida humana. Desde o tempo febril das atividades cotidianas, sob as quais muitas vezes surge o inusitado ou inesperado, mas que observando numa escala de tempo muito prolongada pode permitir entrever a permanência de hábitos arraigados ou as rupturas com os mesmos. Chama atenção para fenômenos de curtíssima, curta, média, longa e longuíssima duração, que convivem articulados num tempo que é simultaneamente uno e múltiplo. Medir segundos, horas, dias, meses e anos estaria nas nossas capacidades mais perceptíveis, séculos e milênios dependeriam de abstração por ultrapassarem essa escala de vida humana. Para além da escala de vida humana (e da própria humanidade enquanto espécie) estariam tempos profundos da geologia e da astronomia, orçando em milhões e bilhões, algo incomensurável para a nossa percepção concreta. Esses tempos exigem distintos calendários e relógios com escalas muito distintas de mensuração. Parte deles pode ser percebida de forma consciente (quando cronometramos uma partida de futebol ou a duração de uma prova escolar) ou inconsciente (o tempo dos astros ou das batidas do coração, que estão lá, mas que não costumamos ou não podemos contar).  

Certo dia, ao ir para a UFPB ministrar uma aula sobre o referido texto de Braudel, o autor dessas linhas se propôs a um experimento de tentar tornar consciente pelo menos uma parte do tempo inconsciente, passando a anotar mentalmente a troca de marchas no câmbio do carro ao longo do trajeto e registrando as operações possíveis do próprio ato de dirigir ao longo do caminho. Concentração absoluta no ato de dirigir. Só pode relatar que chegou exausto e suando profusamente, bem como com a percepção bastante alterada (porém nada perto de Aldous Huxley nas suas “Portas da Percepção”), não recomendando esse experimento para qualquer ser em sã consciência. Ao anotar no quadro o número de marchas trocadas e explicar o seu sentido, a cara atônita dos alunos indicou que aquilo jamais deveria ser tentado novamente.

Todo esse rodeio sobre observações e tempo chega à Quarta-feira, dia 16 de Dezembro do ano de 2020 da Era Cristã, quando alertado por uma notícia, esse autor passou a observar no início de noite após noite o lento movimento de aproximação das órbitas dos dois gigantes gasosos do sistema solar, aqueles errantes que os gregos apelidaram de planetas, a saber, Júpiter e Saturno (nomes romanos de Zeus e Cronos nas suas designações gregas), que foram aparecendo cada vez mais próximos e visíveis a olho nu, numa conjunção cujo ponto máximo se dará no dia 21 de Dezembro, ou seja, amanhã. Essas aproximações e afastamentos dos planetas (na verdade separados por milhões de quilômetros, mas aparentes para o nosso ponto de observação), derivadas da trajetória de suas órbitas e da posição da Terra em relação a eles, permite que aqui e acolá seja possível vê-los e perceber esse movimento “vagante” nos céus. Inclusive, como as órbitas possuem ligeiras inclinações em relação ao Sol, nem sempre as aproximações se estabelecem com os mesmos ângulos. Uma conjunção plena, quando um planeta chega a eclipsar ou outro em relação ao nosso ponto de observação, a Terra, é bastante rara.

No caso de Júpiter e Saturno, esse alinhamento acontece a cada 20 anos terrestres, mas devido aos ângulos levemente inclinados de suas órbitas, o nível de aproximação aparente para o observador nem sempre é o mesmo. Já obtivemos notícias de fontes diversas que essas aproximações em ângulos muito aproximados são bastante raras e que a última aconteceu cerca de 400 anos atrás e à noite cerca de 800 anos atrás. Era século XIII da Era Cristã e VI da Hégira, nada a se desprezar no nosso tempo de vida humana.

Caminho do alinhamento entre Júpiter e Saturno. Foto Sky at Night Magazine/ Pete Lawrence.


        Tem sido possível ver a lenta, mas perceptível aproximação desses dois Reis do Sistema Solar, a olho nu, de maneira a poder experimentar uma sensação que nos une aos nossos mais distantes avós e ver o relógio cósmico funcionando, numa escala de tempo que está fora de nossa experiência concreta de observação e percepção na quase absoluta parte do tempo. Depois de dois dias de observação, os dois pequenos pontinhos distantes pareciam cada vez mais próximos e seu movimento podia ser constatado noite após noite. Nessa noite do dia 16, diante da magnitude do que víamos, fomos levados a constatar que pessoas que viram tantos fenômenos espetaculares do cosmo, bem que gostariam de ter essa chance que estava nos sendo oferecida caso tirássemos os olhos das telas de celulares e dos televisores e levantássemos a cabeça para o céu. Pessoas como Nicolau Copérnico, Tycho Brahe, Galileu Galiei, Johannes Kepler, Isaac Newton, Albert Einstein e Carl Sagan, que tantas maravilhas cósmicas puderam apreciar, bem que gostariam de estar junto conosco para ver essa, da qual foram privados pela simples razão de terem vivido em tempos distintos dos nossos. Não necessariamente visando fazerem grandes descobertas, mas talvez pelo fascínio de poderem ver esse fenômeno nessas condições tão prosaicas. 

  
Na noite de 17/12/2020, sendo possível perceber o alinhamento (desde que ampliando as imagens), fotografado pelo vizinho Érico Lucena. 


        Não poderia ser menor o nosso entusiasmo de ver os dois gigantes gasosos, as duas velhas divindades gregas – ou os nomes que tivessem adquirido em outras culturas – nos dar uma aula de observação de uma escala de tempo que ultrapassa de longe a nossa percepção comum. Talvez ela nos aproxime desses distantes avós e nos levem a ter a humildade de reconhecer a grandeza do universo diante da singeleza das nossas vidas individuais, o que longe de nos esmagar, eleva o nosso espírito e faz crescer o nosso universo interior, para além do egocentrismo do “ser capitalista”, que imagina que o cosmo está ao seu serviço e morre vítima de prepotência, ambição ou ainda depressão. O Titã Saturno, o velho Cronos que governa os tempos e Júpiter, o Zeus maior do Olimpo, se cruzam mais uma vez diante das retinas da humanidade e nos lembram que sempre é tempo de mudança e que “o novo sempre vem”, como nos lembra com grande sensibilidade um velho vate de nosso melhor cancioneiro.   


*Para a querida irmã Fátima, que comemora mais uma translação em sua vida, em pleno Equinócio de Verão no Hemisfério Sul o no dia do grande encontro dos gigantes gasosos no céu. 

terça-feira, 2 de julho de 2019

Percebendo os calcetas: um aprendizado sobre a observação histórica.


O clássico texto Apologia da História, de Marc Bloch, em seu capítulo 2, tece riquíssimas considerações sobre a observação histórica, que se remete ao que os historiadores conseguem ver e como eles conseguem perceber aquilo que veem. Com finas análises de um consumado mestre, Bloch fornece lições para todas as gerações daqueles que se dedicam ao labor da História.

Os calcetas. Imagem do artista francês Jean-Baptiste Debret
retratando o Brasil do século XIX. 


Entre outras questões, um dos pontos centrais da argumentação de Bloch é que o olhar do historiador deve estar sempre aguçado para perceber detalhes aparentemente miúdos e que as respostas que um historiador obtém das suas pesquisas depende fundamentalmente das questões que ele levanta; sem questionário, sem indagações, sem problematizações, como mesmo diz Bloch “é o tudo pronto que espalha gelo e tédio”. Conclui esse capítulo nos lembrando que a pesquisa histórica não está despida das surpresas, da possibilidade de se defrontar com o inesperado.

Em Agosto de 2018, coube-nos a ventura de topar com um conjunto de documentos aparentemente perdidos da Câmara Municipal da Cidade da Parahyba (que hoje englobaria grosso modo os Municípios de João Pessoa, Cabedelo, Lucena, Conde, Bayeux e Santa Rita), referentes à pequenos períodos de inícios do século XIX e alguma coisa do início do XX, uma pequena parcela do que deve ter existido em outros momentos. Daí desenrolou-se um projeto, que se encontra em andamento, cujos resultados ainda deverão trazer algumas possibilidades bastante ricas em termos da história da Cidade.

Fazendo um arrolamento muito geral do que foi entrevisto até o momento, temos documentos sobre Escolas de Primeiras Letras, obras públicas, abastecimento de gêneros, questões de política local, relações com o governo Imperial, saúde pública, abastecimento de água, festividades cívicas e religiosas, enfim, uma grande diversidade de temas que nos permite chegar um pouco mais próximos do cotidiano da velha cidade.


O Presidente da Província informa não haver
calcetas disponíveis para as obras de limpeza
das fontes públicas [27/10/1826]
Preocupado de maneira pessoal com questões ligadas ao fornecimento de água, bicas, chafarizes, cacimbas, pus-me a observar com mais atenção documentos que remetiam à essas questões. Num deles, localizado há alguns meses, datado de 27 de Outubro de 1826, o Presidente da Província, Alexandre Francisco de Seixas Machado, responde negativamente à uma solicitação da Câmara acerca do fornecimento de seis calcetas para a limpeza das fontes públicas, que estavam sofrendo de encalhes de areias, devido a recentes enxurradas na Cidade. Focado na questão das fontes e do encalhe das areias, deixei passar em brancas nuvens o termo calcetas e a vida seguiu seu rumo. Supunha ser algo ligado à calçamento, mas não aprofundei o significado da intrigante palavra.

Passado certo tempo, um aspecto do todo da documentação me dava alguma inquietação, que diz respeito à quase invisibilidade do mundo do trabalho e das pessoas dos trabalhadores, muito embora um historiador treinado no ofício saiba que ele e eles está e estão lá. No que foi visto até o momento, só um documento fala explicitamente de escravos, outro menciona certas atividades de pesca, olaria e plantio de capim na baixada do Varadouro, outro, ainda, cita a existência de teares na cidade, mas tudo é muito escasso e fugidio como são certas histórias que decorrem quase à sombra, quase invisíveis no “grande palco da História”; o trabalho e os trabalhadores normalmente habitam esses desvãos.

  Dessa inquietação, nasceu uma indagação sobre onde poderia haver pistas fugazes desses trabalhadores e seus trabalhos no meio daqueles velhos papeis. Foi quando o documento das fontes e das areias se transformou no “documento dos calcetas”. A mudança do foco do olhar e a pergunta que não havia sido feita, trouxeram outra história tão rica à tona, a história do uso do trabalho compulsório para apenados durante o período colonial e imperial. A rápida lembrança de uma imagem, já vista tempos antes, de Jean-Baptiste Debret, que falava de calcetas, foi o estalo sobre o que estava lá – à vista – e ainda não tinha sido visto.

Jean-Baptiste Debret registrou essa imagem de calceteiros [calcetas] em ação no  Rio de Janeiro, por volta de 1835.


A palavra ganhou imagens, ganhou história, à qual se juntaram Debret e minha aluna Aldenize, que contribuiu com uma interessante referência sobre uma “revolta dos calcetas”, ocorrida nos Açores (Portugal) em 1835, na qual esses apenados acabaram duramente reprimidos pelas forças locais. Essa é uma daquelas histórias que ganham vulto à medida em que são esmiuçadas e que novos olhares e novas perguntas são postas. 

No documento em tela, além da problemática da água na cidade, estava contada uma história do trabalho e das obras públicas em outros tempos na Parahyba de antanho. Atrás da simples palavra calcetas estava toda uma hierarquia social misturada a uma segregação racial tão inerente a séculos de nossa história. Lá estavam essas pessoas muitas vezes anônimas e escondidas nas sombras voltando ao proscênio da história; aqueles que executavam com seus braços os afazeres que mantinham a cidade em movimento nos tempos de lá e nos de cá.

Após tantas leituras e aulas ministradas com o texto sempre novo do velho Bloch, eis um professor de História aprendendo uma lição de história, o que acaba sendo uma fascinante possibilidade de um conhecimento que tem a marca de um contínuo fazer, e esse fazer – é bom que se diga – é um trabalho. 

domingo, 25 de novembro de 2018

ALÉM DOS RÓTULOS E ATRAVÉS DA RÓTULA – UMA BRINCADEIRA DOMINICAL COM AS URUPEMBAS E A HISTÓRIA.



Devendo huma vez acabar com o antigo e impolitico uso das urupembas nas portas, e janelas nas ruas ainda as principais desta Cidade, o que só podia admitido nos principios rusticos da primeira fundação... serem tiradas as ditas urupembas, e substituirem com algum outro reparo que quizerem como gelozias ou vidraças... 
Deus guarde a Vossas Senhorias por muitos annos. Palacio do Governo da Parahyba. 26 de Outubro de 1825  


Recentemente tivemos a ventura de topar com uns documentos tidos por perdidos da Câmara de Vereadores da antiga cidade da Parahyba. Trata-se de um esparso conjunto de papeis que englobava de maneira incompleta e descontínua os anos de 1814-15, 1824-28 e 1910-12. Sobraram do muito que se perdeu em muitas décadas pelos motivos mais diversos. Não se trata de um enorme volume, mas acaba se transformando num acervo bastante significativo, dada a possibilidade que permite ver aspectos escassamente conhecidos ou praticamente desconhecidos da vida urbana nesses momentos. Os pesquisadores encontrarão muito do que se fartar nos próximos tempos.
A diversidade de assuntos é muito rica e damos aqui uma ideia geral do que se encontra nesses velhos papeis: regulamentação ou proibição de currais de pescaria por atrapalharem a navegação do rio; briga com o Vice Presidente da Província pela nomeação do Médico da Cidade logo após à derrota da Confederação do Equador; falta de Professores de Primeiras Letras; problemas de recuperação de estradas e pontes em Mandacaru e Gramame, com decorrentes dificuldades para o abastecimento de farinha para a Tropa Paga e para o Mercado Público devido à importância estratégica da Ponte de Gramame; notícias diversas da Corte Imperial, como nascimento do Príncipe Herdeiro, aniversário do Imperador, falecimento da Imperatriz entre outras; atos de política internacional como notificação e júbilo pelo reconhecimento da Independência do Império do Brazil pelo Reino de Portugal, Tratados Internacionais de Amizade, Navegação e Comércio entre o Império do Brazil e os Reinos da Prússia, a Liga Hanseática e o Império da Áustria; ação de ladrões em Gramame; Festejos da Padroeira Nossa Senhora das Neves; briga entre um Padre e umas "molheres apelidadas as Venancias" (quem seriam essas Senhoras? Daria um ótimo nome para uma banda de Rock local) por acesso à água numa cacimba no lugar das Convertidas (atual Maciel Pinheiro); providências para conserto de fontes e bicas de água. Resumindo: há uma pletora de fragmentos da vida urbana da velha Parahyba que serve como uma pequena cápsula do tempo dos tempos d’antanho.
Um dos documentos mais curiosos que encontramos, e que causou certo espanto de quem o viu, é de uma Vereação de 26 de Outubro de 1825, no qual o Presidente da Província Alexandre Francisco de Seixas Machado fala do uso das urupembas nas portas e janelas das casas da Cidade e determina sua remoção em breve tempo. O que seriam as tais urupembas e por que que as mesmas eram vistas, no começo do século XIX, como algo impolítico, ou seja, marca de atraso e de costumes rústicos que deveriam ser combatidos?
As urupembas seriam uma espécie de treliças colocadas nas janelas e portas, que teriam finalidade de sombrear o ambiente interno mantendo a sua ventilação, bem como isolando o espaço interno das casas do olhar indiscreto das ruas. Supostamente, seria possível ver o que se passava nas ruas, sem ser visto. Isso permitiria o recato necessário às mulheres naquela sociedade distante de nós quase dois séculos, mas cujo uso já era considerado impolítico por um Presidente de Província. Como entender essa situação aparentemente banal?
Bom, não se tratava apenas de uma questão estética como pura forma, mas de como uma determinada forma de sociabilidade se manifestava através de uma simples estrutura de janela das casas. O "ver sem ser visto" poderia ser fonte de mexericos (hoje modernizados com o nome brega de fake news). Por outro lado, o historiador Paulo César Garcez Marins, no seu interessantíssimo livro "Através da Rótula: Sociedade e Arquitetura Urbana no Brasil, séculos XVII a XX", mostra que as treliças de madeira que pareciam isolar o interior das casas do ambiente externo, também eram brechas de passagem para atos não tão adequados para a moralidade da época. Inclusive, acrescentamos aqui que o nome gelosia aplicado a algumas dessas janelas, vem da palavra italiana gelosia, que advém de uma palavra árabe de mesmo significado, que em português é ciúme. A gelosia seria a garantia de maridos ciumentos. Seria?


Curiosamente, a mesma palavra gelosia é usada no francês jaloux e no inglês jealous. Está numa magnífica música de John Lennon, "Jealous Guy" (em nordestinês paraibano algo como "caba ciumento").
E a palavra urupemba ou urupema? De onde viria esse nome? Bom, é tupi e significa uma peneira feita de talas de madeira para peneirar mandioca. Como lembra uma treliça, temos o termo urupemba usado para essas treliças que ficavam nas janelas e que a autoridade da velha Parahyba viu como impolíticas.
Do reduzido espaço de uma janela pudemos nesse jogo lúdico juntar os antigos moradores da Parahyba, a arquitetura mediterrânea e árabe, a palavra ciúme em italiano, francês e inglês, o grande caba ciumento John Lennon e uma estrutura treliçada que ganhou um nome tupi devido a uma peneira de farinha.
Tá misturado aqui arquitetura, economia, moralidade pública e privada, música pop, a velha Parahyba e por aí vai. Sem besteira de "rótulos" de “nova história de sei-lá-o-que”, “sei-lá-mais-que", talvez chamar de História já seja mais que suficiente, pois, como diria o velho Marc Bloch “é o tudo pronto que espalha gelo e tédio”. Através das rótulas das Histórias e sem se ficar mesmerizados nos rótulos, muita coisa passa ou pode passar de um lado para o outro, sejam as práticas licenciosas esperadas das recatadas domésticas, sejam algumas coisas intragáveis apresentadas como a mais pura ciência.